A F-1, esta zona
Flavio Gomes
28/03/2003 - 22:18

Reprodução
A F-1, afinal, é um bordel?
A F-1, afinal, é um bordel?
Não posso deixar de registrar, e é uma pena que quando vi não estava de posse de minha máquina fotográfica. Bem, ninguém normal anda de máquina fotográfica por aí, não me culpem.

Mas retornava eu para casa de táxi na última quarta-feira, depois de uma breve volta ao mundo, quando, na aprazível marginal do aprazível rio Tietê, notei um curioso outdoor.

"Isto que é Grande Prêmio", dizia o texto em branco sobre fundo preto. Grande Prêmio tem a ver com o que faço, e como o trânsito estava parado ("trânsito parado" é uma das grandes bobagens que a gente diz, trânsito é ato ou efeito de caminhar, movimento de veículos e pedestres, segundo o dicionário, portanto trânsito não pára, quem pára é o carro) deu tempo de observar em detalhes o dito cujo.

Detive-me primeiro no texto, tentando descobrir qual, afinal, era o verdadeiro Grande Prêmio. Uma loteria? Um sorteio? Uma rifa? Não, nada disso. Mais à esquerda havia uma foto, sobre o mesmo fundo preto. Apareciam as pernas de um piloto de corridas, notei, porque estava de macacão vermelho e sapatilhas. Apenas as pernas, o corte da foto um pouco abaixo dos joelhos.

E, de frente para as pernas eretas do piloto, lá estavam pernas femininas, bem torneadas e bronzeadas, bonitas, sim, de sandálias vestindo um pé monumental. As pernas flexionadas, uma moça agachada diante do piloto, também ela oculta pelo corte da foto. Agachada de modo que, imagino, seu rosto, caso a foto fosse revelada em sua inteireza, pudesse estar à altura do...

Bem, acho que não é o caso de ficar fazendo ginástica verbal para descrever o que uma palavrinha simples definiria com clareza, e nem mesmo a palavrinha reproduzirei aqui porque todo mundo já entendeu o que o outdoor sugere. O cartaz promove uma conhecida casa paulistana que em tempos remotos seria chamada de bordel, ou zona, mas hoje em dia tem um revestimento mais chique, é clube noturno, ou coisa que o valha.

Não tenho nada contra bordéis, vade retro qualquer traço de conservadorismo ou moralismo nestas tortuosas linhas, que se diga logo. Essas casas são divertidas, todo mundo tem uma história para contar sobre noitadas com meninas fantásticas e cada um gasta seu dinheiro do jeito que bem entender, é um trabalho como qualquer outro, a profissão mais antiga etc.

Mas que o outdoor é de um mau-gosto extraordinário, isso é. Não por relacionar a F-1 com a esbórnia. Até aí morreu Neves, a F-1 tem lá dessas coisas, e, se você quer saber, os caras adoram vir para o Brasil porque nenhum país do mundo tem mulheres tão bonitas quanto o Brasil. Os mecânicos se divertem muito por aqui. Alguns pilotos também. Sei de casos que arrepiariam os cabelos dos fãs mais abnegados.

O problema é expor esse tipo de coisa, uma variação sexual das mais conhecidas, a céu aberto. A mensagem do cartaz é clara e direta, qualquer pré-adolescente vai saber do que se trata na primeira olhada, mas fico imaginando um pai tentando explicar a um garotinho de sete ou oito anos que já aprendeu a ler o quê, afinal, aquela moça agachada está fazendo na frente daquele piloto.

No meu caso pessoal esse não será um problema, já que os dois ainda não sabem ler e não ligam muito para cartazes, preferem olhar aviões no céu ou ônibus soltando fumaça, o mais novo adora procurar Fuscas na rua. Em compensação, quando passar por um desses de novo, terei de dar explicações à minha mulher, que sempre achou a F-1 uma zona. E diante de um outdoor desses, não terei como negar.




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