Katleine, Klebisson e Kleber
Flavio Gomes
13/06/2003 - 21:34

Divulgação
Sá & Guarabyra
Sá & Guarabyra
Eram três e dez da manhã quando disparou o alarme de incêndio no hotel. Às três da manhã, quando se está dormindo, o ser humano é um coitado indefeso. Acorda feito um bêbado, não sabe onde está, o que está acontecendo, e se uma sirene toca no seu ouvido, num país estranho, é algo aterrorizante. Que porra é essa?, falei para mim mesmo, e acendi a luz, e abri a porta e tinha um monte de gente no corredor de pijamas perguntando a mesma coisa, exceto uma moça discutindo com alguém em voz alta, era uma briga, não tinha nada a ver com o incêndio, nem incêndio havia, algumas pessoas desciam as escadas sem pânico, vivem treinando para isso, mas como eu estava no primeiro andar, não quis nem saber, não vi fogo algum, voltei para a cama, e apareceram dois caminhões do corpo de bombeiros de Montreal, e a sirene não parava de tocar no quarto, e foi duro dormir de novo.

Alarme falso, informou um bombeiro antes que eu voltasse ao quarto. A imagem me perturbou um pouco, lembrei aqueles caras do World Trade Center, a maioria tratada como herói depois de meses removendo entulho. Os que morreram não tiveram o mesmo tratamento. Nos Estados Unidos, quem remove entulho é herói.

Nos Estados Unidos tudo é um pouco diferente e um dos grandes entraves para se vir ao Canadá é ter de passar pelos Estados Unidos. Entrar num avião americano é um porre, os funcionários no Brasil fazem uma porção de perguntas estúpidas e desta vez chegaram ao limite da estupidez, a mocinha perguntou se eu levava algum isqueiro, eu disse que sim, e ela mandou que lhe entregasse. Tirei do bolso e enfiei na cueca e disse que não ia entregar nada, ela se assustou, disse que eu seria revistado na entrada do avião e eu respondi que se quisessem achar o isqueiro, teriam de colocar a mão por dentro da minha cueca, aí tudo bem, eu entrego.

Estou com o isqueiro.

Tenho reagido de forma estranha a certas situações ultimamente. Com uma serenidade que não conhecia, tomando atitudes inusitadas e incomuns, como enfiar o isqueiro no saco e deixar claro que ele só sai de lá se alguém tirar, eu não tiro, acho que é uma sensação de perplexidade com o mundo que me faz agir como se o mundo é que estivesse doido, não eu. E acho que está mesmo, então você se comporta como um maluco para ver o que é que acontece. E não acontece nada, o que apenas comprova a tese de que o mundo está doido, tão doido que não se importa com um cara que enfia o isqueiro no saco e manda a funcionária da companhia aérea procurar para ver se acha.

Tenho quase 39 anos, pertenço à geração de 64, há muitos outros como eu, somos uma confraria secreta, e estamos todos perplexos com tudo que vem acontecendo no mundo, com a velocidade das coisas, a geração de 64 desistiu de entender tudo, ligou o foda-se. Assisti na semana retrasada a um filme esplêndido, italiano, "Pães e Tulipas", e a protagonista tinha 39 anos como eu, era casada, com dois filhos adolescentes e um marido idiota, foi esquecida num restaurante durante uma excursão de ônibus, deu um clique e ela, Rosalba, com uma lucidez encantadora, passou a se comportar como louca, na verdade louca para os outros, não para ela, que resolveu vender flores, viver em Veneza e tocar acordeão. Nada mais natural, e quando acabou o surto ela voltou para casa, e viu que loucura mesmo era voltar a ser o que era, deu um pé na bunda do marido e voltou à sua deliciosa lucidez.

Nós, que temos 39 anos, estamos perplexos, é isso. Não temos 40 ainda, não temos 30 há um bom tempo, está na hora de escolher o que fazer, viver em Veneza e tocar acordeão ou sucumbir.

Um dia antes de embarcar para cá fui a Minas. Peguei o carro para ir a Caxambu, são quatro horas de viagem, fui resolver umas coisas lá, não vem ao caso, voltei no mesmo dia. Oito horas de estrada. Fui sozinho, já nem lembrava da última vez em que dirigi tanto tempo sozinho, olhando a estrada, o casario, os bares, as vacas. Parei num restaurante na Dutra e comprei três óculos escuros de dez reais, comi um pão de queijo, tomei um ovomaltine. São fatos relevantes. Fiz o que tinha de fazer em Caxambu, peguei a estrada de volta e voltei pensando na vida. Notei que em vários pára-choques de caminhões, em vez daquelas frases bestas como não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho, os caminhoneiros agora estão pintando nomes. Nomes que devem ser dos filhos.

