Grandes Entrevistas: Danilo/Dennis Dirani
Warm Up
11/12/2006 - 12:49



VICTOR MARTINS
de Curitiba


São 23 anos, mais de 15 dedicados às corridas. E se a influência da convivência com Ayrton Senna fez Danilo Dirani pensar que um dia poderia ser piloto de F-1, a falta de investimento e a obscuridade do automobilismo acabaram por mudar a rota do paulista da capital — ou por prolongar tal caminho.

Divulgação Dirani coleciona quase três dezenas de títulos. Já esteve a dois passos da categoria-mor do automobilismo, bem como quase se viu fora das pistas. Por um ano estudou Engenharia. “Coisa de xarope”, definiu. Na Europa, diriam por aí que “chegou chegando”, vencendo e liderando campeonatos. Mas ficou de fora do que classificou como “esquema”. Partiu para a América, na categoria júnior da F-Mundial. Foi o melhor das equipes independentes, “pobres”. Agora, vê-se no dilema inerente à carreira: a busca por patrocínio.

E não basta um só Dirani com esse problema. O irmão mais novo, Dennis, igualmente vencedor no kart, busca deixar a base para vôos maiores. Mas conquistar campeonatos trouxe poucas coisas. “Só recebi troféus e parabéns”, comentou. E o medo, até pela interrogação em que se encontra o automobilismo nacional, é a conseqüência: “Só espero que não tenha de abandonar a vida de piloto.”

O Grande Prêmio se encontrou com os dois irmãos em Curitiba durante o evento final da Petrobras para a Seletiva de kart que realiza. E os dois enfatizaram, literalmente, a paixão pelo esporte.

Grande Prêmio — Danilo, sua relação com o automobilismo tem muito a ver com o Ayrton Senna, não é? O primeiro contato com o kart foi na fazenda dele em Tatuí...

Danilo Dirani — Foi, sim. Eu comecei a andar em 1991, tinha sete, oito anos. Passei a andar direto lá. Quando ele fez a festa de inauguração, aí foi a primeira corrida oficial. Nessa época eu andava de cadete, ia lá para treinar, brincar. Nisso eu comecei a andar como profissional em São Paulo. Ganhei meu primeiro título já em 92, o Campeonato Paulista do Interior, em Guaratinguetá. Aí em 94, 40 dias antes de ele falecer e dois dias antes de ir para a Europa, ele fez uma reunião na fazenda, levou a galera para andar e foi lá que eu fiz o recorde da pista, está até agora lá. E como ninguém anda, ninguém vai baixar (risos), então eu vou ficar com essa marca.

DivulgaçãoGP — Você ganhou quantos campeonatos no kart?

DaD — 28, até agora. Tenho dois Pan-americanos, dois Sul-americanos, três Copas Mercosul, que tinha até 98, ganhei cinco Paulistas, dois Brasileiros... também ganhei Mineiro, Gaúcho... tinha época em que eu corria sábado em São Paulo, no domingo ia para o Sul, depois ia para Minas...

GP — Tirando seu irmão, ninguém na sua família tem relação com automobilismo?

DaD — Meu pai, José, é engenheiro mecânico, tem uma oficina lá em Santana, ali perto da Avenida Gal. Ataliba Leonel. Ele que fazia preparação dos carros do Ayrton desde quando ele era pequeno. Meu pai conhecia o Milton, o pai do Senna. E aí ele levava o carro para arrumar. E o Ayrton começou a crescer e também ia até a oficina para preparar os carros dele. Meu pai virou o mecânico oficial da família.

GP — Foi seu pai quem montou os karts lá de Tatuí?

DaD — Foi. Logo quando o Senna começou o projeto do kartódromo, ele chamou meu pai para construir os karts. Aí o Ayrton comprou uma dúzia de karts mais três cadetes, para criança. E eu comecei a andar ali. E não parei mais.

GP — E você nunca se interessou por nada além desse esporte?

DaD — Eu era pequeno e, desde a primeira corrida na fazenda, nunca mais pensei em nada. Tudo que eu fiz foi pensando em corrida. Meu pai investiu o que pôde em mim. Estudei italiano, espanhol, inglês, trabalhei meu físico sempre focado nisso.

GP — Você sofreu um acidente em 98 que quase o tirou desse caminho...

