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A berlineta de três rodas
Joaquim Lopes 26/10/2007 - 18:36
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| Uma berlineta igual à que Mestre Joa estampou em Goiânia: acabou com o casório |
O caso é o seguinte. Perto da minha casa havia uma loja de carros usados. Isso lá por volta de 1969, período áureo da adolescência.
Gostava de às vezes passar por lá junto com a turma, para dois dedos de prosa com o Cidão, dono da loja e gente muito fina.
Ele também gostava de corridas de automóveis e, vez por outra, nos acompanhava naqueles périplos malucos em nos metíamos atrás dos carros que tanto amávamos.
Mas nunca passou pela cabeça do Cidão participar de corridas. Muito embora a gente insistisse todo o tempo, Cidão continuava reticente e refratário à idéia. Ainda mais que se preparava para casar, depois de um longo e enrolado noivado com uma moça conhecida pelos maus bofes e humor quase insuportável.
Corridas não estavam nos seus planos imediatos.
Aí, num belo dia no meio de uma negociação, apareceu uma berlineta Interlagos. Comoção geral na turma.
Um exame inicial já mostrou o pedigree da máquina: um mandraquíssimo santantonio de quatro pontos, rodas mais largas, os obrigatórios pneus Cinturato. Debaixo do capô, a jóia preciosa: um motor 998 cc (o famoso “motor mil”, para os iniciados), dupla carburação, comando bravo. No cantinho do vidro traseiro, o adesivo da Torke, a legendária oficina de preparação que um dia já fora de Luiz Pereira Bueno.
Papai Noel fora generoso conosco aquele ano. Presente melhor, impossível...
Ficamos todos em polvorosa, mas o duro era convencer o Cidão a botar o carro nas pistas. Corridas de estreantes, como mandava o figurino.
Tanto enchemos o saco do Cidão que ele resolveu correr com a tal berlineta. Mas essa era uma operação secreta. A noiva, já meio impaciente com o casamento que não saía, jamais poderia, em hipótese nenhuma, saber da aventura.
Nos esmeramos na preparação da máquina, dentro do muito pouco que sabíamos, e assim nosso pequeno exército Brancaleone se mandou para Goiânia para disputar a preliminar dos 300 Quilômetros, prova tradicional do Planalto Central.
Lembro-me vagamente que as atrações da corrida principal eram o duelo dos carros de Brasília e uma BMW 2002 Ti de Max Weiser e Emerson Maluf, mas nosso foco estava na corrida de estreantes, que seria disputada no sábado à tarde.
E o Cidão ali, todo produzido de macacão e capacete, num cagaço monumental, e cercado daquela molecada barulhenta e irresponsável!
Pois bem, não sei como, mas a notícia vazou e logo na hora de o Cidão entrar na pista para os treinos oficiais, a noiva apareceu de surpresa, com os futuros sogros e o cunhado a tiracolo.
Deu a maior confusão: a noiva perdeu a compostura e, dedo em riste, ameaçava o Cidão com impropérios pouco adequados a uma candidata ao altar.
O cunhado marombeiro já se preparava para dar uns catiripapos no coitado do Cidão e o sogro não se furtava a mostrar o cabo de um Taurus 38 meio atravessado na cintura.
Estava feia a coisa pro lado do pobre Cidão, que deu de ombros, balançou as mãos e nos olhou de longe, meio resignado, como a dizer: “Fazer o quê...?”.
Mas já tínhamos ido longe demais com aquela brincadeira! Depois de toda aquela trabalheira, inscrição paga, nem largar? De jeito nenhum!
Consegui convencer o Cidão e me deixar correr no lugar dele, mesmo que meio contrariado. Oportunidade como aquela eu não poderia deixar escapar. Quanta irresponsabilidade!
Pus o capacete – era um daqueles marca Induma aberto e, para disfarçar o rosto imberbe, alguém providenciou não sei de onde uma daquelas “toalhinhas laváveis” que as moçoilas de antigamente usavam para higiene íntima quando “naqueles dias”. Mas limpa, obviamente, imaculadamente branca.
Pois bem, assim equipado fui para a pista.
O circuito da avenida Assis Chateaubriand consistia em duas pistas duplas, separadas por um canteiro onde vicejavam algumas mudas de palmeiras recém-plantadas. No meio, alguns retornos e meias-luas, que à guisa de curvas quebravam a monotonia das retas.
Como organização não era o forte dessas corridas, todo mundo treinava junto e foi no meio desse angu de caroço que botei a berlineta para andar.
De início, meio devagar para sentir a máquina – devagar até demais, confesso. Mas ao cabo de umas lentas duas voltas, senti mais confiança e passei a acelerar mais. O valente motorzinho Renault roncava decidido, empurrando seus 70 cavalos.
Emoção pura!
Na verdade, o circuito não apresentava muitas dificuldades, só demandava algum cuidado nas freadas. Os carros – Opalas, Fuscas envenenadíssimos, DKWs, Simcas, Gordinis, protótipos, enfim, todo mundo - passavam por mim bem quentes, às vezes forçando a ultrapassagem quase em plena curva.
Procurava não atrapalhar muito, me mantendo na parte externa da pista. Foi então que na aproximação de uma curva deu-se a confusão.
Vi pelo retrovisor a chegada de um Opalão de um piloto de Uberlândia, seguido de um protótipo VW de Brasília. Os dois vinham quentíssimos, babando na gravata, a ultrapassagem dupla era inevitável.
Calculei rapidinho, encostei bem à esquerda (a curva era à direita), dando passagem. O Opala manobrou lindamente, veio por dentro e iniciou a ultrapassagem. Aí o diabo da trapizonga de Brasília alinhou com o Opala também, atrasando a freada!
Não havia espaço suficiente para os três carros, a batida era inevitável.
Então apavorei, meti o pé no freio e, enquanto os dois malucos iam embora, aquele velho peso extra do motor traseiro da berlineta se fez sentir.
Começou o movimento de pêndulo e piorei as coisas com um excesso de correção no volante. Erro típico de estreante. E a panca memorável não pode ser evitada.
Bati feio subindo no meio fio com toda a pompa e circunstância a que tinha direito e a ocasião merecia, levando junto uma inocente palmeira anã que não teve tempo de crescer.
O carro foi parar em cima de uns sacos de palha de arroz, ali providencialmente colocados, guard-rail caboclo para pilotos caipiras.
Desci com o coração aos pulos e avaliei os estragos, que não eram poucos: a suspensão traseira esquerda quase toda arrancada, roda quebrada debaixo do carro, fibra de vidro da carroceria quase destruída. Prejuízo mais que considerável.
O duro foi chegar aos boxes e enfrentar a ira da noiva, pois a berlineta era o capital que teriam para investir no propalado casamento.
Saí de lá quase a peso de porrada.
Cidão passou um bom tempo sem falar comigo, o casamento não saiu, a ex-futura noiva me queria ver pelas costas.
Não sei por quê, mas berlinetas não me trazem boas lembranças.
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