Retrovisor: Dá uma saudade de casa...
Roberto Brandão 21/08/2006 - 17:33
| Warm Up |
 |
 |
| Edgard Mello Filho: respondendo ao colunista, hoje ele coordena o projeto da SP Races, o autódromo de Cabreúva |
Tive oportunidade de conhecer, por um curto período de tempo, há muitos anos, Edgard Mello Filho. Quando o conheci, ele já era um piloto consagrado, a quem íamos assistir em Interlagos. Mas foi como piloto de testes da GM e como um bom camarada que tive contato com ele, pela primeira vez.
Estava eu, primeiro emprego, como engenheiro responsável pela construção do Laboratório de Testes da GM na Fazenda Cruz Alta, entre Itu e Indaiatuba. Seria a primeira construção industrial, de porte, naquela fazenda, que ainda preservava algumas plantações. A principal atração lá era a pista de testes. Mas a obra que eu fazia ficava num platô, a uma certa distância. Sorte que tínhamos o teodolito, com sua poderosa luneta.
Numa ocasião pude ver, lá de cima, um carro diferente. Corri, armei o teodolito, nivelei-o e... lá estava ela: a perua Chevette, que depois seria conhecida como Marajó. E estavam também os novos Opalas, com a frente quadrada e faróis retangulares. Para um aficionado, uma bela visão. Antes de todo mundo eu estava conhecendo os novos modelos.
Na hora do almoço, eu sabia que todos os envolvidos no projeto estariam reunidos, na casa da fazenda, comendo. Seria uma boa hora. Usando trilhas e atalhos que já conhecia, cheguei pelos fundos e reparei que o galpão, normalmente aberto, que era usado como garagem, estava coberto com lonas.
“Estão ali dentro” pensei. Sorrateiramente, me aproximei do local, levantei um pedacinho da lona e fui me esgueirando para dentro do galpão, quando senti um puxão pelo ombro. Dois seguranças haviam me pegado!
O gerente da fazenda (acho que o nome era Nelson, ou Edson), que também fazia o papel de fiscal da obra, me colocou no banco de trás de uma Veraneio, ladeado pelos dois seguranças, e começou um sermão que parecia não ter fim. Mais que um sermão, gritava, dizendo que eu havia violado um segredo de fábrica, segredo industrial, e isso era crime! E eu, sem poder me mexer, falar ou sair, só pensava nas conseqüências, no emprego, na peãozada lá em cima, me esperando, e na humilhação.
Aí, apareceu o Edgard. Reconheci-o na hora. Falou com o tal gerente, explicando que isso era normal, um garoto gosta de carros, viu um diferente e veio ver, etc e etc. Conversou por mais de quinze minutos e convenceu meu carrasco a me liberar, depois de mais de uma hora de tortura. Nunca me esqueci deste gesto do Edgard: generoso, simpático, camarada.
Durante todo aquele mês, Edgard aparecia na fazenda, praticamente todos os dias. Muitas vezes íamos almoçar juntos em Indaiatuba, onde, na praça principal, tinha um restaurante que servia um filé maravilhoso. Conversávamos muito sobre carros, é lógico.
Um dia, já sabendo de todas as minhas peripécias ao volante, e de minha vontade de andar em Interlagos, ele me fez um convite: “Sábado que vem, vamos testar algumas modificações nos carros de corrida e, se você quiser, pode ir comigo, a gente dá uma volta juntos”.
Incrédulo, extasiado e esfuziante, topei na hora.
Veio o sábado e lá estava eu, no meio de uma porção de Opalas Stock Cars da época, os carros mais potentes de nossas pistas. Olhava tudo maravilhado, o trabalho dos mecânicos, os engenheiros, as conversas. O coração quase parou quando ouvi o Edgard falar: “Põe o banco do passageiro, o garoto vai testar comigo!”.
Entramos na pista, traçado antigo, e nas primeiras voltas ele foi me explicando cada tomada, cada freada, as características de cada pedaço, onde tirar tempo, onde não se podia errar, onde dava para aliviar. Daí, ele resolveu mostrar como era, de verdade.
Viemos voando na reta dos boxes, tomada da 1, acelera, tomada da 2, e pé totalmente cravado no retão. Placa dos 300, vem a dos 200, num piscar de olhos e nada de o homem frear. Ao contrário: continuava acelerando. A Curva 3, inclinada, ali à frente, parecia uma enorme onda sólida de tsunami. “Não vai dar”, pensei apavorado. Reação automática, comecei a frear num pedal imaginário. Hoje, me vem à cabeça um famoso bordão criado pelo próprio Edgard Mello Filho, anos depois: “Dá uma saudade de casa!”. E deu.
Voltando aos boxes, o sempre bem-humorado Edgard fala para os mecânicos: “Dá uma olhada no assoalho, o garoto bateu tanto o pé que deve ter afundado!”. E saiu rindo...
Acho que ele nem se lembra mais dessa passagem na sua vida. Mas eu jamais a esqueci. E sinto falta do Edgard narrando ou comentado. Onde está você?
|
|