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E nada vi
Flavio Gomes 23/04/2004 - 16:53
| Flavio Gomes |
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| Os fundos da Tamburello: um muro besta |
Fui à Tamburello e nada vi. A última vez, quando foi? Acho que no dia em que inauguraram aquela estátua horrorosa, sete anos atrás, o escultor sorumbático explicando aquela porcaria deprimente que na base tem, entre outras coisas um piloto de costas em alto relevo, sem rosto, pois, penetrando um bloco de granito ou coisa que o valha. No quinto aniversário, também fui. No primeiro, idem. Mas desta vez voltei pelo barranco, pelo lado de fora. Refiz um trajeto, foi o único, e pobre, significado.
Porque nada vi. No primeiro ano, flores, faixas, inscrições, fotos. Já amareladas, murchas, envelhecidas. Há limites de sobrevivência até para um santuário, ainda mais a céu aberto. Se ninguém cuida, as flores murcham, as fotos desbotam, a chuva e o sol e o frio e o vento se encarregam de esfarelar tudo, restam as cinzas das horas.
E, depois, não se trata de um santuário, definido como local de adoração de imagens e pessoas, reais ou não. Um muro não deve ser adorado, muito menos o lado de trás dele, obscuro, no meio do mato.
E adorar o muro onde um cara morreu é algo lúgubre e de mau-gosto, daí que foi com certo alívio que notei que não há mais romarias ao muro, e se houve um dia, não devem ter sido romarias no sentido mais preciso do termo. Vá lá, um local visitado por muita gente com o passar dos anos, mas de forma individual e não sistemática, não tenho conhecimento da existência de pacotes turísticos que incluam os fundos do muro da Tamburello, nem de ônibus de excursão estacionados do lado de lá do rio Santermo esperando pela volta dos romeiros contritos e comovidos.
O que não quer dizer, longe disso, que ele foi esquecido ou abandonado por seus fãs e admiradores, que existem em todos os cantos do mundo e lidam com a perda cada qual à sua maneira, como deve ser. É mais do que compreensível o culto a um atleta de seu nível, apesar da certa confusão que percebo no uso de adjetivos e substantivos que o acompanham à farta — como heroísmo, mito, perfeição, coragem, ética, patriotismo, devoção, determinação, profissionalismo, redenção, nosso isso, nosso aquilo.
Senna era um bom piloto que tinha um pouco de tudo isso e um pouco de tudo o contrário, também. Não era um deus, estava longe de ser inatacável como qualquer ser humano que passa pela vida e ao longo dela faz coisas boas e ruins, é capaz de atitudes das quais se orgulha e de outras das quais se envergonha.
O fato de ter morrido em atividade e de um jeito estúpido, dramático e violento fez dele uma espécie de mártir, qualificação que aqueles que o conheceram como eu, e aqui permitam-me certa presunção, não fazia seu tipo. Ayrton era, sim, um sujeito meio triste e acabrunhado porque tinha uma vida difícil, como é a dos pilotos de F-1, e cada um reage de um jeito às dificuldades que encontra pelos dias afora. Mas era também moleque e jovial quando o ambiente permitia, e quem de nós não é assim? Morreu aos 34 anos, um garoto, a brevidade de sua vida não permite sequer que se lhe trace um perfil decente, não, ao menos, àqueles que não desfrutaram de sua intimidade.
E foi por nada ver naquele muro besta da Tamburello que, também, nada senti ao voltar lá sei lá quantos anos depois. Refiz a trajetória que me lembro muito bem de ter percorrido em tempos remotos, atrás de não sei exatamente o quê, possivelmente inspiração ou informação para escrever alguma coisa, e foi precisamente isso que fui buscar dez anos depois, inspiração ou informação, e voltei de lá sem nem uma, nem outra.
E sem sentir nada, porque se tenho de sentir algo quando penso em Senna, não será um muro a me ajudar.
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