Coluna Retrovisor: O caminhão de cerveja
Roberto Brandão e Joaquim Lopes Filho 28/08/2006 - 22:37
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| O carro entrou. A cerveja, não. |
Uma das razões e funções das corridas de automóveis, no mundo todo, era apresentar os seus novos modelos ao público, se possível vitoriosos. Uma poderosa ferramenta de marketing. Assim, a rivalidade nas pistas era algo muito forte, que conseguia ser transmitida para o público — que torcia pelo carro de sua escolha, propriedade ou preferência. São conhecidos os casos dos Bentley, Jaguar, Mercedes, Ferrari, Alfa, Bugatti Auto Union, Lotus, Maserati, Porsche e tantas outras marcas. Nos Estados Unidos, então, a coisa chegava a extremos, especialmente entre Ford e GM.
No Brasil, a coisa não ficava atrás. Eram Willys, DKW, Simca, FNM, VW e outros. Apesar de reconhecer a competência técnica da equipe Willys, eu torcia pelos DKWs, nosso carro, e fiquei chateado quando o Bird saiu da Vemag e foi para a equipe do Grecco.
A rivalidade forte da década de 60, mais entre Vemag e Willys, foi transferida para as gigantes norte-americanas Ford e GM. A Ford, porque comprara a Willys; e a GM, porque estava iniciando suas atividades por aqui, na produção de automóveis.
No âmbito internacional, no início da década de 70, a Ford vinha desbancando sua rival GM, com seus Mustang Shelby, Mercury Cougar etc. Sem mencionar o fato de que os motores Ford Cosworth, embora ingleses, não encontravam rivais nas corridas de Fórmula 1. Ah, e o Ford GT 40.
Em 1973 foi criada no Brasil a Divisão 1, baseada no Grupo 1 da FIA. A primeira corrida desta categoria foram as 25 Horas de Interlagos, inspirada nas 84 Horas de Nurburgring. A Ford participava com seus Maverick V8, com 191 cavalos, contra os Opala 6 cilindros de 171 hp. Todas as grandes provas do automobilismo brasileiro foram vencidas pela Ford: as 25 Horas, os 500 km, as 200 milhas (todas em Interlagos) e, principalmente, as Mil Milhas Brasileiras, última prova e última vitória do glorioso Bird Clemente.
A GM não agüentava mais. Para 1974, trouxe um pacote com os novos motores, o 250S. Não estando disponível para o público, não se encontrava homologado e, portanto, estava fora de regulamento. Na estréia do motor 250S, vitória maiúscula da GM, com Wilsinho, Ingo e Reinaldo Campello, nas 25 Horas de Interlagos.
A Ford, por sua vez, contra-atacava com o kit quadrijet para o motor V8, potência de uns 250 hp, no que era protestada pela GM, pois entendia que esta versão também não estava disponível ao público. A Divisão 1 tornou-se uma batalha de bastidores entre Ford e GM. A disputa saía das pistas e ganhava a ante-sala dos tribunais. As equipes participavam sob mandados de segurança e nunca se sabia se o resultado das pistas prevaleceria, pois estavam sempre sub-júdice, dependendo do julgamento dos recursos impetrados pelas equipes.
E foi nesse clima que foram disputados os Mil Quilômetros de Brasília, versão 1974.
A Ford, com a equipe semi-oficial de Luis Antonio Grecco à frente, impetrou uma ação proibindo a participação do Opala da dupla Bob Sharp/José Ramos, equipe patrocinada pela cervejaria Brahma, e correndo com apoio semi-oficial da GM nesta prova. A GM se defendia com mandado de segurança preventivo. E assim ia a coisa.
Os comissários, atendendo aos mandados judiciais, foram bastante claros com o chefe da segurança: “O carro da Brahma não entra nos boxes de jeito nenhum!”.
“Sim senhor! Pode deixar, senhor”, respondeu solícito o chefe da segurança. Afinal, estávamos em Brasília, em plena transição Medici–Geisel, e coisas como mandado judicial, além da atitude de autoridade, devem ser imediatamente respeitadas.
Para a surpresa de Grecco e dos comissários da corrida, eis que surge o Opala da Brahma, leve e solto pelos boxes adentro, com um mandado judicial.
Foram todos para cima do chefe da segurança. Já chegaram aos portões dos boxes, esbravejando : “Não disse que não era para entrar o carro da Brahma? Quem foi que deixou ele entrar?”, perguntou o comissário.
“Doutor, até agora não apareceu nenhum caminhão da Brahma, por aqui, não! Não sei do que o doutor está falando!”, respondeu o assustado segurança. “Tô aqui desde cedo e não passou caminhão nenhum, não senhor!”
Não teve jeito. O Opala participou da corrida, que terminou com vitória do Maverick de Paulo Gomes e Antônio Castro Prado.
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