Neblina!
Roberto Brandão
13/05/2005 - 14:44

Arquivo Dekabras
Um Malzoni na escuridão de Interlagos: neblina era uma das inimigas...
Um Malzoni na escuridão de Interlagos: neblina era uma das inimigas...
Na década de 60, e até o meio da década de 70, a maior competição do automobilismo brasileiro eram as “Mil Milhas Brasileiras”. Equipes, fábricas, torcida preparavam-se para o evento, o maior barato. A largada era em estilo “Le Mans” e os espectadores pernoitavam por lá, ou, por vezes, saíam à noite e voltavam depois da balada, de madrugada, para seguir assistindo à prova. Também era uma honra inscrever seus carros.

Dentre as equipes nacionais, eram sempre favoritas a Willys, do Greco, a Simca, com seus motores potentes, a DKW, Camilo Christófaro e Eduardo Celidônio, com sua carreteira n° 18 de motor Corvette e câmbio Ferrari, e os FNM (Alfa) com Emílio Zambello e Piero Gancia. Existiam as equipes oficiais e as equipes particulares, com seus Fuscas envenenados, ou outros carros, ou ainda mais carreteiras.

Nessa época, meu pai, proprietário de uma concessionária Vemag e entusiasta de corridas, resolveu formar uma equipe para as “Mil Milhas Brasileiras”. O nosso DKW era mais bonito que os oficias de fábrica, seguindo a cor branca e o número em branco, dentro de um círculo preto, pois, por dentro dos pára-lamas (que eram cortados) estava pintado da cor vermelha e as rodas eram mais bonitas que as oficiais.

Meu pai contratou um piloto italiano, Bruno Barrancano, cujo maior predicado era ser italiano. Esse povo entende de corridas, dizia o velho, fã de Ascari, Nino Farina, Nuvolari, Pintacuda (personagem de uma famosa marchinha de Carnaval) e o nosso Chico Landi, cujo sobrenome não nega a origem.

Eu, caçula dos homens de uma família de seis irmãos, e ainda por cima temporão, era um dos conhecidos “ratos” de Interlagos. Os "ratos" eram as crianças que ficavam circulando pelos barrancos e matos do autódromo, na maioria das vezes trazendo notícias, observando as curvas mais distantes. O tempo de volta ficava em torno dos cinco minutos, uma eternidade. Outra característica daqueles tempos era a neblina que, invariavelmente, mesmo no verão, caía sobre a cidade de São Paulo, durante a madrugada. Era sempre um fator desfavorável a ser considerado como adversário dos pilotos.

Amanhecia, a corrida já chegava à sua metade e nosso carro ia bem, colocado lá no meio do pelotão, 15°, 16° lugar. Levando em conta os carros oficiais de fábrica e as carreteiras, íamos bem, sim. De repente, os irmãos mais velhos me chamam, com pressa. Fazia pelo menos uns cinco minutos que nosso carro passara à frente dos boxes e... nada! Procuravam, com binóculos, pelo DKW da equipe, mas não conseguiam encontrá-lo. Então, cabia ao “rato” ir procurá-lo, nos locais onde a visão não alcançava, como a curva do Sol, o Pinheirinho, o Bico de Pato, o mergulho, subida dos boxes etc. “Vai achar onde está o nosso carro, se bateu ou está quebrado!”, ordenavam.

Quando me preparava para sair, ouvi o braulho característico do DKW entrando nos boxes. O piloto, perguntado sobre o problema, respondeu: “Não enxergo nada. A neblina está muito forte. Sou pai de família, vocês acham que eu sou louco? Deixa a visibilidade melhorar um pouco. Depois eu continuo...”



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