Fábio OliveiraDaD — É... a gente ia fazer as 500 Milhas da Granja, só que resolvemos fazer uma corrida antes, para dar uma acertada nas coisas. Acho que era junho. Eu estava no banco do passageiro, ali no retorno de Cotia para passar embaixo do viaduto. E o cara que estava guiando bateu no poste. Ainda bem que eu estava usando cinto, só quebrei a clavícula. Fiquei um tempo sem andar de nada.

GP — Verdade que esse hiato o levou a pensar em parar de correr porque a sua auto-estima baixou? Até porque você engordou...

DaD — Eu fiquei até praticamente janeiro do outro ano sem andar de nada, sem fazer nada. Minha clavícula quase deslocou por completo, ficou só um pedacinho junto, teve de colar legal para não ficar torto. Voltei em 1999. E eu sempre fui grande. E o kart nessa época era bem mais leve do que agora, eram 140 kg, sempre eu ficava uns oito, dez acima de todos. Eu já tinha ganhado um monte de coisa no kart — dos 28, acho que havia vencido 26 —, e com o peso acima, disputando com os moleques que não eram bobos — o (Júlio) Campos, o (Felipe) Massa —, não era fácil. E veio a Seletiva da Petrobras, que nivelou tudo. E eu ganhei. Tive a oportunidade de guiar na F-Ford, que era o prêmio na época.

GP — Não era dinheiro?

DaD — Não, pagavam até mais, eram R$ 150 mil, que iam direto para a equipe. Na F-Petrobras, como chamava. Daí eu fui vice-campeão na equipe do Dragão.

GP — E no ano seguinte você enfrentou dificuldade...

DaD — É, foi triste. Eu não consegui nada para correr de F-Ford, F-Chevrolet, Renault, nada. Fiquei parado. Fui fazer faculdade.

GP — Que curso?

DaD — Engenharia mecânica, na Mauá. Coisa de xarope.

GP — Por que, claro, não tinha nada a ver com você...

DaD — Nada, foi loucura.

GP — E você foi daqueles alunos que são chamados de CDF ou nerd?

DaD — (gargalhadas) Eu nunca tive problema. Nunca repeti, nunca fiquei de recuperação, mas eu não tinha o hábito de estudar. Na Mauá, tinha de ficar em cima dos livros. E eu tinha outras coisas para fazer, treinar, por exemplo. E mudei toda minha vida. No fim de 2001 foi que surgiu a oportunidade de voltar a correr, fui fazer um teste na Espanha de F-Renault. E eu pensei: “Putz, tem de dar certo, é isso que eu quero fazer... ” porque a primeira coisa que eu tenho recordação da minha vida é sentado num carrinho.

GP — Seu pai te deu uma moto quando pequeno, não foi?

DaD — Foi, antes mesmo de correr de kart, eu já tinha buggynho, carrinho... meu pai me deu uma motinho de 60 cc quando eu tinha três anos de idade, pulava morrinho. É a primeira lembrança que tenho...

GP — Bom, e você acabou fazendo a F-Renault Espanhola?

DaD — Não. Eu treinei lá por uma equipe inglesa, tinha acabado de voltar aos carros, não deu certo. Também deu uma enroscada na F-Renault Inglesa. E acabei acertando com o Cesário para correr na F-3 Sul-americana em 2002. Fui para a primeira corrida sem treino nenhum.

GP — E você foi de cara segundo na primeira prova no Paraná...

DaD — Foi bacana, me animou muito. Um ano parado, nunca tinha andado de F-3, não conhecia Londrina, não conhecia nenhuma das pistas do calendário. Acabei sendo vice-campeão, venci duas corridas, uma, inclusive, foi a que o Nelsinho ganhou o campeonato, no Rio.

GP — Vocês se dão bem?

DaD — Sim, nenhum problema.

GP — Aliás, você tem inimizade com algum piloto?

DaD — É... tive rixas com alguns pilotos no kart. Era pequeno, não gostava de perder. Até hoje não gosto, né?! Mas até os 15 anos, se eu ficasse em segundo ou o kart não estava do jeito que eu gostava, eu começava a chorar, a espernear. E não tinha quem agüentasse a chiadeira.

GP — Depois você conquistou o título da Sul-americana, um domínio absoluto...

