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“Nós não temos nada de coitadinhos”, diz medalhista paraolímpico

Giancarlo Giampietro, repórter iG em São Paulo


Clodoaldo Silva não pára:

Novembro
Dia 19 - Teleton
20 – Gravação do “Fantástico”
20 – Palestra Sab Company
24 – Reunião com Governo e Homenagem da Câmara Legislativa em Natal
25 a 28 – Evento Aposta Cidadã em Vitória

Dezembro
01 – Evento do Sebrae em Vitória – Palestra
03 – Evento da Apae - Palestra e gravação do programa “Altas Horas”
04- Participação no Carnatal em Natal
07 – Ida para o Rio de Janeiro – Prêmio Brasil Olímpico
09 – Palestra no Citybank em São Paulo
11 – Evento Paratodos em Santos/SP - Palestra
13 – Personalidade Esportiva em Fortaleza
15 - Coletiva de Imprensa em Natal
16 - Gravação de programa no Rio de Janeiro

Acima, só um pedacinho da agenda do nadador paraolímpico potiguar, de 25 anos, que mal consegue parar em algum canto desde que voltou de Atenas. Com seis medalhas de ouro e uma de prata na bagagem.

No meio dessa correria, o Último Segundo conseguiu contato com o atleta, em sua casa em Natal, cidade onde nasceu no dia 1º de fevereiro de 1979.

Clodoaldo conta que está sendo mais aplaudido do que muito atleta olímpico premiado. É um evento atrás do outro, uma palestra atrás da outra. “Isso me alegra muito, porque é o reconhecimento à pessoa com deficiência que conseguiu seu espaço através do esporte”, diz o nadador. “Passaram a ver que nós não temos nada de coitadinhos.”

Portador de paralisia cerebral, ele foi dar os primeiros passos apenas aos sete anos. O esporte foi sugerido apenas para que sua movimentação fosse facilitada. Mas futebol e vôlei não eram tanto a praia dele. E foi na piscina que se encontrou. Após a glória na Paraolimpíada, Clodoaldo pretende que ele e outros deficientes se encontrem pelas ruas do Brasil afora, “como qualquer outra pessoa”.

É claro que muito pode ficar apenas em bajulação. Que pouca coisa pode mudar, passada a euforia com Atenas. “Recebi várias homenagens, muitas delas em Assembléias ou na Câmara aqui em Natal. Muitos parlamentares falaram em criar Leis em nosso favor. Mas até agora nada foi posto em prática”, diz o atleta.

Além disso, a imagem dos paraolímpicos pode ter mudado após Atenas, mas a dificuldade para sustentar a carreira não é muito diferente daquela no período anterior. Por enquanto, as palestras de Clodoaldo ainda cobrem o caixa (ganha em torno de R$ 5 mil por evento, dependendo do cliente). Mas ele ainda busca um patrocinador para longo prazo, a fim de poder aperfeiçoar seu treinamento, alargar o intercâmbio e dar braçadas ainda mais tranqüilas na piscina.

Confira esse assunto e mais na entrevista abaixo com o medalhista, que refuta os paralelos com o fenômeno Michael Phelps (nadador olímpico que conquistou seis ouros e um bronze na Grécia), pretende se formar em Psicologia e se considera “tagarela”:

Quer dizer que você não parou desde que voltou de Atenas?

Pois é, tanto que acabei de chegar aqui em casa agora, porque estava em Fortaleza. Saí de Natal na segunda-feira retrasada, para eventos, homenagens, palestras, que estou fazendo muitas. Desde o dia 1º de outubro, não parei mais, estou rodando todo o Brasil

E a receptividade pelo País?

Quando estava em Atenas, recebi informações de que no País só se falava de Clodoaldo e dos atletas paraolímpicos. E não sabia que a repercussão era tão grande, a emoção e a alegria das pessoas. Fomos recebidos no aeroporto em São Paulo como heróis e ídolos. A ficha foi cair ali sobre o que estava acontecendo com o atleta paraolímpico. A sociedade está nos dando o devido espaço e nos tratando como qualquer outra pessoa normal, sem nenhum tipo de deficiência, nenhum tipo de preconceito. Isso me alegra muito, porque é o reconhecimento à pessoa com deficiência que conseguiu seu espaço através do esporte

E por méritos próprios...

