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A sombra
Flavio Gomes 25/04/1997 - 00:00
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| A estátua de Imola: imagem triste |
Não me agrada, cada vez que venho a Imola, ficar repisando o episódio Senna, o acidente de três anos atrás, o momento mais marcante e trágico da Fórmula 1 moderna. Mas é quase impossível. Quando a gente acha que o assunto está esquecido, ou pelo menos convenientemente guardado naquele canto escuro da memória, aquele porão onde é bom só entrar quando for realmente necessário, aparece algo, ou alguém, para lembrar.
No caso, neste fim-de-semana, o alguém foi um escultor e o algo, sua estátua de bronze triste e deprimente, colocada na parte interna da curva Tamburello, cujo alambrado continua cheio de flores e mensagens de torcedores de tudo quanto é lugar, do Brasil à Austrália, da África do Sul ao Canadá.
Pela quarta vez desde o dia 2 de maio de 94, fui a pé à Tamburello. Não sei se já contei, mas o autódromo de Imola fica dentro de um parque, cheio de trilhas úmidas pelo meio das árvores, alguns quiosques, essas coisas. Da sala de imprensa, sobre os boxes, à curva, são uns 500 metros. É pouco, mas a caminhada, cheia de obstáculos, não leva menos de 20 minutos, suja os sapatos e as calças.
Conheço os caminhos. Estive lá na segunda-feira depois do acidente. O muro fora transformado num santuário funéreo. No ano seguinte teve uma missa campal. Em 96, outra - já contei esse caso, quase fui preso porque cheguei pelo lado errado, num barranco que dá no rio Santermo, tentei pular a cerca para atravessar a pista, foi um horror. Ontem, de novo, lá estava eu na Tamburello, para lembrar que Senna morreu um dia.
Claro que para quem estava aqui naquele domingo as coisas foram particularmente dolorosas. Morte é sempre um negócio triste, mais ainda quando se conhece o sujeito, e mais ainda quando o sujeito é tão conhecido que um país inteiro pára para chorar. Eu não participei da comoção no Brasil. Só voltei quatro dias depois, lembro tudo, cheguei na quinta-feira à noite, não vi enterro nem velório, fui demitido do meu jornal no dia seguinte (um dia eu conto isso também).
De tudo aquilo, carrego uma certeza. A morte de Senna foi épica, como ele gostaria, aliás. Senna era um personagem épico, uma espécie de herói, e é assim que os heróis gostam de morrer, no meio da batalha, como mártires. Portanto, esquecê-lo não é uma boa solução, como a F-1 oficial faz questão de demonstrar. Ano que vem estarei aqui de novo, acho. Provavelmente outra estátua vai surgir, ou uma curva vai receber seu nome, e estarei falando de Senna mais uma vez.
São os ossos do ofício, creio.
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