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Memórias irrelevantes
Flavio Gomes 01/05/2004 - 01:02
| Warm Up |
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| "Ele me chamava de Flavio" |
Não fui o primeiro a dizer que Senna seria um campeão, nem o segundo, nem o terceiro, nem nada.
Não ligava muito para Fórmula 1 quando ele estreou pela Toleman no Rio em 1984, embora estivesse lá, na arquibancada.
Não lembro de quase nada dessa corrida, exceto do calor infernal e das moças fenomenais que desfilavam pelos boxes, à vista de meu binóculo. Aos 20 anos, no duelo moças x carros ou moças x pilotos, as moças quase sempre ganham.
Não fiz nenhuma entrevista memorável com ele, não privei de sua amizade, nunca sentamos à mesma mesa num restaurante. Aproveito para corrigir a bela biografia recém-lançada, em que sou citado por dividir uma macarronada com ele no motorhome da Williams três dias antes de sua morte, para informar que naquela quinta-feira já havia almoçado e não comi macarrão nenhum. Mas estava à mesa, sim, e ele comeu o macarrão, e desse, digamos, almoço, o que mais me marcou foi o fato de ele usar calças brancas e de eu ter ficado agoniado a cada garfada, porque se caísse aquele molho de tomate, ia ser difícil disfarçar.
Aliás, a citação dá bem a medida da relevância de meu relacionamento com Senna em seis anos e pouco de convivência já como jornalista, uma macarronada que não comi.
Nada do que escrevi nesses anos todos, e foi bastante coisa, o levou a vir falar comigo. Conversávamos o essencial, quase sempre em entrevistas junto com outros colegas.
Depois vim a saber que sim, ele sabia o que eu escrevia, mas não era privilégio nenhum, sabia o que escreviam todos os que cobriam F-1 na época.
E o fato de nunca ter me cobrado nada, algo que fazia, por terceiros ou pessoalmente, sempre me deu a impressão de que havia um certo respeito, porque nunca o tive na conta de um ídolo inatacável, e por isso, de vez em quando, lançava certas críticas e opiniões que iam contra a corrente em vigor. Não me lembro de alguém ter defendido Nakajima tão apaixonadamente quanto eu, no GP do Brasil de 1990. Ou de alguém mais irônico do que eu quando Ayrton se ofereceu para correr de graça na Williams. "Ele se escalou para o cockpit sem perguntar ao time e à Renault se o querem lá", escrevi, do alto de meus 28 anos de insolência.
Pela presença nos GPs, digamos que Senna me reconhecia, mais do que me conhecia. E por isso os episódios supostamente formidáveis de minha convivência com ele são tão raros quanto decepcionantes para quem sempre me pergunta como ele era, como não era.
Lembro de dois, ambos em 1993. No Canadá, levei minha mulher à corrida. Nunca pedi um autógrafo, nem tirei foto ao lado de piloto algum, mas naquele dia a gente se cruzou no paddock e eu pedi para fazer um retrato ao lado dela. Ayrton parou, fiz as apresentações (ridículo: "Ayrton, Thais; Thais, Ayrton") e ele brincou com ela, "então é você que aguenta esse baixinho?", abraçou-a, tirou a foto e seguiu seu caminho, sorridente como raras vezes o vi. Já tinha acertado com a Williams.
Em setembro daquele ano, fiz a última exclusiva da temporada, era uma por ano para cada grande jornal, e no sorteio caí em último, pela "Folha". Foi uma entrevista muito ruim, porque nunca sei direito o que perguntar, e ele não podia falar da Williams ainda, o que gerou um protesto de minha parte.
"Você sabe que não posso falar disso, se vira aí", ele disse, e eu me virei mal e porcamente, mas no final soltou uma história sobre um plano secreto, eu perguntei se era a Ferrari, ele riu, levantou, me empurrou para fora do motorhome, "sai fora, baixinho, já falei demais", e fui eu cuidar da minha vida, ele da dele.
Quis o destino que eu estivesse presente no primeiro e no último GP de Senna, como torcedor num, como jornalista no outro. E entre um e outro se passaram dez anos, e agora mais dez, e a última imagem que tenho é de um corpo coberto por um lençol branco numa maca passando para o elevador, colocando um ponto final numa história bela e intensa de um jovem esportista que era, claro, um pouco mais do que isso, só que essa parte deixo para os mais talentosos descreverem e interpretarem o que foi, afinal, aquele jovem.
Segunda-feira passada, em Bolonha, dez anos depois, também eu coloquei um ponto final nessa história, no que toca a mim, ao falar com a mulher que não cheguei a ver no Maggiore, mas que tinha certeza que, um dia, veria, e com quem conversaria. Não me perguntem por quê, mas foi importante ouvir sua voz.
Senna continuará a ser lembrado, e é assim que deve ser. Guardo boas lembranças daqueles anos em que nos encontrávamos em autódromos, de vê-lo guiar, de escrever sobre suas vitórias e também sobre seus dramas. Convivemos por seis anos sem sobressaltos. Ayrton foi o único piloto que nunca me chamou de Flavinho, tendência natural de se tratar um fedelho baixinho com cara de moleque em meio a tantos veteranos de coberturas jornalísticas daqueles tempos.
Ele me chamava de Flavio, o que para mim era o máximo.
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