BRUNO VICARIA
de Tarumã
Todo mundo sabe que o automobilismo depende de exposição. Principalmente da televisão, a "menina dos olhos" da maioria dos patrocinadores, que sustentam as equipes. Só que, após a última corrida da Stock Car V8, disputada há duas semanas em Buenos Aires, surgiu a pergunta: até que ponto os interesses de uma emissora de televisão podem influir em uma competição?
Uma das pessoas mais capacitadas para responder essa pergunta é Ricardo Sperafico. O paranaense registrou a pole-position para a etapa argentina, mas logo cedo no domingo encontrou problemas no carburador de seu carro. No entanto, o piloto da WA/Mattheis contava com o tempo de oito minutos entre o fechamento dos boxes e a placa de cinco minutos para a largada (período em que é executado o Hino Nacional) para solucionar o problema. Só que não foi bem isso o que aconteceu.
Segundo Carlos Montagner, diretor de prova da Stock Car e da F-1, "o tempo de abertura de box também foi encurtado de 20 para 13 minutos, mas isso já estava previsto na programação. Só que o evento suporte, uma categoria local, acabou se estendendo um pouco, o que atrasou a programação da V8". No entanto, a TV Globo, responsável pela transmissão da Stock Car V8 para o Brasil não aceitou o atraso e exigiu que a prova fosse iniciada no horário programado. E é aí que começa o calvário de Sperafico.
Mesmo com o tempo em que os boxes ficaram abertos reduzido, o paranaense contava com os minutos extras, previstos pelo regulamento. Com o problema solucionado, Sperafico conseguiu ir para pista no limite e, ao chegar no grid, foi surpreendido com o aviso de cinco minutos para a largada. Por ordem da "Venus Platinada", que não costuma ser muito simpática nessas ocasiões, o Hino Nacional foi cancelado e, assim que os boxes fecharam, foram iniciados os procedimentos de largada.
"Quando surgiu o problema, pensamos: 'dá tempo, pois ainda vai rolar o Hino'. Tanto que os mecânicos trocaram o carburador em três minutos! Só que os boxes fecharam e logo em seguida subiu a placa (de cinco minutos)", relembrou.
Com o carro alinhado na posição de honra, a WA/Mattheis passou a correr contra o tempo para "tampar o carro" - colocar o capô e o vidro frontal, feitos por simples encaixes. O procedimento foi encerrado assim que liberaram a volta de apresentação e Ricardo, que partiu um pouco atrasado e já buscava seu lugar de direito, recebeu um aviso de seu engenheiro pelo rádio: "Ele me disse que eu teria de deixar todo mundo passar e ficar em último no grid".
O fato irritou muito o paranaense, que calculou incontáveis prejuízos com a atitude passiva da entidade em detrimento da competição e a favor da programação do domingo. "Perdi muito com isso. Principalmente o lucro que podia ter tido com a exposição dos meus patrocinadores na TV em uma única volta, que é a de apresentação", relatou.
Para Ricardo, a CBA foi omissa ao deixar a emissora determinar o que acontece dentro da pista. "Este é um evento da CBA e ela foi negligente neste caso. Ela não pode deixar a televisão mudar as regras. Eles pisaram na bola por não ter autonomia. Se tudo tivesse acontecido no tempo normal, podia ter largado na minha posição de origem", criticou o piloto. E com razão.
Como resultado, Ricardo largou do fundo do grid e, competindo contra outros 37 carros, não demorou muito para se envolver em um incidente e deixar a prova. "Em função deste problema, eles não seguiram o regulamento e eu fui prejudicado duas vezes. Uma pela exposição e a outra pela competição. Largando da pole, minhas chances de ganhar a corrida eram reais, mas isso não aconteceu", desabafou.
Nesta sexta-feira (26), durante o briefing (encontro dos pilotos com a direção de prova), os comissários chegaram a se retratar ao piloto, só que era tarde demais e o estrago já havia sido feito.
"Eles abriram exceção para a Globo e não abriram para mim, o pole-position. Merecia ser indenizado por tudo isso. O chefe da nossa equipe reclamou, mas a CBA achou ruim!", revelou. "Eles pediram desculpas, mas, se tiver de acontecer de novo, vai acontecer, infelizmente", encerrou o piloto, respondendo a pergunta feita no primeiro parágrafo. E é por essas e outras (o buraco é bem mais embaixo) que a Stock Car, principal categoria do automobilismo nacional, é vista mais como um entretenimento do que um esporte.