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Brasil desponta como líder regional em ciência, mas impacto mundial continua baixo

Athos Henrique Sampaio, repórter iG em São Paulo


O ano de 2004 reservou ao Brasil uma boa notícia na ciência: um ranking feito pela National Science Foundation, entidade dos EUA reconhecida mundialmente, colocou o País no topo da pesquisa na América Latina.

O levantamento tomou por base o número de trabalhos científicos indexados - as pesquisas que aparecem em publicações de prestígio internacional. Em 1988, o Brasil publicou 1.766 artigos nestes periódicos. Em 2001, o número foi a 7.205. No contexto da América Latina, o País, que em 88 tinha 31,5% da produção na região, passou a registrar um índice de 44,1%, figurando como o maior produtor individual.

O crescimento de toda a América Latina, de quase 200%, foi destacado no estudo - um índice bem superior ao de outras regiões economicamente equivalentes, como o leste europeu, a ex-União Soviética ou as nações sub-saarianas. Responsável por 8% das publicações dos países emergentes ou em desenvolvimento em 1988, a América Latina chegou a 17% no último levantamento.

Repercutindo na comunidade científica, os dados do ranking foram bastante comentados nas palestras do simpósio Produção Científica no Brasil, que em dezembro reuniu professores de diversas áreas para discutir o panorama atual e o futuro da pesquisa no País na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Na abertura do evento, o presidente da Academia Brasileira de Ciência, professor Eduardo Moacyr Krieger, lembrou que, apesar dos resultados alcançados, o Brasil ainda responde por cerca de 2% da produção mundial de trabalhos indexados. "Não chegamos lá", disse o professor, apontando que o País, que conta essencialmente com recursos públicos para o desenvolvimento da ciência, está em uma posição intermediária no cenário internacional. "Estamos entre os países com um desenvolvimento científico razoável, com nichos de tecnologia. Não somos desenvolvidos, mas não somos considerados 'em desenvolvimento'", disse, citando uma nova classificação do Banco Mundial que coloca o Brasil na categoria de "país proficiente", junto com China e Índia.

Krieger ressaltou a importância do aproveitamento de pesquisadores na indústria. "Formamos doutores, mas eles não vão para o setor produtivo. Precisamos melhorar este quadro para melhorar o desenvolvimento nacional", disse o professor, para quem o aprofundamento do País num "ciclo virtuoso", formado por ciência e desenvolvimento, é essencial para a pesquisa brasileira.

É nas ciências agrárias que a interface pesquisa/setor produtivo tem maior destaque no País. Participante do simpósio da Unicamp, o professor Raul Machado Neto, da Esalq-USP, deu ênfase a este aspecto em sua palestra. Neto citou a importância do agronegócio, responsável por 30% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, e o papel do trabalho científico para o desempenho do País na produção de culturas como soja, laranja, açúcar e café.

Café descafeinado natural

Foi justamente o café que rendeu ao Brasil, em 2004, a publicação de uma pesquisa naquela que é considerada a principal revista de ciência do mundo, a "Nature".

Buscando uma variedade da planta cuja semente tivesse baixa quantidade de cafeína, o trabalho dos pesquisadores Maria Bernadete Silvarolla e Luiz Carlos Fazuoli, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), chamou a atenção da comunidade científica mundial.

"Já existe o descafeinado industrial. Com a nossa pesquisa, a gente quer que o café já saia do campo sem cafeína", explica Bernadete, dizendo que para isso foi escolhido um caminho "natural". Desde 1999, foram analisadas três mil plantas do cafeeriro arábica Etiópia. "Nosso trabalho não foi por amostragem, mas um a um", ressalta a cientista.

A partir desta avaliação, os pesquisadores identificaram três plantas cujas sementes quase não tinham cafeína. O índice encontrado é de 0,07%, contra um valor em torno de 1% nas sementes do café comum. O resultado é próximo à quantidade existente no café descafeinado comercializado hoje, mas sem o uso de processos químicos. Com essa descoberta, será possível explorar um nicho de mercado para toda a cadeia produtiva, já que cerca de 10% do café mundial é destinado à descafeinação química.

"Quem mais se interessou, mesmo, foi o consumidor", admite Bernadete, tentando explicar o interesse da "Nature". "As pessoas realmente gostariam de ter um café assim. Tem muita gente que gosta do café, gostaria de tomar à noite, mas não toma porque fica acordado", diz a cientista. "É como o vinho. É um alimento, mas também tem um lado de satisfação", compara. Dentro da comunidade científica, o interesse ocorreu por outro motivo. "Os cientistas ficaram interessados porque foi a primeira vez que se descreveu um mutante dentro da espécie arábica com essa característica", explica ela.

Aproveitando o material encontrado, os cientistas vão explorar o melhoramento da planta. "Vamos analisar como ele foi encontrado na natureza, tentar descobrir a base genética da baixa cafeína", diz a cientista. "O estudo é promissor por se tratar do café arábica, que é o café servido hoje, então a gente acredita que vai ser mais fácil continuar", avalia Bernadete, que ressalta que este é só o começo do trabalho. "A previsão é um prazo entre 6 e 15 anos para que as sementes cheguem ao agricultor", diz.

O programa de melhoramento do café, que segue diversas linhas - como o aprimoramento de culturas visando à resistência a doenças, pragas, ou maior produtividade, por exemplo -, existe no IAC desde 1932. As plantas da variedade etíope que deram início a este estudo estão no instituto desde 1975. "Ter um banco de recursos genéticos é algo de valor inestimável", ressalta a pesquisadora.