DaD — É, foram 14 vitórias em 18 corridas, recorde da história, fiz todas as voltas mais rápidas, 14 poles, foi um ano bem legal. Foi o ano em que eu mais tirei lições, aprendi muito.

GP — E aí partiu para a Inglaterra. Como foi viver fora e o que você sentiu de diferente?

DaD — Eu fiz dois anos lá. No primeiro, fui para a Carlin, que tinha sido campeã com o Alan van der Merwe, e das seis primeiras corridas, tinha ganhado duas e vinha liderando o campeonato. Mas ali é que a gente começa a ver o mundo do automobilismo e como as coisas funcionam. Ali comecei a perceber que eu fiz a opção errada de ir para a Europa.

GP — E o que passou a ter de errado nesse mundo do automobilismo? Jogo sujo de bastidores?

DaD — Se eu soubesse realmente o que aconteceu, eu falaria para todo mundo. Mas como não tenho prova, não dá para falar. Nos dois anos que eu fiz lá, nunca tive estrutura. No começo, eu tinha um patrocinador, o mesmo investidor da época da F-3, me apoiou por completo. Mas se você não consegue entrar no esqueminha do pessoal... ou você está no lugar certo, na hora certa — por exemplo, bati o recorde de algumas pistas na pré-temporada, em Oulton Park, mas não tinha ninguém ali vendo. Se tivesse alguém forte, poderia vir, conversar comigo, “pô, como é que você está de empresário, sua carreira?”, e eu só tinha esse investidor. E não tinha ninguém para olhar as coisas de fora para mim. Então não conta só chegar lá, ganhar corrida, andar bem e faturar campeonato. Depende de muitas coisas do outro lado. É bem complicado.

GP — E no geral, você avalia como estas duas temporadas em que, para você, só havia o lado da pista?

DaD — Ah, foi bom. Eu acho que aprendi bastante, principalmente para ver como funciona o esporte na parte fora das pistas. Acertar um carro de F-3 eu tinha aprendido aqui, fiz diversos treinos com o Cesário no ano que em que eu fui campeão.

GP — Foi o bom começo na F-3 Inglesa que chamou a atenção da BAR?

DaD — Sem dúvida. O pessoal lá viu meu desempenho em 2004 e o primeiro contato veio quando acabou o campeonato em setembro, outubro. Chamaram alguns pilotos, o Van der Merwe, o (James) Rossiter, o Adam Carroll, o (Heikki) Kovalainen, o (Nico) Rosberg, o José María López, o Nelsinho... tinha mais alguns. E selecionaram quatro destes. Mas foi no ano em que a BAT estava deixando a BAR. A Honda acabou comprando a maior parte das ações e não tinha plano de continuar com o projeto dos jovens pilotos. Tem um piloto que continua lá, o Rossiter, que leva dinheiro, e a gente saiu... não é que a gente saiu, acabou o programa.

GP — E ninguém falou nada, de tentar aproveitá-los?

DaD — Não. A Honda não visava ter os jovens pilotos. Cada montadora tem sua filosofia. A Renault e a Toyota fazem isso. A Red Bull, também. Não sei se foi sorte ou azar de tê-los encontrado nessa época de transição. Então não tive nem oportunidade de treinar no carro. Só usava a academia da Honda, acompanhava vários treinos, fui ver alguns em Jerez. Mas andar, nada.

GP — A BAR teve algum envolvimento em sua ida para a F-Atlantic?

Carsten Horst DaD — Não, aí já foi outra coisa. Voltei para o Brasil no ano passado, em 2005, tinha sido quinto de novo no campeonato inglês, correndo de Lola — e isso foi outra... brincadeira, porque a gente começou ganhando duas corridas, liderando o campeonato, e, de repente, de primeiro você cai para 12º, 13º, 15º, e você não consegue achar mais o que é preciso para melhorar. E aí isso durou até sair o campeão, o Álvaro Parente, da Carlin. Sem querer, a gente achou o acerto, ganhei mais uma corrida de novo, marquei pole. A gente não sabe o que rola por trás. E fico chateado por a gente não ter conseguido entrar no esquema. Acho que eu teria condições de estar disputando com qualquer piloto que está na GP2 ou na F-1, mesmo.

