Grandes Entrevistas: Suzane Carvalho
Warm Up
12/03/2007 - 11:52



RAFAEL SOLA
de São Paulo


DivulgaçãoEla iniciou sua carreira com menos de três anos de idade, trabalhando como atriz. Fez comerciais, novelas, teatro, cinema, atuou em musicais, dirigiu peças e filmes, além de trabalhar como fotógrafa.

Em 1989, após fazer um curso de pilotagem, largou tudo e passou a se dedicar ao automobilismo, sagrando-se campeã brasileira de kart, logo em seu ano de estréia.

Ao longo de mais de dez anos de carreira, marcada pela dificuldade em conseguir patrocínios, Suzane Carvalho alcançou grandes feitos, como o título da F-3 Sul-americana na categoria B, em 1992.

A carioca conversou com o Grande Prêmio e contou suas histórias, a trajetória dentro e fora das pistas e falou sobre o preconceito sofrido em um ambiente predominantemente masculino.

Grande Prêmio: Suzane, você começou a trabalhar com menos de 3 anos de idade, fazendo propagandas. Foi sua mãe quem percebeu que você tinha talento diante das câmeras?

Suzane Carvalho: A minha mãe é atriz e, quando eu era pequena, ela não tinha com quem me deixar. Então me levava, junto com a minha irmã, para os ensaios. Daí começou aquela coisa de criança, de imitar as cenas que ela fazia no teatro, na televisão, etc. Isso é uma coisa de berço, mesmo, já que desde cedo eu representava e imitava. E foi a maneira que eu encontrei para ganhar dinheiro e me sustentar, trabalhando em propagandas. Depois, fiz teatro, cinema e, aos 18 anos, estreei fazendo novela na Globo. Eu cheguei a ser funcionária da emissora e, na época, foi ruim, porque eles não permitiam que eu fizesse cinema ou divulgasse as peças que eu produzia. Tempos depois, eu me transferi para a Bandeirantes e depois fui para a Manchete.

GP: E como apareceu o automobilismo nessa época para você?

SC: Eu trabalhava com cinema e estava produzindo meu primeiro vídeo, que era um documentário sobre a pesca no Ceará. Além do cinema, eu fazia a produção executiva e a parte de texto de uma peça de teatro com a minha irmã, participava de um show musical no Rio de Janeiro e fazia um programa com o Agildo Ribeiro na Manchete. Foi quando apareceu o anúncio de uma escola de pilotagem e eu larguei tudo. Depois da aula, assim que saí do kart, já perguntei: “Quando é a próxima corrida?” (risos). E já naquela época, em 1989, o campeonato carioca estava parado porque o kartódromo estava em reforma e me falaram que a corrida seguinte seria válida pelo campeonato brasileiro. Eu disse que iria participar e as pessoas me falavam: “Mas você vai estrear em um campeonato brasileiro?”. E eu fui, comecei a correr atrás de equipamento, motor, chassi, capacete, macacão e estreei em uma prova disputada em Ipatinga, em julho daquele ano. Em outubro, participei do brasileiro na categoria Sênior Sprint, para pilotos entre 25 e 30 anos, e me sagrei campeã.

GP: Mas o automobilismo só entrou na sua vida nessa época ou já era um sonho antigo?

SC: Não, eu sempre gostei! Quando eu tinha nove anos, estava na casa de uma amiguinha e o pai dela foi deixar o irmão em uma pista de kart. Eu fui junto e até hoje me lembro daqueles poucos momentos que fiquei no kartódromo. A partir daí, eu queria praticar, mas não sabia como. Eu não sabia que havia uma pista de kart dentro do autódromo de Jacarepaguá e foi só quando eu vi o anúncio do curso de pilotagem que comecei a praticar. Depois, em 1990, eu fiz a temporada inteira de kart e fui campeã, fui para outra escola, a Alpie, onde participei de corridas da F-1600. Também tive aulas em uma escola no Canadá, onde participei de duas provas de F-2000 e cheguei em segundo lugar em uma delas.

GP: E quais as principais diferenças entre as escolas aqui no Brasil e no exterior?

SC: A principal diferença estava na quantidade de alunos e na estrutura dos cursos. No Canadá, o enfoque era muito mais na parte técnica. Aqui, a característica fundamental é o arrojo. Quando você senta no carro, no Brasil, é aquela coisa de “vai, acelera, vamos lá!”, enquanto que lá fora é mais “faça isso, faça aquilo, siga desta maneira”.

GP: Quais foram as vantagens e as desvantagens de ser mulher, em um meio predominantemente masculino? Na hora de procurar patrocínio, isso ajudou ou prejudicou?

