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Samantha
Flavio Gomes 12/07/1997 - 00:00
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| O ursinho de Samantha |
Pela primeira vez desde que acompanho a Fórmula 1, abri mão de ficar num hotel para a corrida de Silverstone. Tinha até um muito legal em Northampton, a 35 km da pista, eu conhecia a recepcionista e o cara que fazia minhas torradas pela manhã. E o gerente também, que sempre reservava um quartinho com janela para a rua principal da cidade, quarto antigo, com carpete no banheiro.
Mas era um inferno chegar ao autódromo, embora no ano passado eu tenha descoberto um caminho pelo meio das fazendas que me tirava da A43, a Estrada para o Inferno, como a chamava Chris Rea, um fanático por Fórmula 1. Reza a lenda que ele compôs "Road to Hell" parado num congestionamento-monstro para Silverstone, anos atrás. Sempre foi assim: 150 mil pessoas vão para a pista de carro, não há outro jeito, pela mesma estradinha, a A43. Tempo médio para percorrer 30 km: três horas. Um inferno.
São estranhos esses ingleses, porque há outros caminhos, mas eles não sabem. Ainda bem, porque assim eu continuo pegando pista livre nas minhas fazendas. E de onde me hospedo neste ano, não são mais do que 15 minutos. Loucos, esses ingleses. Adoram um congestionamento.
Mas não é sobre o inferno da estrada que quero falar, mas sim de Samantha. Samantha é a garotinha que dorme no quarto onde estou. Aluguei, com uns amigos, uma casinha adorável em Towcester, a 8 km da pista. Casinha inglesa, de tijolinhos e quadros de cavalos e caçadas nas paredes. Típica, com lareira e janelinhas brancas e grama muito verde.
A família nos deixou a casa e a mim coube o quarto de Samantha. Ela deve ter uns oito anos. Seu quarto tem papel de parede decorado com ursinhos, quadrinhos do Dumbo e dos 101 Dálmatas e um urso Puf (lembram?) sentado numa cadeira.
Vi o retrato de Samantha na geladeira. Acho que nunca vou conhecê-la pessoalmente, mas queria dizer a ela que adorei seu quarto de criança. Cometi até a indiscrição de abrir a primeira gaveta da sua cômoda branca laqueada, sabe como é, a gente conhece as pessoas por seus objetos e hábitos, e embora seja muito nova, é claro que Samantha tem seus hábitos.
Ela tem um walkman colorido, por exemplo, e vários elásticos de todas as cores para prender seus cabelos lisos e negros. E adora lápis coloridos, tem uma coleção imensa. Não abri o guarda-roupa, até porque já vi seu uniforme da escola na foto, saia azul-marinho, camisa branca e um lencinho vermelho no pescoço. E não fica bem espiar as roupas de uma mocinha, convenhamos.
Estou dormindo na sua cama e com seu travesseiro. Todos os dias, de manhã, abro as cortinas para o sol encher de luz aquele lugar sagrado, um quarto de criança, que faz-me sentir um garoto de novo. Tenho muito a agradecer a Samantha. Ganhei uma nova amiga, e vocês não fazem idéia do que é isso quando se viaja tanto, quando é necessário conviver com desconhecidos nos lugares mais malucos do mundo para sobreviver.
Vou deixar um presente para ela. Li, numa cartinha que ela escreveu para o pai, provavelmente um trabalho de escola (está colada na parede da cozinha, a cartinha), que ela adora o inverno porque gosta de fazer bonecos de neve e porque gosta de sua casa quentinha, mesmo quando faz muito frio lá fora. Nada mais encantador. Não posso lhe dar um boneco de neve, Samantha. Mas vou achar alguma coisa para te agradecer.
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