GP — Apesar de você ter considerado um erro ter ido para a Europa, vontade de fazer GP2 e F-1 você tem?

DaD — Tenho, tenho vontade. Bastante. Mas as portas se fecharam bastante lá. Fiz um treino de GP2 que foi assim: acertei meio dia de treinos na Campos, que naquele ano tinha sido a pior equipe. Meio dia de treino em Paul Ricard, que é uma pista em que o pessoal anda bastante, ou seja, a maioria das equipes tem um bom acerto. E aí, no dia em que eu fui treinar, teve a maior tempestade no sul da França nos últimos tempos. Então, além de todas as desvantagens, estava chovendo (risos). Mas aconteceu de forma legal. Dei 23 voltas, fui sétimo, tomei 0s8 do Nelsinho, que tinha sido o mais rápido. Eu consegui alguns contatos para correr lá, mas não tinha o dinheiro.

GP — Quanto você tinha de levar?

DaD — Para a temporada, eles pedem 1,2 milhão. De euro. E eu consegui bem menos que isso. Mas se o cara pede 300, 400, 500 mil e você tem 50, não tem o que fazer. Então acabou passando a oportunidade. Lá o pessoal gosta de acertar as equipes antes do fim do ano, acabou passando. F-3, eu não ia fazer de novo, já tinha feito quatro anos e não tinha necessidade nenhuma. A World Series também vi de fazer. Nos treinos sempre estive entre o top-6...

GP — E por causa do dinheiro não deu certo.

DaD — Isso, a mesma coisa.

GP — Foi aí que você deixou de ter a visão europeizada?

DaD — É, aconteceu de eu começar a olhar a Atlantic, quer dizer, mudou tudo de um dia para o outro. Não consegui ninguém que me apoiasse, então tive de tentar os EUA. Foi uma opção bem legal. Se eu soubesse da situação que teria hoje, já tinha ido para os EUA antes porque lá o negócio é mais profissional para quem não tem esse esquema por trás montado.

GP — Você correu pela Condor. Era possível conquistar algo por ela?

DaD — Minha equipe era boa. Mas não tinha estrutura. A temporada custa US$ 1 milhão para fazer bem feito, para ganhar. A gente levou US$ 350, 400 mil, um terço do que o pessoal gasta. Nesse ano tiveram carros novos e a premiação foi boa, US$ 2 milhões para o campeão. Todas as equipes da Champ Car fizeram times júnior na Atlantic. A Conquest, do Bobby Rahal, o Team Australia, a Forsythe, a Newman-Haas, e algumas delas tinham quatro carros.

GP — Terminou na sexta posição. Bom para um time que não tem base na Champ Car?

DaD — Sim, muito bom. Fiquei atrás de um carro da Forsythe — eles tinham quatro —, um do Team Austrália, um da Conquest... eu estava sozinho, na verdade.

GP — Você foi o primeiro das independentes, então?

DaD — É... o primeiro das pobres (risos).

GP — E funciona como na F-1, o primeiro ganha X, o segundo Y...?

DaD — No final do ano, tem a premiação para o campeão, mas durante as corridas, tem prêmios, também. Então o cara que foi campeão, tirando os US$ 2 milhões, ganhou mais uns US$ 150 com as provas.

GP — E quanto você ganhou?

DaD — Quase nada. Porque a parte dos prêmios era para a equipe porque eu não tinha condição. Eu abdiquei dos prêmios para poder correr.

GP — No ano que vem você continua lá?

DaD — Espero. Ainda não tenho nada certo, está bem complicado, bem difícil. Já consegui com algumas equipes boas uma condição bem legal, eles têm estrutura para fazer algo bem feito porque já têm patrocínio da própria equipe. E eu estou atrás de patrocínio, não tenho nada ainda. No Brasil é bem complicado de conseguir algo.

GP — Houve convites para você testar na F-Mundial?

