Devo admitir que a crise que tomou conta do mundo foge à minha compreensão. Desconfio que sou muito mais burro do que imaginava por não conseguir entender como as peripécias sexuais do presidente dos Estados Unidos podem afetar minha vida pessoal, já que por causa delas as Bolsas de todo o planeta despencaram e por isso o Brasil aumentou suas taxas de juros, o que talvez represente um aumento na prestação do meu apartamento.
Não entra também na minha cabeça a conclusão que na boca dos economistas parece tão óbvia, de que a desvalorização do rublo ameaça quebrar o sistema financeiro mundial, eu que nunca vi um rublo na minha vida, jamais estive em Moscou, nem gosto de vodca.
OK, sou um ignorante, aceito resignado tal condição, mas perdoem-me. Posso não entender nada de globalização, sou um cretino porque não invisto na Bolsa, uma ameba incapaz de aceitar as imposições dessa abstração que o mundo resolveu chamar de mercado. Só sei que ele, o mercado, transformou-se na grande vítima universal. É ele, o mercado, que os governos devem defender a todo custo. É nele, no mercado, que os governos despejam bilhões de dólares. Para salvá-lo. Salvemos o mercado! Esqueçam as baleias, as florestas, os pinguins, os pandas, os micos-leões. O mercado está em apuros! E as pessoas? Os miseráveis, os que não têm teto, comida, emprego, escola, hospitais? Danem-se. O importante é o mercado.
E é para salvar o mercado que o governo está usando o dinheiro dos meus impostos, porque até onde permite entender minha limitadíssima capacidade de raciocínio, é o meu dinheiro que o governo está usando para comprar ações e impedir que algumas empresas quebrem porque suas cotações despencaram, e é o meu dinheiro que será usado para pagar os juros altíssimos que vão atrair dólares para o país.
O mundo está desabando, essa é a impressão que tenho quando ligo a TV e vejo operadores da Bolsa com as camisas amarrotadas e as gravatas na altura do joelho, desesperados porque suas ações evaporaram, porque os magnatas que lucraram bilhões nos últimos anos estão perdendo esses mesmos bilhões. Não ligo a mínima, nunca usei meu dinheiro para fazer apostas, e intuo que o tal mercado é um nome bonito que criaram para não ter de usar cassino, que pega mal.
Mas parece que a jogatina está chegando ao fim, afinal, corretores financeiros vão-se atirar pela janela em Wall Street e outros em Hong Kong darão um tiro na cabeça, e eu continuo não dando a mínima. No que me diz respeito, mercado é onde eu compro alface e Ovomaltine, quando muito é esse mundinho aqui fora, o mercado de pilotos e equipes da F-1, que também não tem a menor importância.