De heróis e heroísmos
Flavio Gomes
02/05/2002 - 10:38

É difícil sentar para escrever uma coluna no dia 1º de maio. No exato instante em que escrevo, há oito anos estava dentro de um Fiat Punto a caminho do Hospital Maggiore sem saber o que estava acontecendo, mas já sabendo o que iria acontecer. Estávamos todos nós, jornalistas brasileiros em Imola, feitos baratas tontas atrás de informações inúteis, já que para a questão fundamental nada havia a ser feito. Cada um dos que estavam lá guarda até hoje suas lembranças, todas melancólicas e desagradáveis. Cada brasileiro que acompanhou o drama pela TV também há de se recordar de algo. Aqui, a pergunta "onde você estava em 1º de maio de 1994" equivale ao "onde você estava quando Kennedy foi assassinado" para os americanos, em 1963.

Cada país com seus heróis, é o que sempre digo, embora recuse o rótulo de herói para qualquer um. Nem Senna foi, muito menos Kennedy. No máximo, mártires em suas atividades. No fundo, não havia heroísmo algum no que Senna fazia. Herói, também digo sempre, é bombeiro. Banalizou-se o vocábulo, hoje qualquer pangaré que faz dois gols num jogo de futebol é tratado como herói.

Mas vá lá, o brasileiro médio tratava e trata Ayrton como tal, não sou eu que vou comprar briga com ninguém para remover dele ou de qualquer outro seus traços de heroísmo. Me incomoda, sim, essa confusão crônica entre vitórias de um atleta e triunfos de um país, algo que sempre tentou-se enfiar goela abaixo do brasileiro. Senna vencia, era o Brasil que ganhava.

Senna não era um fenômeno brasileiro, assim como Schumacher não é um fenômeno alemão. São fenômenos esportivos, algo globalizados, não resultam de uma característica genética de um povo ou da disposição histórica de uma nação a conquistas épicas. Grandes pilotos aparecem de quando em quando por acaso, e o acaso não escolhe nacionalidade.

Mesmo assim, Senna virou o herói do Brasil, dele se dizia que era tudo que o país gostaria de ter sido um dia, o exemplo de nosso talento adormecido que se materializava em vitórias, era aquela história de ficarmos orgulhosos de ser brasileiros a cada pódio. Uma tremenda bobagem, porque o carro dele era inglês, tinha pneus americanos e motor japonês, e nem por isso a rainha da Inglaterra se sentia vencedora cada vez que a McLaren ganhava uma corrida, ou o imperador do Japão.

Senna se foi, o Brasil continua atrás de seus heróis. Desconfio que não encontrará nunca um de verdade. Guga ameaçou, mas um jogo de tênis não tem o mesmo caráter de luta de gladiadores da F-1, exceto se o sujeito levar uma bolada na testa e estourar os miolos, o que parece pouco provável. Talvez Senna tenha se transformado em herói porque desafiava o medo, como fazem todos os pilotos. OK, foi o herói da pátria, rendamo-nos ao rótulo. Disso pelo menos o Brasil não tem do que reclamar. Senna foi um bom herói, afinal.




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