Física produtiva e o desafio do ensino

Se o destaque das ciências agrárias é a relação próxima entre a pesquisa e o setor produtivo, a física e as ciências espaciais mostram-se relevantes no Brasil pelo número de trabalhos indexados. "O maior número de trabalhos publicados tem um pouco a ver com a organização da comunidade", afirma o professor Celso Pinto de Melo, do departamento de física da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), o professor Ricardo Galvão aponta o resultado desta organização. "A ciência brasileira vem se desenvolvendo em uma taxa admirável", diz ele. "Em particular, a física brasileira é altamente produtiva, tendo alcançado um nível de excelência internacionalmente reconhecido", afirma.

Mesmo estando em uma área de destaque no País, durante o encontro de pesquisadores Melo relativizou as boas notícias de 2004 para o Brasil. "É necessário termos a avaliação da qualidade da ciência brasileira", disse, citando dados que indicam que os artigos do País, em todas as áreas, ainda têm impacto abaixo da média mundial. "Estamos numa posição relativa pífia no mundo", afirmou Melo.

Na ocasião, Melo também alertou para o "desastre" que é o ensino científico brasileiro - o que se torna um problema ainda maior numa época em que legisladores são chamados a debater sobre temas como o genoma, por exemplo. Como retrato deste desafio, citou outro levantamento divulgado em 2004, no mês de dezembro: segundo avaliação da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que testou alunos em vários países do mundo, os estudantes brasileiros ocupam o último lugar em conhecimento de matemática e ciência. Um cenário que, para ser mudado, necessita de comprometimento do setor público.

Avaliando, após o encontro, a interação de sua área, a física, com o setor produtivo, Melo diz que a situação é delicada e precisa ser explorada. "Algumas correntes ainda têm resistência. É como se, não sendo ciência pura, fosse uma ciência menor", afirma o professor, que no entanto aponta falhas de ambos os lados. "Também falta tradição do empresariado brasileiro na busca de soluções na pesquisa", diz, citando como exemplos os tomógrafos nacionais, desenvolvidos em São Carlos, que são mais baratos e nunca foram apropriados pelo setor produtivo. "Este é um dos nossos desafios".

Falando de outros desafios vencidos em 2004, Galvão, do CBPF, aponta como alguns dos destaques do ano na pesquisa brasileira a descoberta do mecanismo físico-químico responsável pela chuva na Amazônia - publicada na prestigiosa "Science", revelando que as queimadas na floresta influenciam a pluviosidade; o desenvolvimento de um novo processo para fabricação de chips - uma tecnologia nacional que aumenta a memória dos computadores; e a descoberta de novos berçários de estrelas - pesquisa feita com cientistas brasileiros e franceses que encontrou estrelas jovens em pontos aparentemente vazios do espaço intergaláctico.

Avanço espacial

O estudo do espaço tem rendido outros bons resultados para o País. "Eu diria que uma coisa é você falar do programa espacial. Nisso, a gente não pode afirmar que estamos muito adiantados", diz o professor João Braga, coordenador geral de ciências espaciais e atmosféricas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Ele compara o desenvolvimento do Brasil na área ao da China e Índia, que começaram seus programas na mesma época. "Eles estão na frente. A China já colocou um homem em órbita", ressalta.

Quando o assunto é a ciência espacial, porém, Braga aponta maior relevância do País. "Temos pesquisadores extremamente competentes, que fazem parte de comitês editoriais das principais revistas, e publicamos em periódicos de prestígio internacional", afirma. "O Brasil tem dado sua contribuição mundial grande, em especial em trabalhos como o das bolhas ionosféricas", destaca ele.

A pesquisa citada por Braga faz parte do projeto do satélite Equars (Equatorial Atmosphere Research Satelite), que envolve, além do Brasil, EUA, Canadá e Japão. Em 2004, todos os principais investigadores do experimento estiveram no Inpe participando de uma revisão.

As bolhas são grandes áreas da ionosfera (região da atmosfera superior) onde se formam vazios. Estes vazios prejudicam as telecomunicações porque roubam, por exemplo, a energia da onda que sai dos satélites em direção à Terra. "Principalmente agora, que o tráfego aéreo é controlado pelo sistema de GPS, o estudo destas bolhas é muito importante", afirma Braga.

A região equatorial do planeta é especialmente rica neste fenômeno. "Este é um estudo de interesse mundial. O Equars, que deve ser lançado em 2007, vai fazer parte de uma constelação formando uma rede de seis satélites", afirma o cientista.

Ao todo, o satélite, que percorrerá uma órbita circular a 750 km de altitude e com 20º de inclinação em relação à linha do Equador, vai fazer oito estudos - sobre descargas elétricas, vapor d'água, variação de temperatura, partículas energéticas, ondas de gravidade, constituintes da atmosfera e explosões solares, além das bolhas. "O Brasil tem uma dimensão quase continental e vários desses fenômenos atmosféricos se manifestam de maneira bem pronunciada sobre o País", explica Braga.

Falta, ainda, o Brasil assumir dimensões continentais também dentro do cenário científico mundial como um todo. Alguns passos já estão sendo dados, mas o caminho é longo. O professor Krieger, da academia, repetiu no seminário da Unicamp uma frase que disse repetir sempre, relativa aos desafios restantes. "Todos nós entendemos a importância de ciência e tecnologia. O que nos falta é fé".