DaD — Sim, mas é de novo aquela coisa: tem de levar um pouco de dinheiro. Se você for ver, não custa caro. O dinheiro que um cara gasta na GP2, ele pode fazer a Champ Car. É só questão de analisar o outro lado. Hoje se eu tivesse a grana, eu faria a Champ Car. É uma categoria de alto nível. Em uma temporada lá, a equipe gasta US$ 3 milhões; o carro em Montreal foi 4, 4s5 mais lento que um F-1, que gasta US$ 300, US$ 400. É que aqui no Brasil não chega da forma que é lá, é um show, uma estrutura enorme. Nós da Atlantic somos a GP2 deles. E tem sessão de autógrafo, tem cartão, durante a semana de corrida, chamam alguns pilotos para entrevista na cidade, na rádio, na TV. É algo muito profissional.

GP — Do jeito que você direcionou sua carreira para a América, você teme não ter chance na Europa? A exemplo do Sébastien Bourdais, que é tricampeão da F-Mundial e teve de desistir do sonho de correr na F-1 porque simplesmente ninguém o chamou para testar...

DaD — O Bourdais ganhou a F-3000, fez alguns treinos e não conseguiu entrar por ali. Eu, como não corri de World Series, nem de GP2, acho que, se fizer um ano legal de Champ Car, tenho a chance de fazer a ponte e voltar. Mas sinceramente gostaria de ficar focado nos EUA. Sei que a Europa é tentadora, mas lá as pessoas só pensam em F-1. Só voltaria numa condição bem estruturada.

GP — Você se coloca um prazo para isso acontecer? Afinal, já está com 23 anos...

DaD — No começo do ano mudou tudo, então as coisas que acontecem no automobilismo a gente nunca sabe. Então amanhã pode surgir um convite de, sei lá, correr na Austrália, no Japão, na própria Europa. E tem de agarrar. A gente que não tem muita escolha tem de agarrar a primeira chance que aparece.

GP — Carros turismo são uma possibilidade?

DaD — Acho que sim porque a categoria de turismo está crescendo muito e correr em monoposto está cada vez mais complicado, sempre precisa ter do bolso para colocar. Turismo é mais profissional. Nos EUA tem Grand-Am, Daytona-Pro, Nascar, categorias que te permitem viver bem. É o que a gente busca. Eu corro há 17 anos e não sou profissional, no sentido de que não recebo nada, ainda.

GP — E sua vida fora das pistas?

DaD — Eu costumo acordar cedo, gosto, até. Mesmo quando vou dormir tarde no fim de semana, acordo 7h30. Na praia, a mesma coisa. É legal ver o nascer do sol. Vou às vezes para Ubatuba, diversos pilotos têm casa lá. Dá para até fazer um grid com 30 carros. E treino bastante físico. Sou grande e não posso deixar uma gordura parada. Tenho de fazer aeróbico, nem musculação eu faço. Já sou um cara pesado, se eu não me cuidar... me dedico bastante a isso, preparação física e mental, são bem importantes. Tudo que eu puder fazer, que eu considere certo para as corridas, eu faço.

GP — Eu soube que, no seu tempo livre, você costuma ir à Rua Santa Ifigênia (no centro de São Paulo) para ir comprar instrumentos musicais...

DaD — (risos) Comprei um tantam, cara. Nesse ano, morei com um primo meu nos EUA, na Califórnia. E ele também gostava de samba. Quando voltei para cá, comprei um. Gosto bastante de tocar, gosto de música. Samba e reggae. Música e corridas.

GP — Dennis, como é seu irmão em casa?

DeD — Ele é bem tranqüilo. Se bem que a gente não tem tido tanto contato próximo...

DaD — É, nos últimos três anos, não fiquei quase nada em casa...

GP — E você deve ter começado a correr por causa do Danilo.

DeD — Sim, sim, como meu pai já andava direto com ele para cima e para baixo, e eu ia junto, ele montou um kartinho pra mim, lá na fazenda do Ayrton. Foi lá que eu andei a primeira vez.

GP — Em que ano, isso?

DeD — A primeira vez foi em 1992, porém tive um susto: meu pai tinha emprestado motor pra alguém que corria o Paulista e o cara tinha deixado o motor acelerado. No que fui andar, o kart saiu acelerado. Fiquei assustado e demorei para andar de novo. Mas continuei andando por brincadeira. Minha primeira corrida, mesmo, foi em 1996.

DivulgaçãoGP — E desde então foram quantos títulos?

DeD — Foram 10 ou 11, contando com o do último sábado.

GP — Que foi o...

DeD — Paulista.

