|
|
 |
Alexandre, o Grande*
Flavio Gomes 28/06/2005 - 23:36
|
 |
 |
|
Foi no começo do ano, guardei o ingresso. Uma hora antes, todos no carro, todos os três, e me veio a idéia, uma forma de estimular o programa que é legal, para criança tudo é legal, mas um plus a mais, como me disse uma vez um publicitário, sempre é bom.
Vocês querem entrar no campo junto com o time?
Estávamos indo ao Canindé, sábado de sol, jogo tranquilo, mas eles já estão na idade de ver outros times na TV, os amiguinhos que vibram com Robinho, Tevez e Rogério Ceni, e minhas armas não são muitas, tenho de usá-las.
No campo? Dá pra entrar no campo?
Dá, o papai consegue. Batalha vencida. No caminho todo o tiroteio de perguntas, como é?, como eu faço?, pode mesmo?, e as dúvidas, eu não vou, vamos sim!, tudo bem, você fica comigo, você vai, e no caminho todo o tema em discussão, e a expectativa aumentando, nada como um assunto para encurtar o tempo e a distância.
E vamos ao Canindé, todos os três, conheço uma ou outra pessoa lá, mas nem precisava, era só ir à porta do vestiário, com a perspectiva inigualável de entrar no campo com os jogadores, isso não é qualquer pai que arruma.
O pequeno é mais tímido, agarrou-se às minhas pernas, não faz mal, você entra comigo e a gente fica naquele banquinho, OK, proposta aceita, o maiorzinho empolgado, junta-se aos demais moleques no corredor polonês na saída do túnel, a arquibancada quase vazia, mas naquela hora estávamos, os três, no Stade de France na final da Copa do Mundo.
E o time sai do túnel, primeiro jogo em casa no ano, não conheço ninguém exceto o goleiro, ele lá, no corredor polonês, o pequeno e eu aqui, no banquinho, ansiosos como se estivéssemos numa formatura, o mano mais velho a instantes de pegar seu diploma, sair para a vida.
Os jogadores vão passando, esticam suas mãos, cada moleque pega numa, e o número 7 segura na dele, e lá vão eles para o jogo. Eu não sabia o nome do número 7, foi o sistema de som do estádio que me salvou, 7, Alexandre, e coube a Alexandre levar meu menino para o jogo da vida dele.
Naquela hora, em que outro adulto deu a mão ao meu filho e o conduziu a um misterioso futuro, mais um capítulo se encerrou e um novo se abriu. Abracei o pequeno bem forte pelo ombro, ele olhou para mim sorrindo, seus olhinhos diziam, é, pai, ele foi mesmo, enquanto o mano mais velho seguia em direção ao desconhecido, mãos dadas com Alexandre, o Grande, que eu nem sabia se bom jogador era, mas naquele momento era sem dúvida alguma o maior de todos os tempos.
Foi tudo rápido, como rápidos são os instantes decisivos da vida, o jogo ia começar, ele voltou correndo, os passinhos curtos e os braços chacoalhando exageradamente, ele corre engraçado, pai, pai, você viu, quem é que me levou, pai, pai, demais! Foi o Alexandre, filho. Ele é bom? É, filho, claro que ele é bom.
E deixamos o vestiário, subimos para a arquibancada, mas nada nunca mais seria como antes.
____________________________________________________________
* Esse jogo, que já não lembro contra quem foi, aconteceu num fim de semana de uma corrida à qual não fui. Ainda bem. O texto foi escrito em Koblenz, Alemanha, "circa" maio, 2005. De frente para o Reno, com a lua cheia da madrugada pintando de prata o rio mais lindo do mundo. Na semana de um GP qualquer, que um piloto qualquer, que nem chega aos pés de Alexandre, o Grande, venceu.
|
|