A FIA expôs em sua página na manhã desta quarta-feira (19) as transcrições das reuniões do Conselho Mundial que foram feitas em 26 de julho — 84 páginas — e 13 de setembro — 115. Tirando todo o caso de espionagem em si, que levou à punição da McLaren no último encontro, o destaque ficou para a confirmação do relacionamento afetado entre Ron Dennis e Fernando Alonso. O dirigente confessou que desde o GP da Hungria, mais precisamente após o treino classificatório, não conversa com o espanhol.
"Não estamos nos falando, mas esse não é o problema. Desde a Hungria, não tivemos nenhuma conversa", revelou na audiência da semana passada na sede da FIA em Paris. "Primeiro, nosso relacionamento sempre foi extremamente frio. Na cabeça de Fernando, há uma forte crença de que nossa política, em que cada piloto recebe tratamento igual, em relação aos pilotos não reflete sua condição de campeão mundial. Ele acha que sua experiência e conhecimento que ele trouxe de outro time são tamanhos que ele deveria receber alguma vantagem."
O chefe da escuderia de Woking também mencionou o episódio da classificação do GP magiar, em que Lewis Hamilton não obedeceu ao time de dar passagem para Alonso, que "retribuiu" segurando o inglês nos pits e o impedindo de completar sua última volta rápida no popular Q3.
"Naquela discussão na Hungria, ele (Alonso) estava nervoso com o que havia acontecido na véspera, mas não chegou nem perto do meu grau de nervosismo. Disse coisas das quais ele se retratou depois", comentou Dennis, que ouviu as queixas do bicampeão no domingo pela manhã. "Sobre a passagem de material, ele fez uma referência específica aos e-mails de um engenheiro da McLaren. Quando ele terminou a afirmação, eu disse: 'Chega!'. Saí da sala, trouxe Whitmarsh, e Fernando repetiu tudo, na frente de seu manager. Quando ele terminou, virei para Martin Whitmarsh e perguntei o que deveríamos fazer. Martin falou que deveríamos contar tudo para Max. Depois que Martin e Fernando saíram, foi o que eu fiz. Contei de novo toda a história. Estava muito nervoso, e Max me acalmou."
Falou Dennis que Max lhe aconselhara a não fazer nada. "Antes da corrida, o empresário de Fernando veio e disse que ele tinha perdido a cabeça e se retratou pelo que ele tinha dito. Quando liguei para Max, ele entendeu e disse coisas que são irrelevantes aqui, apesar de que me deixaria bem mais confortável se eu as dissesse", fez o suspense.
Ron contou que, após o terceiro lugar na corrida em Hungaroring, Fernando pediu-lhe desculpas. "A questão terminava ali. Até 26 dias depois, quando os pilotos receberam a carta. O que ocorreu neste ínterim, não sei. Não sei que circunstâncias levaram aquilo a domínio público", esquivou-se.
Segundo Dennis, a McLaren solicitou que Alonso fosse à reunião do Conselho. "Ele não veio porque não quis", contou. "Ele não quer falar muito com ninguém. Ele é muito solitário por ser um piloto. Não está aqui por escolha dele", completou. "Além disso, ele disse que tinha outras coisas para fazer por causa de acordos prévios. Não posso forçá-lo a vir."
Lendo as transcrições, houve praticamente comum acordo de que a McLaren "nunca contribuiu para se descobrir a verdade, pelo menos não espontaneamente", diferente do apregoado pelos comunicados e declarações de membros do time, de que estava alinhada com a FIA e quem quer que fosse para levantar os fatos como foram. Chegaram a ser feitas analogias a outros esportes pelos defensores de que o time deveria ter sido excluído. "Se um corredor toma uma substância proibida, ele é desclassificado; não é necessário mostrar que ele teve vantagem. Se um time de futebol inscreve um jogador suspenso, será desclassificado ou perde pontos; não é necessário mostrar que o jogador teve influência no resultado do jogo."
Veio à tona, e merecem ressalvas, também, que:
1) a Ferrari usa gás alternativo ao nitrogênio nos pneus de seus carros, fato mencionado na conversa entre Pedro de la Rosa e Alonso em seus e-mails;
2) Lewis Hamilton, de terno e gravata, após ouvir uma série de declarações de membros do meio, respondeu a três perguntas com um "é", "eu li" e "sim";
3) que De la Rosa confirmou que a McLaren só não testou a distribuição de peso da Ferrari em seu MP4-22 porque "era radicalmente diferente da nossa" e que a declaração, curta, do trecho sobre toda a filosofia do carro da McLaren foi omitida pela equipe — antes de publicá-la, a FIA enviou às duas equipes as transcrições e pediram para que fossem retiradas as partes que não desejavam serem expostas;
4) Dennis se recusou a responder à pergunta "você investigou se a informação que Alonso tinha sobre o caso para ver se era verdade?";
5) Dennis confirmou não ter um grande relacionamento com Max Mosley "devido a várias questões nos últimos anos sobre as quais tivemos diferenças de opinião.
6) o advogado da McLaren, Ian Will, pediu, por favor, que a McLaren não fosse excluída dos Mundiais de 2007 e 2008 porque geraria "perdas extraordinárias" nas benesses promovidas pelo Pacto da Concórdia. "Vocês vão destruir a McLaren se fizerem isso", definiu.
Diante de tudo, o Conselho decidiu excluir a McLaren do Campeonato de Construtores e aplicou-lhe uma multa de US$ 100 milhões.