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Notícias chocantes
Flavio Gomes 05/08/2003 - 17:47
| Flavio Gomes |
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| As miniaturas da Aerobrás: como eram, há mais de 25 anos |
Fui para a Alemanha, e já voltei, e estou criando o equivocado hábito de escrever na volta, chocado com uma notícia e choquei-me com outra ao chegar lá. Notícia que já deveria ter ouvido se procedesse a uma leitura decente dos jornais, algo que não tenho feito ultimamente — mas culpo os jornais, por não ter visto a própria em primeira página nenhuma. Qualquer jornal com um mínimo de sensibilidade deveria ter dado em manchete, seis colunas, no alto, foto rasgada, o fim da produção do Fusca. Essa foi a notícia que me chocou ao chegar à Alemanha. Não estava preparado para ela. As revistas de automóveis também foram todas ridículas, nenhuma deu capa para o fim do Fusca. Ninguém entende nada de automóvel.
A outra notícia, a primeira, foi a morte de Shoji Ueno. Não sei quantos anos ele tinha. Já devia ser bem velhinho. E morreu faz quatro meses, em 5 de abril. Shoji Ueno foi o fundador da Casa Aerobrás. Veio para o Brasil durante a Segunda Guerra. No Japão, vivia de construir aeromodelos. Ao que parece, não sabia fazer outra coisa e quando se instalou em São Paulo arrumou um amigo para conseguir importar madeira do tipo balsa e montou sua lojinha, a Aerobrás. Isso faz 60 anos, 1943.
Shoji Ueno, a quem não conheci, nunca vi mais gordo, tem papel importantíssimo na minha vida. A Aerobrás ficava (acho que ainda fica, pelo endereço que vi na internet) na rua Major Sertório, no centro da cidade. O escritório do meu pai era em cima da loja. Quando minha mãe tirou carta e ganhou um Fusquinha, todas as tardes ia buscar o pai no escritório. E colocava os três meninos no banco de trás. A Major Sertório fica num lugar feio, mais feio hoje do que antes, é uma travessa da Amaral Gurgel, por cima passa o Minhocão.
Meu pai sempre gostou de miniaturas, de montar aviões de guerra para os filhos, é muito talentoso nisso. Pintava, colava, colocava os decalques. Eu tinha um Electra 2 que meu irmão mais novo pisoteou sem querer, nunca o perdoei. Um belo dia, perto do meu aniversário (eu acho que foi em 1977, mas talvez tenha sido antes; será que com 13 anos eu ainda ganhava carrinhos? Pode ser), o pai passou na loja e comprou um Belcar e uma Vemaguet.
Tem gente que não aguenta mais ouvir eu falar de DKW, mas azar, eu gosto de DKW. Só sei que ganhei as duas miniaturas, que tenho até hoje pintadas exatamente como meu pai as pintou, a perua com o banco da frente solto, solto como estava quando ganhei, e a partir delas fiquei tarado por DKWs, e um dia comprei um de verdade e hoje tenho um monte. Meu pai sempre contava uma história sobre essas miniaturas. O japonês da loja, dizia ele, tinha a intenção de montar um pequeno museu de miniaturas e no seu acervo havia quatro DKWs, fabricados pela Atma. Eles estavam no alto de uma vitrine, apenas a frente à vista, e como se sabe a frente de um Belcar é idêntica à frente de uma Vemaguet. O pai comprou duas e deixou duas com o japonês.
Para sua infelicidade, eram três Belcar e uma Vemaguet, e eu fiquei com a única disponível. Diz meu pai que o japonês desistiu do museu porque ficou sem a Vemaguet. Deve ser cascata, pais vivem contando cascatas para os filhos, eu faço isso o tempo todo. Digo aos meninos, na frente dos amiguinhos deles: "Outro dia vinha um trem muito rápido, tinha um cachorro no trilho, eu entrei na frente, estiquei o braço e segurei o trem. Verdade ou mentira?", pergunto aos dois, para que eles mostrem aos outros moleques como sou forte e corajoso, e os dois dizem "mentira", e eu fico com cara de tacho.
Bem, sempre ouvi falar do japonês, o responsável pela minha coleção de DKWs, a quem sou grato, e outro dia num lava-rápido, folheando uma revista de modelismo, li que Shoji Ueno, o japonês, morreu. É chocante.
Shoji Ueno tem muito mais a ver com minha vida do que jamais imaginou. Por causa dele comprei meu primeiro DKW, sem que ele soubesse, sem que eu me desse conta, e foi nele que me casei. Se em vez de DKW eu viesse a gostar de Gordini, por exemplo, seria impossível colocar a noiva no banco de trás, talvez eu nem me casasse diante de tamanho impasse. O mais impressionante: o Belcar é verde com a capota branca, como o meu de verdade, e a Vemaguet bege, como a minha de verdade, que comprei escondido há três anos, está restaurando há três anos, mas acho que minha mulher vai descobrir, é capaz de pedir o divórcio, aí o japonês será culpado do divórcio, também.
Bem, chega de divagar. Que descanse em paz Shoji Ueno, que fundou a Aerobrás onde meu pai descobriu dois DKWs.
Abalado pelas duas notícias, as mortes do japonês e do Fusca, e incomodado pela minha úlcera no duodeno, acho que ela está voltando, preciso me cuidar, já fui e já voltei da Alemanha sem muita coisa para dizer. Gosto muito do país e de Hockenheim, foi lá que meu primeiro filho nasceu, digo, era lá que eu estava quando ele nasceu, ano passado levei a prole para lá, talvez por isso tenha achado tudo tão sem graça neste ano. Telefonei na quinta, era seu aniversário, e ele atendeu dizendo "olha, pai, já enchemos os balões, colocamos os pratinhos e os garfos na mesa para comer bolo", e eu naquele fim de mundo. E ele disse, não faz mal, quando você voltar eu faço aniversário de novo.
Legal, hoje ele faz aniversário de novo, tem bolo e tudo.
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