Warm Up: Senna e Massa, 20 anos depois
Flavio Gomes
06/07/2006 - 00:20

AP
Massa pode até ter ficado chateado. Mas quem é que lembra de seleção quando se obtém o melhor resultado da carreira?
Massa pode até ter ficado chateado. Mas quem é que lembra de seleção quando se obtém o melhor resultado da carreira?
No dia seguinte à eliminação do Brasil pela França em 1986, Ayrton Senna ganhou o GP dos EUA em Detroit com uma Lotus. Um gaiato lhe entregou a bandeira brasileira pelo alambrado e ele desfilou com a dita cuja erguida, gesto que se tornaria uma de suas marcas registradas.

Depois, contou que era mais uma provocação aos franceses da Renault, que faziam os motores de sua equipe, do que propriamente um desabafo nacionalista. Senna não se ligava muito em futebol.

Mas o gesto, meio sem-querer, fez justiça à geração que havia sido derrotada no México. Uma geração que incluía Júnior, Falcão, Sócrates, Zico, mais Carlos, Edinho, Careca, Muller... Daquele grupo, só dois, Edinho e Júnior, jogavam fora do Brasil — um na Udinese, outro no Torino.

O gesto fez justiça a Telê e ao futebol brasileiro, entendendo-se por futebol brasileiro aquele jogado no Brasil, não por brasileiros na Europa, que acabam tornando-se praticantes do futebol europeu, pois cada vez mais vão-se embora cedo, sem saber direito como é jogar no Mineirão, no Beira-Rio, no Canindé, no Brinco de Ouro, no Serra Dourada, na Vila Belmiro, no Pacaembu.

Domingo, em Indianápolis, nem Barrichello, nem Massa, tinham chances reais de vitória, e se ganhassem não desfilariam com bandeira alguma nas mãos, porque a FIA proíbe que qualquer objeto estranho seja entregue a um piloto ao final de uma corrida.

Mas um deles, Felipe, foi ao pódio. Sem bandeira alguma, sorriso aberto, sem demonstrar chateação nenhuma pelo que acontecera um dia antes. Massa nem deve ter pensado nisso. Mas, de novo sem-querer, desenhou-se um retrato da reação do país à derrota para a França.

Indiferença. É apenas isso que mereceu de todos a seleção, que já faz tempo que não é mais brasileira — pode até ser formada por jogadores brasileiros, mas está longe, muito longe de representar o país. É um time de celebrities e popstars. Assim mesmo, em inglês. Aqui se fala outra língua e se vive de outro jeito.
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