A difícil arte de chegar lá
Reginaldo Leme
10/12/2004 - 02:43

Se vida de piloto já não é fácil durante o ano, é quando acabam os campeonatos que a coisa se complica ainda mais. Nem tanto para aqueles já consagrados, que só precisam cumprir suas obrigações de testar o que suas equipes pretendem usar no ano seguinte. Dureza mesmo é para aqueles que ainda estão trilhando o caminho para tentar chegar ao topo. Alguns deles já próximos o suficiente para poderem sonhar com esse futuro. Outros, ainda bem distantes da F-1, ou seja lá o que vier a ser o topo para eles.

É aí que se encontra uma nova geração brasileira, que começou a correr na década passada, e já chama a atenção no exterior, gerando a expectativa habitual de toda vez que um novo garoto brasileiro aparece dentro de um cockpit em qualquer parte do mundo. Até um dia desses eles ainda corriam de kart por aqui. Hoje desfilam talento pelo mundo afora, somando títulos e vitórias, mas também passando momentos de profunda solidão. Na verdade, sempre que cruzo com um desses garotos por aí, dá pra sentir que o grande adversário comum a eles todos é este sentimento, o qual gera tristeza e, muitas vezes, até uma enorme vontade de largar tudo e voltar para casa.

E poderia se esperar alguma coisa diferente da vida de um menino de 17 anos de idade, natural de Sorocaba, interior de São Paulo, que hoje vive numa pequena cidade alemã, Dudeldorf, de 1.300 habitantes, em companhia apenas de mecânicos alemães com os quais só tem em comum a mecânica e a velocidade ? Este é o exemplo de Átila Abreu, o caçula desse grupo, e já vice-campeão da Fórmula-BMW na Alemanha. João Paulo Oliveira, hoje com 23 anos, também começou pela Alemanha logo que deixou o Brasil. Foi campeão na F-3, elogiado em jornais do país pelo empresário de Michael Schumacher, Willi Weber, e acabou indo morar ainda mais longe de casa. Foi parar no Japão, onde foi vice-campeão de F-3. A lista tem ainda Nelsinho Piquet, Lucas Di Grassi, Thiago Medeiros, Augusto Farfus Jr., Danilo Dirani. Todos lutando por um espaço, longe da família, dos amigos, da namorada. E só tende a aumentar. No ano que vem a turma recebe Xandinho Negrão, para correr ao lado de Nelsinho na GP2.

Quando não estão nas pistas, entre uma corrida e outra, eles se dedicam à preparação física, visitas à sede da equipe e, claro, horas e horas no computador matando saudades através da Internet. Isso é coisa que não existia na época de Emerson, Piquet e Senna.

Átila em Dudeldorf, Alemanha. João Paulo em Kyoto, Japão. Nelsinho, campeão da F-3 Inglesa, e Di Grassi são vizinhos em Oxford, Inglaterra, não muito longe de Dirani. Farfus, que correu o Europeu de Turismo, já está há cinco anos na Itália, morando em Viareggio. Thiago Medeiros, campeão na Infiniti Pro Series, mora em Indianápolis, nos EUA. Há outros que, por falta de dinheiro, não conseguiram disputar um campeonato inteiro. Como Tuka Rocha e Allam Khodair (F-3000 européia), Marcello Thomaz, Patrick Rocha e Gustavo Sonderman (F-Renault italiana), Marcos Vilhena (F-BMW inglesa), Elivan Goulart (F-Cooper americana), Rafael Matos (F-Mazda), Vitor Ramos (F-Dodge) e até um brasileiro naturalizado americano, Leonardo Maia, que foi quinto na Infiniti Pro Series, vencido por Thiago Medeiros. No caso de Marcos Gomes, que era vice-líder da F-Renault norte-americana, não acabou o dinheiro, mas acabou o campeonato. E teve ainda Bruno Senna, sobrinho de Ayrton, que fez algumas corridas na Fórmula BMW inglesa. Todos eles buscam espaço para mais um ano, sabendo que vão enfrentar solidão, saudade, insegurança, até algum medo. O resto, quando é dada a largada de uma corrida, eles tiram de letra.



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