Site cobra R$ 100 a mais por ingressos do GP
Warm Up
25/05/2007 - 01:25

A cara do site que se faz passar por oficial do GP do Brasil
VICTOR MARTINS*
de São Paulo

Carolina Bloch, atendente, é lépida ao dizer "Website GPBrasil, bom dia". Mas não revela a mesma destreza quando perguntada se se trata do site oficial da corrida brasileira. Gaguejante, hesita em um primeiro momento; depois, admite que não se trata da página "real", logo desviando para o fato de que sua empresa oferece os ingressos para as provas em Interlagos há seis anos. Em um segundo telefonema, horas depois, expressa-se melhor. Com "ato falho": "fazemos este serviço há cinco anos".

A moça que empresta sua voz às ligações é contratada da ALK GP Brasil Ltda., que na internet ressalva que a organização da etapa de F-1 é da Prefeitura de São Paulo e da promotora Interpro e se diz, insistentemente, uma agência de turismo "legalmente constituída" e que "apenas comercializa ingressos e pacotes turísticos a interessados em participar do evento".

Sua supervisora é Marta. Negou-se a fornecer seu sobrenome de início. Minutos depois, "concordou": Marta de Almeida. Pois Marta "de Almeida" comenta que a ALK tem "22 domínios de internet diferentes, todos com hiperlinks que levam ao nosso site". No Google, o internauta que requer informações a respeito dos tíquetes encontra o www.gpbrasil.com no topo das buscas. Lá, a venda já rola solta. As entradas do setor G, por três dias, não saem por menos de R$ 445. Já os do "premium paddock" custam, cada, R$ 8.895,00. O frete não está incluso. "A taxa de envio para entrega do pedido a (sic) domicílio, (sic) é calculada pelo destino (CEP)." Quem compra agora só recebe em setembro.

Bem como os vendedores de ingresso de porta de estádio de futebol a um preço inflacionado, a internet já abriga um sem número de cambistas. "Eles devem usar 'laranjas', isto é, pessoas físicas, para comprar os ingressos e comercializá-los por preços mais altos", informa Marília Frias, assessora de imprensa e editora do site do GP do Brasil. "Não vendemos ingressos para os operadores desse site."

O site oficial da prova adianta àquele que o acessa antes da navegação em si que "não nos responsabilizamos por ingressos adquiridos em outro site. Existem sites que utilizam propositalmente o mesmo nome e as mesmas características ligadas ao GP, embora não tenham relação nem autorização da organização do evento para comercializar ingressos". Mais à frente vem o destaque de que as vendas só começam em junho. Novo aviso: "(...) os interessados em adquirir seus ingressos para a corrida aguardem o início oficial das vendas para não serem lesados".

Os preços no www.gpbrasil.com.br já foram disponibilizados. Inteirando R$ 15 aos R$ 445 que gastaria no site da ALK, o internauta adquiriria uma entrada no setor A. Nada se fala sobre a tal parte VIP do paddock. O setor G está a R$ 345, R$ 100 mais barato. Segundo Marta, "as pessoas têm receio do site oficial e preferem pagar mais caro e ter a conveniência que oferecemos". E conveniência é igual à taxa. Que vale 29% do valor do ingresso.

A "antecipação" por este site "alternativo" só foi possível porque, de acordo com Marta, a organização do GP do Brasil enviou uma mala direta a todas as agências de viagem que também negociam as entradas. Fato confirmado por Marília. Mas... "O comunicado não foi enviado diretamente à ALK GP por nós. A empresa citada deve ter tido acesso ao documento por vias escusas", atenta a assessora.

Caroline revela que os "estrangeiros são muito fiéis a nós, não se importam se o site é oficial ou não, eles querem comprar as entradas". O site sem o ".br" não disponibiliza a informação acima em nenhuma outra língua a não ser o português. "Caso perguntem, respondemos de pronto."

Neste ponto, Marta é mais, digamos, incisiva: "Não somos obrigados a dizer qual é o site oficial. Isso é um comércio, a pessoa pode pegar a lista telefônica e procurar o telefone da Interpro." Sobre a ausência de explicações em inglês, espanhol, francês ou japonês, culpa a "falha do webmaster".

Por diversas vezes, Marta destaca, sem que perguntássemos, que a ALK não possui reclamações no Procon. Mais adiante, fala que a companhia age em outros setores e vende ingressos até para o famoso festival de cinema de Cannes. Interessante é a explanação da funcionária para o domínio gpbrasil.com": "o nome do site é mera coincidência".

Site que não está hospedado no Brasil, mas sim em Chicago, em Illinois, EUA. Foi criado em 14 de novembro do ano passado, no servidor da "Fast Servers Inc." O domínio é de 19 de março de 2001, registrado na Network Solutions. "É praticamente impossível tirar do ar um site hospedado fora do país que finge ser algo oficial", resume Marília. "E neste momento, não enxergamos outra medida prática ao nosso alcance a não ser a informação ao grande público."

De fato, é. O investigador Milton Donizeti Rueda, da seção de crimes eletrônicos do DEIC de São Paulo, usou os mesmos termos que Marília: "é praticamente impossível a gente fazer alguma coisa". A dificuldade está em obter dados das empresas que põem propositalmente suas páginas fora dos domínios nacionais. "A gente costuma orientar para que as pessoas ou empresas lesadas entrem em contato com a embaixada dos Estados Unidos, no caso. O site está hospedado lá fora, e quando vamos pedir informações, não conseguimos obtê-las, nunca colaboram para nos fornecer nada."

*Colaborou Rodrigo Ribeiro


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