Katleine, Klebisson e Kleber. Fiquei um tempão atrás desse caminhão, a serra é sinuosa, estava de noite, fiquei um tempão olhando para Katleine, Klebisson e Kleber no pára-choque, e imaginando aquele motorista ali dentro, de noite, sozinho, a placa era do Rio Grande do Sul, aquele motorista ali dentro, longe da Katleine, do Klebisson, do Kleber, carregando não sei o quê não sei para onde para poder sustentar os três, gozado como brasileiro gosta de dar nomes com k e w, algum tempo atrás tiraram o k, o w e o y do alfabeto, acho que voltou, não sei, mas, se não voltou, deveriam reabilitar ao menos o k de Katleine, Klebisson e Kleber, e o w de Wanderley, Washington e Wellington.

Lá pelas tantas o caminhoneiro deu seta para a direita, é o sinal de que quem está atrás pode passar, é preciso confiar nessas coisas, mas na estrada se confia, passei, buzinei, ele buzinou de volta, não vi seu rosto, o rosto do pai de Katleine, Klebisson e Kleber. Parei alguns quilômetros adiante, queria levar alguma coisa para casa, comprei um queijo, um doce de banana, uma bolacha de polvilho e uma garrafa de pinga, garrafa bonita, de barro. Quebrou em São Paulo, no chão da garagem, me atrapalho muito com sacolas, o rapaz que vendeu colocou tudo em sacolas separadas, me ofereceu um café, quis pagar ele não aceitou. Um rapaz de Passa Quatro, vestia-se com simplicidade e elegância num restaurante de beira de estrada, paletó sobre a camisa branca fechada até o colarinho engomado, aquela solenidade toda me comoveu. Disse o rapaz do paletó que está pensando em comprar uma chácara lá mesmo em Passa Quatro, um pouquinho mais longe da cidade, porque é mais sossegado.

Caramba, mais sossegado que Passa Quatro.

Me senti muito bem na estrada indo para Minas, umas meninas num ponto de ônibus ficaram ouriçadas ao ver passar aquele carro bonito com placa da metrópole e um cara diferente de óculos escuros dentro, elas eram bonitas e estavam de umbigo de fora, mas eram só meninas. Me senti muito melhor do que dentro de um avião americano onde me enfiei horas depois, sendo maltratado por funcionários brasileiros da empresa americana que falam como americanos, agem como americanos. Tem uma TV minúscula no banco da frente, um monte de canais com filmes bestas e documentários, parei num em que se apresentavam Sá & Guarabyra. O que teria levado uma companhia americana a colocar um vídeo de Sá & Guarabyra em sua programação?

Minas de novo. É um programa de auditório apresentado por um sujeito chamado Saulo Laranjeira, mineiro, coisa simples, um palco, umas cadeiras, um pequeno auditório, e músicos que se apresentam. A companhia americana deve ter mandado alguém comprar qualquer coisa para colocar no avião que vai e volta do Brasil, deve haver alguma legislação internacional sobre o assunto, compra aí qualquer porcaria em português.

O programa do Saulo Laranjeira, felizmente, não é uma porcaria, estavam cantando Sá & Guarabyra. Dona, Espanhola, Sobradinho. Acrescentei à minha lista de tarefas para este século comprar um disco de Sá & Guarabyra para tocar para os meninos, que já conhecem a música do macaco no zoológico, do Raul Seixas, a da batata frita, da Blitz, e a preta-pretinha, dos Novos Baianos, é o que já ensinei a eles de música brasileira graças a um CD que está no meu carro há não sei quanto tempo. É uma vitória pessoal quando eles entram no carro e pedem para escutar a música do macaco no zoológico e a preta-pretinha, a prova concreta de que é possível impedir que crianças sejam contaminadas pelo lixo da TV e se transformem em imbecis que cantam aquela música da égua mocotó, ou algo assim.

E quando no programa do Saulo Laranjeira no avião apareceu o Paulinho da Viola, não sei por que me deu vontade de acender um cigarro, e depois de chorar, porque fiquei com saudade da estrada para Minas, e das crianças, e da minha mulher, e de um monte de coisa, e como no avião não pode fumar, só chorei.

Nunca tinha chorado sozinho assim, não tinha ninguém do lado, só uma senhora do outro lado da fileira, parecia uma múmia empalhada, só notei que estava viva quando o avião chegou e ela se levantou, é ótimo, ninguém viu, também não foi assim um choro, fiquei só com os olhos cheios d'água, nós de 39 anos andamos meio perplexos e estranhos, até choramos por nada.



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