
Aos 89 anos, Dona Senhorinha viajou 38 quilômetros a partir de Seabra só para acompanhar a largada da sétima especial do Rali dos Sertões, que foi em frente à sua casa. Ela não sabe o que é especial, nem deslocamento. Muito menos Sentinel, Spy, forfetar e outros termos da linguagem do rali. Mas adorou aquele movimento todo e reuniu a família para assistir à passagem de motos, quadriciclos, carros e caminhões.
Senhorinha tem 11 filhos e estava doente em Seabra. Mesmo assim, fez questão de ver o rali passar em frente à sua casa. Helena é uma de suas filhas e me deixou usar o banheiro de sua casa. Lá foi o local da largada da especial de hoje do Sertões, que foi de Seabra para Brumado, ambas na Bahia. Fui até o ponto de partida para a etapa e peguei uma trilha péssima de Seabra até lá. Valeu a pena.
Assim como Dona Senhorinha e sua família, muitas pessoas acompanham com curiosidade a passagem do Rali dos Sertões nas portas das casas. E é incrível o número de povoados que existem no caminho. Para sair do local da largada e pegar a estrada para Brumado, tivemos que voltar pela trilha. Dezenas de crianças se amontoaram à beira da estrada para pedir presentes e até autógrafos. Eu (pasmem!) assinei o papel da professora de uma escola no caminho.
Saímos para a trilha às 6h e pensei que fosse dar para conferir largada, chegada e ainda alguns pontos da especial. Mas fomos só na largada. Em pouco tempo, todas as motos e os três primeiros carros completaram. E a gente ainda nem tinha entrado na trilha do deslocamento final. Decidimos vir direto para Brumado.
Por precaução, decidi não comer nada no café da manhã. E logo percebi que, se o tivesse feito, teria passado mal certamente. Fomos no carro com o Keke (motorista) e com o jornalista chileno Gerardo, que é muito divertido. O Gerardo navegava o tempo todo para o Keke, que tem um GPS no carro, e assim ficou fácil chegar sem erros ao local da largada. Bem, quase sem erros. Em determinado momento, nos orientávamos pelo Gerardo e tínhamos outra picape na nossa frente. Mas entramos errado, atrás do veículo. Tivemos que voltar e pegar o caminho certo.
Na largada, encontramos alguns pilotos de moto e falamos com o pessoal da ação ambiental e da equipe técnica. É legal ver como o pessoal se prepara e concentra para a prova. Alguns aproveitam para comer uma barrinha de cereal e armazenar energia para a especial. Outros só carimbam o cartão, esperam o momento de acelerar e saem.
Não pudemos ficar muito tempo. Se a gente demorasse muito, os caminhões entrariam na trilha de deslocamento e fechariam a estrada. Assim, não poderíamos voltar antes da largada de todos os veículos. Mas tivemos que voltar pela mesma estrada que chegamos. E como vinham motos e carros contra a gente, o Keke foi devagar e bem atento. Cruzamos com Palmeirinha, Klever, Marlon Koerich, Edu Piano, João Franciosi, Riamburgo, Fellipe Bibas, entre outros.

Depois de conferir a partida de algumas motos, pegamos a estrada e fomos direto para Brumado. E, se no dia anterior as paisagens da Chapada Diamantina que observamos foram lindas, as de hoje foram ainda mais. Passamos por Mucugê, uma cidadezinha simpática, que tem a Chapada como pano de fundo. Se eu morasse num lugar como Mucugê, não me acostumaria nunca com a paisagem e sempre me surpreenderia com ela.
Em seguida, passamos pela Cachoeira da Fumaça, ao lado da Toca do Morcego. É maravlihosa. Só paramos para fotografar de longe, mas não descemos. Em viagens longas, mas corridas, como esta para acompanhar o Rali dos Sertões, a gente acaba perdendo a chance de conhecer um monte de coisas legais para evitar atrasos. Mas fica sempre a promessa de voltar em alguma outra oportunidade.
Cultura
Nunca imaginava passar por isso. Não na cidadezinha de Seabra, no interior da Bahia. Fomos à pizzaria Casa Velha. Ninguém conhecia o lugar, mas alguém sugeriu. Chegamos lá e, antes de descer da van, já gostei de lá. Tinha uma aparência rústica e uma luz baixinha, que dava um ar super romântico ao lugar.
Quando entrei, a maior surpresa. A decoração é linda. Lindíssima. Logo na entrada, fotos antigas de pessoas (várias ou só o rosto de alguma) nas paredes. Não sei se são de família ou só de pessoas anônimas da cidade. Depois, me surpreendi com uns quadros com temática de cinema. Tem Woody Allen (em cena e em cartazes) e Almodóvar (em cartaz).
Perguntei ao gerente do local, o Cléber, quem era o responsável pela decoração da pizzaria. Ele disse que era o proprietário, mas que ele não estava lá. Uma pena. Queria ter falado com ele. Mas tive uma verdadeira aula de cultura no interior baiano.
Paula Parreira é editora-assistente do caderno de Esportes do jornal "Diário da Manhã", de Goiânia. Pela segunda vez consecutiva, acompanha a caravana do Rali dos Sertões durante a competição, que terá duração de dez dias. Nasceu em Itumbiara, cidade ao Sul de Goiás, e tem 23 anos. Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Goiás (UFG), em 2003. Torcedora de Flamengo e Vila Nova, é solteira e não tem filhos. Para entrar em contato com ela no meio da trilha do Sertões, é só mandar um e-mail para paulaparreira@yahoo.com.br.