O policial vê o meu passe permanente da F-1 e pergunta se eu vou torcer para Lewis Hamilton. Pronto, um sorriso amigável e está autorizada a entrada no país. O sucesso de Hamilton definitivamente amoleceu esses ingleses mesmo em tempos difíceis de novas suspeitas de atentados. Os jornais falam dele todos os dias, a TV mostrou cada passo que ele deu nesta semana cheia de compromissos sociais e nem os amigos escaparam como testemunhas para contar a vida de Hamilton antes do estrelato. O clima seria o ideal para a primeira corrida do líder do Mundial diante de sua torcida, não fosse o escândalo do roubo de material confidencial envolvendo Ferrari e McLaren, as duas equipes que se rivalizam na disputa do título de um dos mais equilibrados campeonatos dos últimos anos.
Eu nunca vi um escândalo desse em 35 anos de F-1. Desta vez não se trata das habituais suspeitas de cópia de uma ou outra criação de um projetista, mas de um processo com provas contundentes de roubo de material confidencial envolvendo um funcionário da Ferrari, Nigel Stepney – já demitido – e o desenhista chefe da McLaren, Mike Coughlan, que teve seu contrato suspenso. A McLaren ficou sem defesa quando a polícia encontrou na casa de Coughlan material que pertencia à equipe italiana. O fato de os dois terem trabalhado juntos em três ocasiões – Lotus, Benetton e McLaren – nos últimos 20 anos só agravou a situação.
Justiça seja feita, desse tipo de coisa o inglês não gosta. O torcedor anda até revoltado com a McLaren, temendo que o fato possa prejudicar o momento de Hamilton, transformado em herói nacional. Até algum tempo atrás ele era personagem apenas de revistas especializadas que conheciam o retrospecto que o levou à F-1 com 22 anos de idade. Os três primeiros pódios conquistados no ano serviram para chamar a atenção da mídia inglesa em geral. No GP de Mônaco, quando a McLaren fez dobradinha e ele chegou em segundo, toda a imprensa já acusava a equipe de estar favorecendo o espanhol Alonso. Aí vieram as duas vitórias consecutivas no Canadá e Estados Unidos, e mais o oitavo pódio consecutivo na França, para criar uma certeza patriótica de que Hamilton será, contra tudo e contra todos, o campeão mundial de 2007. Ingresso para Silverstone não existe desde a polêmica gerada pelo resultado de Mônaco. E a corrida de domingo será mostrada ao vivo em dezenas de cinemas de Londres e cidades do interior.
Mas a Ferrari está planejando jogar água na cerveja dos ingleses. Aliás, literalmente, porque a chance de chuva é de 60%. Independentemente da chuva, o progresso que a Ferrari mostrou em Magny-Cours não é pequeno. Raikkonen e Massa deixaram a McLaren de Hamilton 30 segundos atrás. E não há razão para se esperar nada diferente em Silverstone. Tanto que Ron Dennis já deu início à velha política de jogar lenha numa fogueira que ele espera já estar ardendo na Ferrari por ter sido Raikkonen e não Massa o vencedor na França. Claro que o resultado foi bom para a McLaren. Na Espanha, Alonso repetiu as palavras do chefe. O jogo está bem combinado.