SC: Foi mais prejudicial. Logo no início, eu tive mais oportunidades. Eu ligava para as empresas para marcar reuniões e conseguia, porque eu tinha aquela imagem de atriz, de mulher bonita. Daí, os caras pensavam: “Poxa, a Suzane Carvalho, vamos marcar, sim”. Então, eu mostrava as propostas e eles falavam: “Independente disso, o que você vai fazer hoje à noite?”. Isso aconteceu diversas vezes. Mas eu também levei azar nessa época porque, em 1990, foi o ano do Plano Collor e todos os patrocínios que eu havia acertado no final de 1989 tinham interesse em continuar comigo, mas com os problemas econômicos que surgiram, eles desistiram. E foi desde essa época que eu comecei a tirar dinheiro do próprio bolso para bancar minha carreira. Consegui me sustentar trabalhando como fotógrafa e passei a vender algumas coisas que eu tinha para poder continuar correndo. Mas, voltando à pergunta, depois que eu estabilizei minha imagem como esportista, a situação inicial se inverteu. Quando eu ligava para marcar reuniões, as pessoas pensavam: “Xi...a Suzane Carvalho? Deve ser pra pedir patrocínio...”, e comecei a esbarrar no preconceito, porque os empresários não acreditavam que uma mulher pudesse andar na frente, mesmo com os resultados que eu já havia alcançado. Ao longo dos anos, foram pouquíssimos os empresários que me enxergaram como um produto de marketing. Em 1991, 1992, eu cheguei a ir a 250 reuniões em busca de patrocínio.

GP: Entre essas propostas e convites indecorosos que você recebeu, tem alguma história que você pode contar?

SC: (risos) Tem várias coisas chatas, mas que eu ainda não quero contar, pois pretendo lançar um livro.

GP: E quando esse livro sai?

SC: Em breve...

GP: Em 1992, você disputou a F-3 Sul-americana e foi campeã na categoria B, fato inédito na categoria, no mundo todo. Como foi a repercussão?

SC: O retorno de mídia foi muito grande, inclusive internacionalmente, nos Estados Unidos, na Itália, na França e na Inglaterra. Fui eleita a esportista do ano pelo "Fantástico", no mesmo ano em que houve Olimpíadas, e eu tive mais “adversárias”, digamos assim. O meu patrocinador era o banco Banerj, que financiou a segunda metade da temporada de 1992. Quando eu conquistei o título, em novembro daquele ano, eles me chamaram e disseram exatamente o seguinte: “Suzane, não queremos te perder, como aconteceu com o Ayrton Senna”, porque eles apoiaram o Ayrton até ele chegar à F-1, mas depois perderam todo o retorno, que ele acabou dando ao banco Nacional. Eles falaram, inclusive, que eu poderia divulgar na imprensa que eles iriam continuar comigo, mas quando chegou janeiro, não me pagaram, nem em fevereiro e nem em março. Começou o campeonato, eu não tinha dinheiro e não disputei a primeira etapa. Fui até lá e eles alegaram que o governador tinha mandado cortar a verba. Eu entrei em contato com ele, que disse que iriam cortar um pouco, mas o que sobrou não dava nem para fazer o campeonato carioca de kart. Eu acabei disputando algumas etapas como convidada e esse dinheiro só dava para pagar minha passagem. Ou seja, fui campeã em 1992 e, em 1993 não corri por falta de verba.



GP: E nos anos seguintes, como você deu continuidade à sua carreira? Você participou de algumas edições das Mil Milhas, mas pelo jeito era você quem bancava...

SC: A partir daí, sempre que eu participava era porque arrumava verba para aquela etapa especificamente. Eu ia atrás e conseguia dinheiro para correr uma prova de kart, depois, para participar das Mil Milhas, e assim por diante.

GP: E como foi essa experiência nessa prova tradicional do automobilismo brasileiro?

SC: Na minha primeira participação, corri com o Paulo de Tarso e ficamos em terceiro lugar na classificação geral. Depois, corri com um protótipo. Em outra ocasião, formei um trio feminino e, como não encontrei nenhuma mulher para se juntar à equipe aqui no Brasil, chamei duas argentinas e nós estávamos em terceiro quando quebrou o carro. Eu também fiz uma dupla feminina em um ano em que a corrida foi disputada em Brasília e nós ficamos em sexto na geral.

GP: Mas você se interessava por provas de longa duração ou começou por acaso?

SC: Não, eu não me interessava porque gosto de andar no limite o tempo todo, mas o convite que eu recebi do Paulo de Tarso era muito interessante, para competir com um Stock Car, com condições de vencer. Depois, com o tempo, eu acabei gostando desse trabalho que tem de ser feito em equipe, da estratégia de corrida, etc.

