Veredicto apressado
Flavio Gomes
26/07/2007 - 21:38

FIA
Dennis chega à sede da FIA: não sabia de nada?
Dennis chega à sede da FIA: não sabia de nada?
Como fugir dos clichês depois de uma decisão como a que a FIA tomou quinta-feira? Terminou em pizza. Foi o que mais li e ouvi depois da curiosa absolvição-culposa, ou culpa-absolvida, perpetrada pelo Conselho Mundial em Paris.

A McLaren é culpada, mas não será punida. Dá para entender?

Talvez a formulação mais precisa não seja essa. A McLaren tem culpa, mas não é culpada, e por isso não será punida. Dá para entender agora?

A culpa da McLaren, na compreensão dos egrégios conselheiros, seria ter em seus quadros um sujeito capaz de fazer o que fez, o projetista Mike Coughlan — que estranhamente não é citado em nenhum momento pela equipe em seus comunicados, e até ontem permanecia no site do time como integrante de seu staff técnico. Deveria cuidar melhor de seu quadro funcional.

E como não foi possível provar, até agora, que o material de que ele se apropriou — um calhamaço com 780 arquivos da Ferrari contendo tudo, do projeto do carro a dados sobre seu desempenho e sobre a organização do time rival — foi usado, como punir a McLaren?

Afinal a McLaren posa de coitadinha impoluta, jamais imaginaria que um funcionário seu fosse capaz de tamanha barbaridade. Por isso não pode ser punida.

Deu para entender?

O grande pecado do Conselho foi o de atuar apenas como juiz, e não como investigador. O órgão partiu de teses que ainda podem ser derrubadas para dar, às pressas, um veredicto que atenta contra a categoria, por ser simplista demais.

A questão é muito mais complexa. Porque deixa no ar uma série de perguntas que não foram respondidas. A saber:

1) Quem enviou o pacote de informações sigilosas da Ferrari para a casa de Coughlan, já que Nigel Stepney, acusado pelo time italiano, jura que não foi ele?

2) Como a Ferrari soube que esse material chegou às mãos de alguém na McLaren, e como sabia que era Coughlan o receptor (a história da lojinha de xerox não vale)?

3) Coughlan mostrou seu conteúdo a mais alguém na McLaren? Alguém perguntou isso a ele? E o que ele respondeu?

4) Mesmo se não mostrou, ele usou essas informações nos carros ingleses, ou na estratégia da equipe para as corridas em que a McLaren derrotou a Ferrari, como em Mônaco, Montreal e Indianápolis?

5) Alguém pagou por esse material ou ele saiu de Maranello de forma espontânea, na faixa, e chegou pelo correio sem remetente?

6) Se Stepney não tem participação, como jura que não tem, por que ele e Coughlan procuraram a Honda em junho, juntos, para oferecer aos japoneses seus préstimos profissionais?

7) Como a McLaren foi desconfiar do invisível assoalho móvel da Ferrari na primeira prova do ano, na Austrália? Alguém da Ferrari alertou a equipe inglesa?

A McLaren negou, claro, participação na aquisição do pacotão. Apontou o dedo para Coughlan, tratado pelo time em seus textos para a imprensa como “indivíduo”, e ele que se vire. Só que o time já afastou alguns outros bagres gordos de sua direção. Seria um indício de que a cúpula prateada foi contamidada pelas 780 páginas ?

E a Ferrari nessa história? A equipe italiana ficou inconformada com a decisão e se pronunciou de forma duríssima, dizendo que a não punição à McLaren legitimou a desonestidade, abriu um precedente perigosíssimo, violou princípios fundamentais do esporte, prejudicou a credibilidade da F-1 e por aí vai. Acusou ainda os rivais, dizendo que a espionagem foi descoberta por acaso e que, não fosse isso, a McLaren continuaria roubando e usando suas informações.

A FIA deixou uma única porta aberta para demonstrar que não concluiu o caso, dando a entender, de leve, que ainda não está satisfeita com seu desfecho. Diz a entidade que se no futuro ficar provado que a McLaren usou as informações furtadas de Maranello de alguma maneira, exclui o time inglês do Mundial de 2007 e do de 2008, também.

Uma ameaça dura, sem dúvida, embora a entidade não tenha se esforçado para esclarecer nada até agora. Deu um veredicto, repito, baseado em informações superficiais, juras de lisura e com cara de rito sumário, para tentar abafar logo um episódio que arranha seu lindo campeonato.

O tempo fará essa história cair no esquecimento? Não creio. A Ferrari ficou mordida. Vai continuar com suas ações no âmbito policial e legal na Itália e na Inglaterra. Polícia investiga. Descobre coisas e chega a conclusões. Para as quais a FIA não poderá fechar os olhos.

E Coughlan e Stepney? Bem, eles foram convocados para depor pela FIA que, com seu eufemismo habitual, pede que ambos convençam os dirigentes de que não merecem ser afastados do automobilismo até o dia em que o mundo der seu último suspiro. As vidas esportivas deles, de qualquer maneira, estão acabadas. E a imagem da McLaren, apesar da absolvição, maculada. São os resultados imediatos do imbróglio.

E se pedirem de calabresa, a minha é sem cebola, por favor. Coberta de mozzarella.




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