Sim, por méritos próprios, que conseguiu tudo isso através do esporte, que além de aumentar sua auto-estima, elevar a qualidade de vida, fazer uma vida saudável, é uma ferramenta com esse poder tão grande, que faz ídolos e exemplos de vida. E me sinto muito feliz porque pela primeira vez está acontecendo com um atleta com deficiências e graças a Deus essa pessoa sou eu

Você acha que Atenas então é um marco para o esporte brasileiro?

Com certeza, porque sempre trouxemos bons resultados para o Brasil em Paraolimpíadas passadas e em outros campeonatos, sempre trazendo recordes e medalhas. Mas, nos anos anteriores, todo mundo sabia que nós íamos. Mas essa Paraolimpíada foi especial porque, além de saber que estávamos lá, as pessoas nos viram, o que é uma coisa totalmente diferente. E quando eles passaram a ver que nós não temos nada de coitadinhos, eles viram que somos pessoas normais, como qualquer outra, só que com algumas necessidades a mais do que as outras vidas. Isso se deve à divulgação que tivemos, que permitiu que os atletas sejam conhecidos como qualquer outra pessoa normal, que saem de casa com seus objetivos. Costumo dizer nas minhas palestras que a Paraolimpíada de Sydney foi a novidade e em Atenas se consolidou, mostrando que é como uma Olimpíada, com grandes atletas de todos os países, com a mesma determinação, só que com mais dificuldades. Mas dificuldades existem para todos. O importante é saber passar por cima e superar

As palestras que você tem dado giram em torno de que tema?

Da superação, motivação, de que tudo é possível, algo como: se eu consegui, por que vocês também não podem? São 40, 45 minutos de palestra, se bem que costumo ultrapassar um pouco porque adoro falar, sou meio tagarela. Também faço um resumo das Paraolimpíadas, de quando começou até a última. Relato minha vida, conto minha história, e tenho também slides em PowerPoint

São em faculdades, empresas, em que tipo de local?

Na maioria das vezes, visito empresas, algumas de renome internacional ou até mesmo multinacionais. E estou conseguindo passar minha mensagem. A palestra também tem o lado extrovertido. Porque além da determinação, o paraolímpico também tem muita alegria enorme de viver. E é isso que passo nas palestras

Como fazer para conciliar os treinos com essa agenda apertada? Diminuiu o ritmo nesse fim de ano?

É, dei uma desacelerada nesse ano. Mas não parei de treinar. O pensamento principal é continuar treinando, saber o que fazer dentro d’água. Porque tenho certeza de que os resultados fora da piscina estão relacionados ao que faço dentro dela. Mas também quero retomar alguns projetos, como o cursinho de psicologia que estava fazendo no início do ano, mas que tive de largar para treinar em dois períodos para Atenas, que pedia sacrifício

Esse curso de psicologia já é de Ensino Superior?

Não, é um curso preparatório que tive de largar por causa dos treinos. Mas pretendo retomá-lo no início do ano. Porque acho que esporte é momento, e educação é para sempre. Não que eu vá deixar de treinar, mas vou dar prioridade para meus estudos, para tentar me formar

E vai ter fôlego para tudo isso, com palestra, treino e curso?

Olha, a palestra não é minha prioridade e vem em conseqüência do que você faz dentro d’água. Não adianta eu sair mal nas competições, porque aí não seria solicitado para palestras. Se os convites vierem, vou procurar cumpri-los de final de semana. Também vou tentar pedir para, se for durante a semana, que haja uma estrutura com piscina, para não prejudicar o treinamento

Quanto a patrocínios: como estão as coisas?