GP Antes de você ter todos esses problemas com patrocínio, você acreditava que poderia chegar à F-1 algum dia?

SC: Como piloto, eu acreditava na minha capacidade de chegar à F-1, mas diante das circunstâncias, eu sabia das dificuldades. A F-Indy foi um objetivo real e eu cheguei a ir para lá, mas na F-1 existia e ainda existe um grande preconceito.

GP: Você chegou a ter algum convite para testar na F-1?

SC: Sim, quando eu conquistei o título da F-3, recebi um convite da Larrousse para testar, mas eu percebi que o intuito deles era muito mais promocional. O interesse era atrair a atenção da mídia. Eles não pretendiam me contratar e eu não aceitei, porque eles me dariam um equipamento qualquer e eu não conseguiria fazer tempos bons e mostrar meu potencial. Como piloto, não era algo interessante. Talvez eu estivesse errada porque não olhei como empresária, como um retorno de marketing...

GP: E na F-Indy?

SC: Na Indy, sim, recebi inúmeros convites, mas sempre faltava dinheiro porque o custo de um teste é muito grande. Com a Dale Coyne, na época em que eu corri na Indy Lights Pan-americana, eu estava com tudo acertado para testar em Sebring e cheguei a ir para lá, mas a equipe simplesmente não apareceu, porque o outro piloto desistiu do teste.

GP: Mais uma vez, você perdeu uma chance porque não cumpriram o que havia sido combinado...

SC: Mas eu já fiquei sem equipe por outros motivos. Quando eu estava tentando um lugar na Indy Lights dos Estados Unidos, cheguei a assinar contrato com uma equipe de Los Angeles, mas um terremoto destruiu a sede do time e eu fiquei na mão...

GP: E não pintou outra oportunidade depois disso?

SC: Apareceu, sim. Eu fechei um patrocínio com a Batavo em 1994 e acertei um teste com uma equipe. Quando fui para lá testar, fiquei sabendo que eles não haviam depositado o dinheiro do teste...

GP: E qual foi o motivo que eles alegaram?

SC: Era o início de uma reformulação interna na Batavo, que mais tarde foi vendida, e o diretor que havia fechado o contrato comigo foi despedido da empresa e os outros não deram continuidade.

GP: Depois desses problemas na Indy Lights, você disputou um campeonato feminino na Argentina, a Copa de Damas, e foi “campeã moral”. Por quê?

SC: São coisas que só acontecem comigo... Eu não tinha permissão para pontuar porque eu corria com a carteira brasileira. Daí, eu ganhava a prova e tinha de pedir para manter o resultado em aberto, para tentar regularizar a situação.



GP: Mas isso é estranho, porque vários outros pilotos brasileiros também corriam na Argentina...

SC: Havia um monte de brasileiro, mas até hoje eu não sei o que aconteceu.

GP: E a CBA nunca lhe deu uma resposta?

SC: Não. Eu fui atrás deles, vivia passando faxes lá da Argentina para cá e eles nunca me responderam.

GP: E qual foi o passo seguinte na sua carreira?

SC: Em 1996, eu fiquei parada novamente e, um ano depois, consegui patrocínio para fazer umas três etapas do carioca de kart e do sul-americano de F-3, além de uma temporada completa no carioca de carros de turismo, no qual não fui campeã por causa do preconceito. Em absolutamente todas as etapas eu fui colocada para fora da pista. Depois, eu fiquei sabendo que os outros pilotos chegavam a fazer um sorteio para decidir qual deles iria me tirar da prova! Mesmo assim, eu cheguei à última etapa – que era uma rodada dupla – com chance de ser campeã, mas o meu próprio companheiro de equipe pagou para outros dois pilotos baterem em mim. Além disso, um desses caras estava com motor 2.0, quando a categoria só permitia motores 1.6. Ou seja, ele estava fora do regulamento, tanto na parte esportiva quanto na parte técnica.

GP: E as autoridades não fizeram nada a respeito?

SC: (risos) Eu quase quebrei a mão, de tanto esmurrar o muro dos boxes, tamanha era minha raiva. O cara que me colocou para fora na corrida do sábado não foi penalizado e nem abriram o motor dele, porque tinha a prova do dia seguinte e daí não daria tempo de remontar tudo. No domingo, na penúltima curva, ele repetiu a manobra e me colocou para fora quando eu estava em primeiro. A câmera interna gravou tudo!

GP: Você não tentou recorrer ou levar o caso à Justiça, tendo esse material nas mãos?

