Mario Bauer
de Espírito Santo do Dourado, MG
A GM vai deixar de patrocinar a equipe de atletas norte-americanos após os jogos olímpicos de Pequim porque o orçamento de US$ 1 bilhão, de acordo com a diretoria da empresa, não pode mais ser justificado perante opções de marketing mais interessantes e com um retorno maior. Os comandantes da maior montadora automobilística do mundo querem mais eficiência e um máximo de retorno para cada dólar gasto.
Impossível neste aspecto não levar a F-1 em consideração, o esporte que reúne uma audiência global de 1,9 bilhões de consumidores em mercados todos fornecidos pela GM. Dividindo este bilhão em quatro anos, o ciclo de aproveitamento de cada Olimpíada seria um orçamento de US$ 250 milhões anuais. Bem à altura dos top teams da F-1. Mas em contrapartida há o ganho de desenvolvimento tecnológico, renda por meio de patrocínios — que podem chegar até US$ 150 milhões anuais —, e, a partir de 2009, uma renda considerável oriunda das participações de direitos de transmissão de TV.
O repentino interesse pela F-1 que nunca se manifestou antes na GM pelo mero fato do público norte-americano desconhecer a categoria surgiu após sete GPs em Indianápolis. E o mercado interno não perdeu a prioridade, mas após a compra da Daewoo — e estabelecendo a marca Buick na China —, a exigência de uma divulgação mais ampla, a nível global, cresceu substantialmente. Conseqüência do estilo inovador do diretor-executivo da GM norte-americana e vice-presidente de desenvolvimento de produtos, Robert Lutz, que está modernizando a imagem da GM com sucesso desde que chegou em 2001.
Bob, como o "inventor" do Dodge Viper é apelidado, é um cara dinâmico, além de comparecer a eventos da GM em seu caça Alphajet alemão (!), é fã de automobilismo e tem um Shelby Cobra com motor de 600 hp na garagem. Mas apesar da paixão pelo automobilismo e pela criação de automóveis chamativos, é também um mestre de eficiência. E como tal, tem muita admiração por Carlos Ghosn e a maneira como o brasileiro recuperou a Nissan. Um ano atrás, quando a GM negociava um take-over com a Renault, Lutz se interessou mais detalhadamente do porquê Ghosn, frio e calculista, não cortou a F-1 quando assumiu a presidência da montadora francesa. A surpresa do americano, nascido em Zurique: em 2004, somente o terceiro ano de atuação da equipe, a Renault F-1 teve, além da exposição, um lucro de US$ 4,7 milhões.
Após esta revelação, Bob Lutz teve uma conversa particular com Louis Schweitzer, que além de ex-CEO da Renault, é seu primo de terceiro grau. Em seguida, discutiu o assunto com seu chefe, Rick Wagoner, e encomendou um estudo secreto, do qual nem o diretor da GM Racing, Mark Kent, tem conhecimento. Neste relato, devem se apresentar as diversas opções de como a multinacional pode ingressar o mundo dos GPs com sucesso. É possível que a GM imite o procedimento adotado com sucesso pela Renault: comprar uma equipe bem equipada e produzir motores em uma sucursal, até adquirindo a Cosworth de Kevin Kalkhoven, que está quase ociosa. Além de um projeto de um V8 potente pronto para a F-1, a Cosworth poderia retomar o projeto do motor de IRL que a GM abandonou alguns atrás.
Com um orçamento de US$ 1 bilhão de 2009 até 2012 e um valor idêntico que muito provavelmente será desviado da mesma forma para a F-1 do time norte-americano após as Olimpíadas de inverno de 2010, estaria liberado mais US$ 1 bilhão adicional a partir de 2011, assim financiando um projeto de oito anos de duração na totalidade com US$ 2 bi. E com probabilidade de ainda gerar um possível lucro, fora o prestígio de um título mundial que obviamente consta nesta projeção. O lado bom para a diretoria: se a operação falhar, o culpado será — para os acionistas cobrarem a cabeça — o próprio Bob Lutz, que agora tem 75 anos e não tem muito a perder.
*Mario Bauer é ex-piloto, jornalista especializado em automobilismo e tem o blog
GP Insider.