Diário dos Sertões: Cândido Sales sitiada
Paula Parreira
03/08/2006 - 21:11

"Eu avisei." Essa foi a primeira frase que ouvimos do José Eduardo, da organização do rali, quando chegamos ao acampamento do Rali dos Sertões aqui em Cândido Sales. Grande parte dos jornalistas não veio para cá e foi direto para Porto Seguro. Tinham avisado que deveríamos fazer o mesmo, pois aqui não teria estrutura alguma, tanto para trabalho quanto hospedagem e alimentação. Mas insistimos em vir. Já tínhamos pulado uma etapa. Não queríamos pular outra. E foi um erro.

Saímos mais tarde de Brumado hoje, porque Cândido Sales fica a apenas 216 quilômetros de lá. No caminho, paramos num posto e um funcionário comentou: "Vocês estão indo para Cândido Sales? Cuidado que lá só tem ladrão (sic)." Então, a Ana Lúcia Moraes, da assessoria de imprensa, disse que tinha ouvido a mesma coisa ontem, ainda em Brumado. "Exagero. Não deve ser tão ruim assim", pensei.

Mas acho que me enganei. Chegando na cidade, por volta de 12h30, tudo estava fechado. O comércio inteiro. Ainda não sei o motivo. Pode ser até para um descanso depois do almoço. Mas que é estranho, isso é. Parávamos e pedíamos informações, mas ninguém sabia dizer onde era o nosso hotel. Um carro nos parou e perguntou se precisávamos de hospedagem. E informou que estava cobrando R$ 100 por pessoa de diária. "Obrigada, temos hotel", respondeu a Helena Matta. Com alguma dificuldade, conseguimos encontrar a pousada. Eu nem subi. Não era bom deixar a van sozinha, mesmo trancada. Pode ser preconceito, sei lá, mas ficamos com medo.

Quem subiu para ver os quartos, desceu logo. A Ana nos avisou que o hotel era muito ruim: "Eu não tenho coragem de hospedar ninguém aqui". Depois de uma breve conferência, perdemos o orgulho e decidimos nos informar sobre a viabilidade de irmos direto para Porto Seguro (não dormir aqui). Poderíamos trabalhar de lá. Mas o Fernando Fontana tem que gravar umas imagens e só estará liberado a partir das 20h. Vamos esperar e viajar à noite. Ficou tudo decidido.

Viemos para o acampamento, que fica no Porto de Cândido Sales. Tem muita gente e muita polícia, com colete à prova de balas. Para chegar até aqui, passamos por 12 quilômetros de estrada de chão. Foram três barreiras policiais no caminho, para informar o caminho e para barrar as pessoas que não estão envolvidas com o Rali dos Sertões. Muitas pessoas nos aplaudiam quando passávamos.

No Porto não pega celular. Temos a conexão de internet do caminhão da Mobile que acompanha a prova. Enquanto a gente se apressa para mandar matérias, o pessoal tenta antecipar nossa hospedagem em Porto Seguro. Vamos assim que todo mundo terminar de enviar material.

Eu não sei se a fama da cidade de violenta e perigosa é verdadeira. No caminho para o acampamento, havia uma faixa que dizia: "Cortando trilhas e vencendo obstáculos é o Rally dos Sertões em nossa cidade". A intenção é muito boa e a tentativa de boa recepção também. E a gente torce para que isso tudo seja mito. Mas que a gente ficou assustado, ficamos sim.

Paula Parreira é editora-assistente do caderno de Esportes do jornal "Diário da Manhã", de Goiânia. Pela segunda vez consecutiva, acompanha a caravana do Rali dos Sertões durante a competição, que terá duração de dez dias. Nasceu em Itumbiara, cidade ao Sul de Goiás, e tem 23 anos. Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Goiás (UFG), em 2003. Torcedora de Flamengo e Vila Nova, é solteira e não tem filhos. Para entrar em contato com ela no meio da trilha do Sertões, é só mandar um e-mail para paulaparreira@yahoo.com.br.
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