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Brava garota brava
Flavio Gomes 20/10/2005 - 15:11
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| Giovanna: sempre bravinha |
Só me lembro que ela era muito brava. Se pilotava bem ou mal, não sei. Nas três tentativas que fez, não se classificou para o grid. O que não quer dizer muito, porque aquele que ocupou seu lugar tentou oito vezes, e só conseguiu duas. E tinha muito mais experiência, vinha de uma temporada como piloto de testes da Williams. Quatro anos depois, seria campeão do mundo.
Ela era brava porque todo mundo só lhe perguntava a mesma coisa. Como é ser mulher na F-1? Os homens te intimidam? Te tratam bem? Você brincava de carrinho quando era pequena? E ela devolvia com elaboradíssimas patadas. Sou mulher fora da pista, lá dentro sou só piloto. Piloto não tem sexo.
Na estréia, em Kyalami, os fotógrafos se acotovelavam diante dos boxes da Brabham, esquecendo Mansell, Senna e outros menos importantes. Até que um lambe-lambe gritou com ela, de longe: pô, dá um sorriso! E ela mandou o sujeito à merda, não estou aqui para sorrir para ninguém!
Tão brava, que quando resolvi fazer uma entrevista com ela mandei as perguntas por fax para um número que me indicaram. Eu não sabia que era da casa dela. Enviei de noite aqui, madrugada na Itália. Era o telefone da casa dela, que a acordou. Quando chegaram as respostas, também por fax, ela me passou uma descompostura. Nunca telefone para ninguém de madrugada, você me acordou.
No México, na corrida seguinte, levei o recorte do jornal para ela. Cara fechada, leu de cabo a rabo e no fim e me perguntou o que queria dizer "dondoca". Não consegui explicar direito, mas disse que ficasse tranquila: escrevi que você não é dondoca, portanto não me encha o saco. Foi a única vez que a vi sorrir, diante do repentino ataque de falta de educação do repórter.
Giovanna Amati durou três finais de semana de GP. Tinha 29 anos na época e era loira, esguia e bonita. Não largou em nenhum porque a Brabham tinha um carro lamentável, embora bonito — o time fecharia as portas naquele ano. Era o chassi de 1991, que usava motores Yamaha, remendado para caber um Judd.
Foi a última mulher a guiar um F-1 para valer. Sarah Fisher andou com um McLaren em Indianápolis outro dia, uns três anos atrás, mas era para fazer propaganda de relógio. Não conta. Hoje, nem de monoposto corre mais. Disputa uma das divisões regionais da Nascar.
Mês que vem, Katherine Legge, inglesa, vai fazer um teste na Minardi, a futura Toro Rosso. Será em Vallelunga, na Itália. A Red Bull, nova dona da equipe, foi pescá-la nos EUA, onde venceu três corridas de F-Atlantic Toyota este ano.
Essa pelo menos sorri nas fotos. Mas não é bonita que nem Giovanna. Nem parece brava. E mulher legal, todos sabem, é mulher brava.
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