GP — Você pegou no início uma fase no kart em que tinha diversos concorrentes. Hoje, tudo ficou mais caro, o número de pilotos diminuiu, e quem ganha não tem retorno praticamente nenhum. Vendo a dificuldade que é para seu irmão conseguir um patrocínio pra correr numa categoria competitiva, o que você vê para sua carreira?

DeD — É, eu peguei uma fase cheia, e agora estou vendo o kart em uma fase ruim, em que há poucos karts andando. Isso porque o preço de inscrições e outras coisas são cada vez mais altos. E estou vendo minha grande paixão ficar às moscas, acabo vendo uma escuridão para a carreira. No kart não há divulgação, muitas pessoas pensam que andar de kart é o indoor, em que você vai lá, aluga e brinca. E com isso fica muito difícil de conseguir dinheiro para andar de outra categoria de monoposto.

GP — Por exemplo, custou muito em termos financeiros para ser campeão paulista?

DeD — Sim, posso dizer que foi bastante caro esse titulo. Eu só consegui correr esse ano devido à ajuda da Birel Sudam (fábrica de karts), e a Quake 2 (equipe de Dennis). É tudo caro: inscrição, pneu, gasolina, aluguel de pista pra poder treinar, chefe de equipe, revisão de motores, preparador de motor! E tudo isso para correr os campeonatos regionais aqui de São Paulo — Paulista e Paulista Light. Quando é fora, tipo campeonatos nacionais, você ainda arca com as despesas de viagens e transporte.

GP — Em números isso se traduz como?

DeD — No Campeonato Paulista, o gasto chega a R$ 5 mil por corrida; no Light é um pouco mais barato. Em campeonato nacional, de R$ 7 a R$ 8 mil.

DivulgaçãoGP — Com 19 anos, você já pensa em andar de monoposto, certo?

DeD — Gostaria de tentar os monopostos, sim, porque nunca testei nada, nunca andei em um. Pelo menos gostaria de ver se eu andaria bem. Seria mais uma ambição particular. Porém nunca pintou nada, e quando pintar, vou ter de pagar bastante. E eu não tenho.

GP — Teve uma promessa da Renault anos atrás de dar um teste para você...

DeD — Há uns dois ou três anos, eu ganhei em uma corrida de kart. Teve um evento da Renault no Paulista — chamava Copa Renault de Kart — , em que a PPD e a Renault prometeram um teste de F-Renault. E eu ganhei esse teste, mas até hoje estou esperando para andar, nunca rolou. Tínhamos ganhado eu e o (Cláudio) Cantelli. Ele também não ganhou o teste e teve que fazer por si mesmo.

GP — A CBA ou a confederação (CIK) e a federação que cuidam especificamente do kart dão que tipo de incentivo ao piloto?

DeD — Atualmente, as coisas que nós recebemos quando ganhamos algum campeonato são troféus e parabéns!

GP — Você teme que, por toda essa situação, tenha de abandonar a vida de piloto? Já lida com essa possibilidade?

DeD — Eu tenho medo de ver que o esporte que eu tanto amo sem alguns incentivos, como não ter alguma hora em alguma TV, sem espaço no jornal, e coisa e tal. Antes nós só víamos F-1, agora começamos a ter uma abertura para Stock. Eu só espero que não tenha de abandonar a vida de piloto e creio que as diversas mudanças que vai haver no Campeonato Paulista do ano que vem possam trazer novos pilotos e encher os grids de novo, também para haver renovação.

GP — E são muitas essas mudanças?

DeD — As categorias vão ser motor sorteado, o que teoricamente vai baixar o preço de gastos. Os motores vão ser fornecidos pelo Paulo Carcasci, que vão ser os Fireball — para Jr. Menor, Novatos e Sênior, e a RBC (de Rafael Botelho, preparador de motor) vai trazer os motores italianos Rok e Super Rok, fabricados pela Vortex — vão ser usados na Júnior e na Graduados. E ele vai trazer os motores Shifter (kart com marcha) em conjunto com o Marcelo, da Birel, para fazer uma categoria bem legal. É nessa que eu pretendo correr, se der tudo certo.

GP — Então você toparia em fazer mais um ano de kart, mesmo não sendo um passo à frente na carreira...