Preciso de um contrato em 2005 que possa me dar uma boa sustentabilidade, para que eu possa me dedicar apenas a treinar. A principal importância do patrocino é essa. Espero não ter dificuldade. Pelo resultado que consegui, hoje sou o maior medalhista de ouro do Brasil em Paraolimpíadas, com meu currículo posso conseguir um patrocínio em longo prazo. Estive em alguns eventos com atletas olímpicos e vi que não há motivo para haver diferenças. Às vezes o mais assediado, o mais aplaudido, até de pé, sou eu. De primeiro de setembro a 12 de outubro – fizemos um estudo –, em anúncios em que apareceram meu nome foram depois contabilizados em mais de R$ 2,5 milhões. E televisivos foram mais de R$ 13 milhões. Então, temos esses dados e podemos mostrar que pode ser considerado um produto, que pode dar resultado em curto, médio e longo prazos

Antes das palestras e da Olimpíada, o que o sustentava?

Desde 2001, com a Lei Agnelo-Piva, começamos a receber uma bolsa por medalha, que beneficiou os paraolímpicos. Mas essa bolsa acabou após Atenas. No dia 10 de dezembro, recebemos o último pagamento. Hoje, conto com o patrocínio de um hotel aqui de Natal, mas que também vence no fim do mês.

Você conseguiu mais exposição e ainda não tem nada definido. E para os outros atletas? Preocupa a situação deles?

Com certeza, porque pelo menos ainda consigo me sustentar com palestras. A única pessoa que também tem alguma oportunidade com palestras é a Ádria (dos Santos, velocista que é maior medalhista paraolímpica brasileira), mas não tanto quanto eu, e ela está passando por dificuldades. Agora, sem a bolsa, estão sem perspectiva nenhuma

O que é de se lamentar, não? Afinal, o momento era para ser mais favorável....

É verdade. A gente pensa: puxa, fomos lá, conseguimos muitos resultados e quando voltarmos as coisas vão melhorar. Mas infelizmente não estão melhorando. É preciso ter uma definição para que o atleta tenha tranqüilidade para treinar e fazer o esporte paraolímpico crescer, desempenhando seu papel. O momento foi histórico, pela divulgação, e todo esse sucesso eu devo a vocês da imprensa. O comitê também tem a idéia de criar um circuito paraolímpico, que ainda não aconteceu

O número de competições é alto?

Olha, nós temos necessidade de competir mais, tanto nacionalmente como fora do País. O comitê sabe dessa necessidade. O intercâmbio internacional é muito pouco. Os adversários que enfrentei na Paraolimpíada eu só encontrei, em quatro anos, apenas uma vez só antes de Atenas

Para o ano que vem, quais são os principais torneios?

Vou participar do campeonato da região Nordeste, do campeonato do Comitê Paraolímpico Brasileiro também. Internacionalmente, o mais importante é a Copa do Mundo de paralisados cerebrais, nos Estados Unidos. Para disputar mais eventos, que penso num patrocínio individual para mim, para poder aumentar o intercâmbio. Embora eu seja medalhista olímpico, me considero um competidor inexperiente.

Dos seis ouros Atenas, qual é a prova que você acha ter mais folga, a que você é melhor?

Acho que folga não tem, nenhuma prova foi fácil. Antes da Paraolimpíada, eu já era recordista mundial dos 50m e 100m livre. Sou um nadador velocista, minhas principais provas são essas. Mas não tem folga. Os atletas, hoje, querem mais do que nunca bater o Clodoaldo. Tenho certeza de que será muito difícil daqui pra frente. A referencia mundial hoje é Clodoaldo Silva. Mas estou muito tranqüilo

E as comparações com Michael Phelps, você encara como?

Não gosto, já deixei bem claro que acho que comparações não são legais. Você tem que ser seguido pelos méritos que tem, pelos seus resultados. Mas fico mais chateado porque nunca dão os méritos para quem conseguiu. É tão difícil um atleta aparecer, conseguir ouros e recordes mundiais numa Paraolimpíada, e quando aparece ele é comparado a um atleta estrangeiro. Se fosse um brasileiro, não faria muita questão. Não é querer fazer propaganda de governo, mas acredito que o melhor do Brasil é o brasileiro, então acho que temos de tentar dar valor a nós mesmos. Por isso que sempre digo: ‘Ah, é o Michael Phelps do Brasil? Não, é o Clodoaldo Silva do Brasil’.