Diário dos Sertões: Um dia bem longo
Paula Parreira
30/07/2006 - 15:02

Divulgação
A sala de imprensa improvisada para quem cobre o Sertões 2006
A sala de imprensa improvisada para quem cobre o Sertões 2006
Se houvesse um briefing para descrição dos caminhos e perigos que os jornalistas enfrentam todos os dias no Rali dos Sertões, tenho certeza de que ouviríamos em Palmas: “A etapa de amanhã é bem longa. Muito longa. Mas muito longa mesmo. Saiam cedo. Uma sugestão é cair na estrada às 4h da manhã. Vocês são as pessoas que mais vão andar direto neste ano. São mais de 900 quilômetros. Haverá um trecho de terra com costeletas, pedras, valas e valetas. É bom não passar dos 10km/h. Cuidado com assaltos. E cuidado, mas muito cuidado mesmo, com o entrocamento da BR-135 no Piauí.”

Viemos direto de Palmas (TO) para Corrente (PI). Bem que tentamos sair às 4h. Mas ficamos na sala de imprensa até tarde e, até que todo mundo toma banho e janta, fomos dormir às 1h30. Eram 4h30 da madrugada quando ligam no nosso quarto para nos acordar. É só o tempo de vestir a roupa e calçar o tênis. Em tempo recorde estávamos dentro da van. Saímos da capital tocantinense por volta das 5h. A previsão era de cerca de 10 horas de viagem.

Mas, exatamente às 15h, passávamos por Barreiras, na Bahia. O nosso almoço foi ótimo. Paramos numa churrascaria em Luís Eduardo Magalhães, antiga cidade de Mimoso, e comemos muito. O pessoal aproveitou para comprar alguns dvds para que assistíssemos no caminho. Estava tudo muito bom para ser verdade, fora o tamanho da viagem. A expectativa era chegar e ainda mandar algumas matérias para o jornal (isso porque o deadline de sábado é mais cedo).

Depois que passamos por Formoso do Rio Preto, demos de cara com uma estrada de chão. No mesmo instante, me lembrei das etapas dois e três do ano passado, quando sofri com dois trechos de mais de 600 quilômetros em estradas péssimas por dois dias consecutivos. Cruzamos com uma carreta enorme tombada. Já estava ruim, mas ficou ainda pior.

Chegamos ao tal entroncamento com a BR-135 (que eu citei lá em cima) às 17h50. Viramos à esquerda e pegamos asfalto ou seguimos reto e pegamos mais um trecho de terra? A vontade de todos era sair logo daquele caminho inóspito e “sacolejante” para pegar um trecho lisinho. Era um cruzamento confuso e, após várias análises, resolvemos entrar à esquerda.

A estrada era lisinha, mas completamente isolada e deserta. As árvores ao lado pareciam entrar na pista e fazer um espécie corredor de labirinto. Cruzamos com dois carros do rali. Mas ninguém se preocupou. Por volta das 18h15, após o quarto carro passar por nós no sentido contrário, resolvemos parar o próximo veículo para obter informações.

Demorou. Estávamos mesmo para o lado errado, nos informou um carro que parou após nosso pedido. “Para este lado, vocês vão chegar na famosa Caseral (acho que era esse o nome da cidade)”, disse o motorista. Como já estávamos há muito tempo na estrada, eu e as meninas já não agüentávamos de aperto para ir ao banheiro. O jeito foi procurar um matinho mesmo.

Parados na estrada, o piloto Rafael Túlio passou e parou. Era a certeza de que tínhamos que voltar os 52 quilômetros percorridos por ali. Aí foi a vez de o Euler, nosso motorista, me deixar aterrorizada. “Vamos logo, que esta estrada é perigosa. A gente não pode da bobeira. Aquele carro que parou era escolta de um caminhão”, disse. Entre em pânico e já tinha ficado escuro. Naquela estrada deserta, todo veículo que cruzava conosco me deixava com medo.

Chegamos ao entroncamento e o Rafael Túlio, campeão do Sul-Americano de Velocidade do ano passado, nos esperava para a certeza de que seguiríamos pelo caminho certo. Chegamos em Corrente (PI) às 20h30. Nada de sala imprensa, nada de conexão de banda larga. Vamos comer, então, para depois tomar um banhinho quente e dormir.

A janta até que foi tranqüila, apesar da galinha com molho do próprio sangue que a gente comeu (a Helena Matta nem conseguiu comer a carne). Mas quando chegamos no hotel, nossos nomes não constavam na reserva. A previsão não era de estarmos aqui ontem, mas sim apenas hoje. As meninas foram para o hotel da Helena. Nos apertamos em uma cama de casal e uma de solteiro. Mas foi uma noite ótima. Depois de um dia de verdadeiras aventuras, a gente entrou no clima de rali fácil, fácil.

Paula Parreira é editora-assistente do caderno de Esportes do jornal "Diário da Manhã", de Goiânia. Pela segunda vez consecutiva, acompanha a caravana do Rali dos Sertões durante a competição, que terá duração de dez dias. Nasceu em Itumbiara, cidade ao Sul de Goiás, e tem 23 anos. Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal de Goiás (UFG), em 2003. Torcedora de Flamengo e Vila Nova, é solteira e não tem filhos. Para entrar em contato com ela no meio da trilha do Sertões, é só mandar um e-mail para paulaparreira@yahoo.com.br.
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