DeD — Não tem jeito para sair do kart pelas atuais condições... vou correr pela Birel Sudam e Quake 2. E com a entrada da Shifter, tende a melhorar, também. É bem legal a categoria. Meu irmão anda e fala que aprende bastante para o carro, pois tem freio na frente, muda de marcha rápido. Fiz uma corrida faz um mês mais ou menos e é muito bom. E vou fazer outra dia 16, contra ele de novo.

GP — Quando você entrou no kart, alguém naturalmente já tinha ouvido falar em Dirani por causa do seu irmão. Em que isso influenciou você? E ainda: ter um irmão como piloto traz alguma pressão?

DeD — Assim que eu comecei, meu irmão corria ainda e ganhava corridas, então isso ajudou no começo em muita coisa, me viam com respeito. Agora todos conhecem os dois, sabem diferenciar. E o respeito é o mesmo. E ter um irmão piloto só ajuda, porque ele sabe como me sinto na hora da corrida. E já me deu muitas dicas de o que fazer. Eu aprendi muito com ele e com meu pai. Meu pai, pelo conhecimento de mecânica e de ter visto muitas corridas, me ajudou muito. E devo muito do que sei e do que sei fazer a eles.

GP — Até quando você sentiu que era conhecido como “irmão do Danilo”, e não como Dennis? Ainda rola esse tipo de situação?

DeD — Demorei um pouco pra demonstrar quem eu sou, ainda tem um pouco disso. Mas é legal, não me sinto mal, não.

GP — E quem é melhor, Dennis ou Danilo?

DeD — Sabia que você ia me perguntar isso... ele é mais experiente, tenho de aprender com ele...

GP — Qual foi sua melhor corrida e o que você fez que lhe causou um arrependimento amargo?
DeD — Foi neste ano... as minhas duas melhores provas foram uma no Brasileiro, em Itumbiara (GO), em que eu larguei em 16º por ter quebrado na segunda bateria, e cheguei em terceiro. Fiz uma boa largada e consegui passar o pessoal em uma pista que não é muito fácil de se passar. Foi uma corrida bem legal, e acabei vice-campeão nesse campeonato, perdendo para o (Sergio) Jimenez. A outra foi na Copa do Brasil em Aldeia da Serra: larguei em sétimo, pulei para terceiro e assumi a ponta na terceira volta. Ganhei e fui campeão.

Agora... alguma corrida de que me arrependo... não me vem à cabeça... tem algumas corridas que eu perdi por cagada, mas nada do que eu fiz eu me arrependi.

GP — Qual sua maior virtude, dentro e fora das pistas?

DeD — Hum, boa... eu não sei bem, mas nas pistas, acho que sou bem detalhista, sempre acho que dá para melhorar um pouquinho mais, e acho que consigo me concentrar bem. Agora fora das pistas, eu acho que minha maior virtude é estar ligado a tudo ao meu redor. Eu gosto de ler bastante, de ouvir muitas musicas, gosto de novidades.

GP — Em relação aos estudos, você já terminou o segundo grau? Pretende se formar?

DeD — Já terminei, fiz meio ano de engenharia na FEI, mas não gostei muito do curso e abandonei. E agora pretendo entrar no final do ano em Administração.

GP — E o que você lê? Você se considera uma pessoa culta?

DeD — (risos) Não, acho que não. Sou esforçado. Leio livros de diversos assuntos, desde guerras a como motivar uma equipe. E ouço de tudo um pouco, mas puxei mais pro lado do meu irmão, também, ouço muita música brasileira, de samba, reggae...

GP — Quem você vê dessa geração que tem condições de chegar longe no automobilismo?

DivulgaçãoDeD — Bom, do Jimenez nem se fala, né?! Ele é muito bom, aprendi muito com ele. Quando eu estava chegando na Graduados e nós fomos companheiros na Kart-mini, vi como acertar kart e essas coisas. E ele é muito rápido. Outros que eu acho que vão longe... o Pedro Bianchini, porque ele é um piloto bem técnico, rápido, e tem um belo apoio pra prosseguir... e o Felipe Guimarães, o Gabriel Dias, o Douglas Hiar e o Rafael Suzuki. Mas para eles, como para mim, não adianta ser bom. Parece que ninguém é bom sem dinheiro.



Envie esta matéria a um amigo
© Copyright Warm Up Motorsport Coverage