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Cinco anos
Flavio Gomes 30/04/1999 - 00:00
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| Senna: cinco anos depois, só o silêncio |
Cinco anos atrás éramos todos crianças, nós que acompanhávamos a F-1 de perto. Aquele domingo mudou nossas vidas, para o bem ou para o mal. Em questão de segundos, o deslumbre de se trabalhar num mundo sofisticado e vencedor se transformou numa tragédia obscura e nebulosa. Muitos de nós, e falo dos jornalistas que lá estavam, jamais tinham visto alguém morrer daquele jeito. Nossas vidas desabaram. Viramos gente grande.
Mas o que são nossas vidas diante de uma tragédia tão grande, espetacular, memorável? A dor de cada um, certamente, não pode ser comparada à daqueles que conviviam com Senna, seus pais, irmãos, parentes, amigos, namorada. Era um sentimento egoísta, e por isso tentei manter intacta o que restava de minha serenidade naqueles dias. Evidente que não consegui.
Fui despencar em lágrimas sozinho num quarto de hotel três dias depois em Madri quando vi na TV cenas de um jogo no Morumbi, um jogo naquele mesmo domingo, entre São Paulo e Palmeiras. Estádio lotado, gente chorando e cantando o nome de Senna. E eu ajoelhado diante da TV, fraco e impotente.
O cara era uma espécie de herói e, li isso um dia, heróis desaparecem assim, de forma épica e repentina. Hoje, cinco anos depois, percebo que nada mais adequado a Senna do que uma tragédia de dimensão planetária.
Não gosto de vir a Imola, exceto pelo meu amigo Paolo, o dono da pensão onde me hospedo desde 91 - em 94, curioso, foi a única vez em que não fiquei lá. Todo o resto me perturba, o aeroporto de Bolonha, a entrada do autódromo, o azul do céu na primavera européia, o silêncio das noites de Riolo Terme, a cidade da pensão, o diabo do carro que alugo, que é sempre um Fiat Punto, igual ao de 94, o gosto do ravioli, a menina que controla o estacionamento, sempre a mesma, que quase derreteu de tanto chorar naquele dia.
Evito passar pelo Maggiore, não quero ver aquele helicóptero laranja, nem o prédio do IML, uma morgue escura e gelada, não vou à Tamburello há dois anos, fizeram uma estátua que mais parece um túmulo. Tudo por aqui lembra maio de 94 e meus medos, de uma insignificância abominável diante do que aconteceu.
Mas venho todos os anos. Agora são cinco, e é provável que só volte a tocar no assunto daqui a mais cinco. Estaremos num novo século, o tempo ajuda a apagar certas coisas.
Rubinho disse ontem que a imagem que guarda de Senna é dele sorrindo, o que nunca consegui fazer, ele sorria pouco. Quando vejo velhas cenas na TV e reencontro meus fantasmas em Imola, uma vez por ano, o máximo que consigo é ficar em silêncio.
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