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Pra frente, Brasil!

Leandro Colon, repórter iG em Brasília


BRASÍLIA – “Um povo que não tem o orgulho à flor da pele não vai para frente.” Autor da frase? O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante café da manhã com jornalistas no Palácio do Planalto, no último dia 23 de dezembro. Outra de Lula: “Estamos recuperando a nossa auto-estima, voltamos a ter orgulho de ser brasileiros. Começamos a enxergar que há um novo caminho a ser trilhado”, disse, ao abrir a reunião ministerial no dia 9 de dezembro.

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    Segundo o dicionário Aurélio, ufanismo é a “atitude, posição ou sentimento dos que, influenciados pelo potencial das riquezas brasileiras, pelas belezas naturais do país, dele se vangloriam, desmedidamente”. Já o termo nacionalismo, diz o dicionário, é, entre outras coisas, a “exaltação do sentimento nacional”.

    O discurso adotado pelo governo em 2004 aproxima-se cada vez mais das explicações dadas aos dois termos citados acima. Com os recentes números positivos da economia brasileira, Lula dificilmente perdeu a oportunidade de vender otimismo e sentimento nacional em seus discursos.

    A palavra “otimismo”, por exemplo, foi usada 53 vezes nos discursos do presidente desde que tomou posse, em janeiro de 2003. “Eu quero dizer ao povo brasileiro: eu não quero nem que você seja mais otimista do que eu. Se for igual a mim, já está ótimo. Porque eu, cada vez mais, me considero o mais otimista dos brasileiros”, afirmou em seu último balanço de governo, no dia 27 de dezembro.

    O otimismo nacional exacerbado nas palavras de Lula, aliás, ganha força também na sociedade civil que, em alguns setores, encampou a política de tentar valorizar a figura do brasileiro e oferecer otimismo para a população. O principal exemplo disso é a campanha “O melhor do Brasil é o brasileiro”, comandada desde meados de 2004 pela Associação Brasileira dos Anunciantes (ABA), com apoio da Secretaria de Comunicação e Gestão Estratégica do governo, dirigida pelo ministro Luiz Gushiken, homem forte do presidente Lula e idealizador da campanha.

    Ao todo, foram gastos R$ 50 milhões em mídia pela ABA. Entre as estrelas, o jogador Ronaldo Fenômeno e o cantor Herbert Vianna. “Sou brasileiro e não desisto nunca”, diz a campanha. Assemelhando-se muito com os discursos de Lula durante o ano. “Nós temos que mostrar que nós acreditamos em nós”, chegou a afirmar o presidente. “Vocês vão sentir o orgulho que se tem pelo Brasil”, disse recentemente a prefeitos eleitos do PT.

    É bom lembrar, no entanto, que essas posturas nacionalista e ufanista, sejam quais forem, mas que busquem reforçar o patriotismo, não são privilégios do governo Lula. O ex-presidente Getúlio Vargas, talvez, tenha sido o precursor na atuação do Estado republicano pela valorização do sentimento nacional. A postura foi seguida, por exemplo, por Juscelino Kubishek e atingiu seu auge nos anos 70, com o discurso do “Ame ou deixe-o”, do regime militar.

    Os números, sejam resultados ou não da política governista, mostram que o brasileiro está otimista para 2005. Pesquisa divulgada recentemente pelo Datafolha revela, por exemplo, que 79% dos entrevistados acreditam na melhoria de vida no ano que vem. E 71% apostam que o País também vai melhorar.

    Mais crédito

    Mas o que o governo espera com isso? Na opinião do cientista político Gustavo Venturi, diretor da Criterium Assessoria em Pesquisa, é natural que um Estado busque fortalecer o nacionalismo. “Do ponto de vista de governo, é sempre preciso dar um reforço do nacionalismo”, diz. “Resta discutir a forma e a intensidade”, ressalta.

    Para ele, o fato de Lula ter adotado tal discurso tem, essencialmente, duas explicações: é uma forma de ganhar mais crédito e tempo com a população para melhorar o País e reflete a política externa do governo. “É o conjunto de ideologia de valorização do País que é coerente com a política externa arrojada que o Lula adotou”, explica.

    Já para a cientista política Lucia Hippolito, a exacerbação do brasileiro dentro do governo reflete a personalidade do presidente. “O Lula encarna esse espírito de brasileiro comum. É o temperamento dele. Ele é um otimista e sempre foi”, afirma. “Esse otimismo, no entanto, às vezes, o leva ao exagero. Às vezes tropeça no excesso de otimismo e fala bobagem”, ressalta. Ela, porém, considera campanhas como essa da ABA “inútil” e “ineficaz”. “Não pega muito. Não se sabe bem quem se quer atingir. A classe média torce o nariz e o rico não liga”, diz.

    O coordenador da campanha e assessor especial da vice-presidência da ABA, Mauricio Machado, faz questão de deixar claro que a campanha “O Melhor do Brasil é o brasileiro” não é uma iniciativa do governo. “É pouco provável que as empresas que aderiram à campanha entrariam numa aventura populista”, afirma.

    Ele admite que o apoio do governo tem sido primordial para o andamento da campanha. “A gente perderia um poderoso aliado”, diz. Para ele, é natural que se confunda a campanha com o discurso do governo Lula. “Isso é um risco calculado, porque empresas estatais, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, são sócias da ABA”, tenta explicar. “É um exemplo de Parceria Público-Privada (PPP) de comunicação bem-sucedida”, ressalta.

    Machado, aliás, discorda que esse tipo de reforço do sentimento brasileiro seja algo ufanista. “Não tem nada de ufanismo. A campanha tenta estimular a valorização do Brasil e suas potencialidades. Acho mais interessante chamar de nacionalismo, porque trabalha com valores dos brasileiros”, diz.

    "Pseudovalorização"

    Com uma posição um pouco mais incisiva, o sociólogo Lúcio Castelo Branco, professor da Universidade de Brasília (UnB), ataca a postura de exaltação do brasileiro adotada pelo governo. “É uma campanha que escamoteia o desempenho, a miséria, a ausência de soberania nacional. É a destruição do sistema do Estado. É um discurso circense, que tende a cegar”, afirma.

    Para ele, é a “pseudovalorização” do brasileiro. “O efeito disso é apenas cosmético. Isso acontece na medida em que o governo não emplaca política social, e trabalha para pagar juros de uma dívida externa inexistente. É só confrontar o discurso com a realidade”, diz o sociólogo.

    O sociólogo critica ainda a aliança de empresas à posição do governo de valorizar o sentimento nacional. “É o efeito placebo. Remédio sem propriedade. É um simulacro”, ataca.

    A cientista política Lucia Hippolito compartilha de opinião semelhante. “As empresas querem agradar o governo. O governo é muito poderoso”, diz. E alfineta: “esse governo confunde comunicação com propaganda”.

    Em entrevistas recentes, o ministro Luiz Gushiken tentou explicar a ligação do governo com as empresas para auxiliar no discurso de valorização do brasileiro. “Precisávamos passar a idéia de crescimento sem usar a imagem do governo. E nada melhor que as empresas para fazer isso”, diz. A reportagem tentou entrevistar Gushiken, mas ele estava em férias e não pôde comentar o assunto.