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Manêro, tudo manêro
Flavio Gomes 23/07/2003 - 21:26
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| Zona no aeroporto: greve da companhia aérea |
Escreverei pouco e mal.
Primeiro, e principal motivo, porque não estou viajando. Já voltei, e escrever sobre uma viagem tendo já voltado beira a fraude. Desconfio que minhas bobagens ficam mais eloquentes quando estou em ambiente externo. Um hotel no interior da França, uma sala de imprensa vazia num fim de noite, um saguão de aeroporto esperando uma conexão.
Ah, as conexões. Este tem sido um ano particularmente atarefado para sair de casa e pousar onde tem corrida, ou voltar delas. Anteontem mesmo, enquanto esperava os pobre-coitados dos funcionários da British Airways resolverem o que fazer de sua greve em Heathrow, rabisquei num bloquinho, o que mais tenho são bloquinhos, as agruras da temporada.
Não é para ter dó, mas voltando da Austrália a conexão em Santiago atrasou umas quatro horas, quando fui para a Malásia, via Hong Kong, o avião atrasou em Londres e perdi a conexão na China, troquei de vôo, fiz escala numa ilha qualquer e fiquei sem a mala, no caminho para Imola, em Londres, sempre Londres, o atendente no balcão me disse que o vôo estava lotado e que minha tarifa era muito chulé, e que por isso eu teria de esperar até os 45 do segundo tempo para saber se embarcaria, na volta de Barcelona o vôo da Spanair atrasou muitas horas e isso representou prejuízo porque fiquei gastando dinheiro com besteira no aeroporto, a volta de Mônaco foi como a ida para Imola, tarifa chulé, só entra quando o cara do check in quer, o retorno do Canadá foi a maior tragédia do ano, avião quebrado, 16 horas de atraso em Chicago, verba da companhia de 5 dólares para jantar, me vinguei roubando todas as canetas e sabonetes que pude pegar do carrinho da faxineira no hotel que eles pagaram e desligando o fio do aspirador de pó perto do elevador só para sacanear o cara que limpava o corredor, e depois a volta de Magny-Cours via Paris, 448 euros de excesso de bagagem, minha vingança foi prender o dedo da mulher que me cobrou isso no balcão com minha mala pesadíssima, e em Londres, escala obrigatória, tudo pronto para sair quando mandam todos descerem do avião porque um cara entrou no nosso por engano, ele ia para Dubai, sentou na poltrona e perguntou ao cara ao lado como estava o tempo em Dubai, e o sujeito disse que não sabia porque aquele avião ia para São Paulo, e aí todos perceberam que o cara estava no avião errado, sai todo mundo para checar o cartão de embarque de cada um, imagine quanto tempo leva, e agora a greve da British, passageiros esperando fora do terminal, uma coisa lindinha, até a hora em que um palhaço de bengala, brasileiro, ficou irritado e começou a convocar todos para reclamar no balcão da companhia, que ficava a quilômetros do portão de embarque, e eu perguntei onde ia aquele povo todo e ele me disse, vamos reclamar, você vai ficar aí tomando coca-cola?, e eu disse, não, isso é fanta.
Claro que o balanço é claramente desfavorável ao passageiro, eu, mas já estou me acostumando e resolvo meus problemas tomando fanta.
O mundo está ficando chato, e as pessoas também. Domingo à noite resolvemos, eu e o parceiro que me acompanha, voltar a Londres. Tivemos um certo atrito com a senhora que nos alugou sua casa, parte dela, uma velhinha metida a moderna e sarada e esportista, mas que no fundo não passava de uma pentelha. Decidimos voltar a Londres e queríamos pagar três noites, ela não gostou da idéia, o pacote mínimo é de quatro noites, I run a business here, me disse, vá à merda, respondi em português no domingo de manhã, quando ela nos flagrou tentando fugir da sua espelunca construída em 1600-e-fumaça. Ficou esperando na porta para receber suas libras nojentas. Pagamos, fazer o quê?
De madrugada, entrando em Londres, acho que levei uma multa, 40 por hora, milhas, era o limite, mas acho que estava um pouco acima, em alguns lugares, hoje, se você cospe pela janela espouca um flash, espoucou um flash, e depois teve o parquímetro, acordei com os passarinhos para colocar a moeda, estourou o prazo, não deu um minuto meteram outra multa no pára-brisa, o mundo está chato demais, hoje só dá para viver no Brasil e na Tailândia, onde ninguém dá muita bola para o que os cidadãos fazem por aí.
Voltei para casa aliviado, não porque seja um infrator contumaz, ao contrário, procuro respeitar as leis e sou a favor de radares nas ruas, porque em São Paulo, se não tiver isso, neguinho vai se matar a cada dois postes, mas aqui, pelo menos, sei onde e quando transgredir. Na Europa e nos Estados Unidos não dá mais, estão todos muito chatos nos filmando e fotografando.
Cheguei a São Paulo numa linda manhã de inverno, com céu azul e névoa úmida no decorrer do período, catei meus filhos e fui no parque da Xuxa num shopping center, uma merda de parque, mas eles adoraram andar na montanha russa e comeram muitas batatas-fritas, depois fui direto ao sambódromo ver carros velhos com os dois moleques, e o mais velho, ele está muito engraçado, quando alguém parava do lado do meu Fissore dizia, esse carro é nosso, ó como tá manêro, onde será que ele aprendeu a falar manêro aos cinco anos de idade?
Manêros, meus filhos.
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