SC: Nem tentei. A decepção foi tão grande que eu acabei na fazendo nada.

GP: E no ano seguinte você foi para a Inglaterra, não é?

SC: Sim, em 1998, eu consegui patrocínio, fui disputar a Palmer Audi e lá eu também sofri com o preconceito porque me davam um equipamento inferior. O acesso aos dados da telemetria era limitado, mas um dia eu entrei no caminhão da equipe e comprovei a diferença. Eu queria processar todo mundo, mas fui aconselhada a não arrumar confusão, já que era o meu primeiro ano na Inglaterra. Depois disso, eu fui andar na Vectra Challenge e o Nonô Figueiredo corria lá e estava em segundo no campeonato, sem dinheiro para continuar. Eu entrei na equipe dele, com o intuito de ajudar. Eu sabia que o meu carro era inferior, mas a equipe era honesta e, dentro daquilo que eu tinha em mãos, brigava pelo quinto ou sexto lugar.



GP: Como foi sua passagem pela Indy Lights Pan-americana?

SC: Eu assinei um contrato com a prefeitura do Rio de Janeiro para disputar a temporada de 1999, só que eu corri as três primeiras etapas e eles não me deram o dinheiro. Então, fechei com a Coppertone, participei de mais duas provas e eles também não me pagaram. Ou seja, fiz cinco corridas com o dinheiro do bolso. Daí, para 2000, consegui o apoio da UOL – que me dava 40% do valor – e para o restante, eu continuei correndo atrás, acreditando, mas não consegui. Fiz cinco etapas, melhorei o carro, mas acabou o dinheiro.

GP: E desde então você está parada?

SC: Na verdade, não. Em 2001, eu não corri, mas, no ano seguinte, surgiu a Copa Clio, que era para ser uma categoria barata, com um custo de R$ 7 mil por prova e carros iguais. Mas, na primeira corrida, eu já gastei R$ 22 mil e os equipamentos tinham diferença, era preciso investir e eu não tinha como fazer isso. Foi quando eu parei de competir.

GP: Mas se pintar uma oportunidade, você volta a pilotar?

SC: Não tenha dúvida! (risos)Eu só não volto porque não tive condições. Em 2004, montei um centro de formação de pilotos e andei muito de kart, que é a grande paixão da minha vida. Mas até para isso, gasta-se muito dinheiro e essa escola tinha um padrão muito alto, difícil de se manter no Brasil, com equipamentos de primeira linha, que são muito caros. Então, durante um ano e meio, eu banquei esse centro, acreditando no projeto.

GP: E você mantém a escola ainda?

SC: Sim, mas tive de subir muito o preço e buscar outras estratégias, como criar aulas de direção defensiva. O problema é que agora não temos um lugar para isso, pois o autódromo está fechado e o terreno onde eu dava essas aulas virou um estacionamento.

GP: Você chegou a participar de ações contra a destruição de Jacarepaguá?

SC: Sim, fiz manifestos porque eles destruíram o primeiro kartódromo para construir o oval. Depois, foi liberada uma parte do terreno dentro do autódromo para reconstruir o kartódromo e, agora, tudo foi destruído com as obras do Pan.

GP: Mas você se mantém em forma para uma possível volta?

SC: Eu me mantenho andando de kart e continuo com meu trabalho de preparação física como se estivesse na ativa porque, se aparecer uma chance, eu já terei uma certa defasagem técnica, então, procuro manter pelo menos o lado físico.

GP: Suzane, deu para perceber que a sua história foi marcada por muita luta e dificuldade. Para finalizar, conte uma passagem gratificante da sua carreira que você gosta de relembrar.

SC: Uma vez, eu estava havia algum tempo sem correr e haveria um campeonato brasileiro de kart em Itu. E como era um pista nova para todo mundo, eu achei que seria uma boa oportunidade porque isso nivelaria um pouco os pilotos. De última hora, houve um problema com esse kartódromo e a prova foi transferida para Interlagos, onde a maioria dos pilotos treinava. Como eu já estava com parte do patrocínio acertado, resolvi participar mesmo assim e, chegando lá, cravei a pole-position! Isso foi muito gratificante porque esse feito foi muito reconhecido e ficou marcado. Até hoje, o Edinho, um preparador de kart, conta que já acompanhou pilotos como Emerson Fittipaldi e Ayrton Senna, mas nunca viu ninguém fazer uma das curvas do kartódromo de Interlagos como eu. É fantástico porque, por mais que eu tenha sofrido preconceito por parte de empresários, é muito bom ver meu esforço reconhecido por essas pessoas que trabalham na pista.

Confira o álbum de fotos da carreira de Suzane Carvalho



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