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Hollywood quer mais é se animar

Felipe Neves, repórter iG em São Paulo


O cinema mudou. Em 2004, isso ficou ainda mais evidente. Basta olhar a superpotência para perceber. Nos últimos anos, Hollywood teve grandes produções, sucessos avassaladores. Em geral, pelo menos um por ano. É o caso de "Titanic", "Senhor dos Anéis", "Homem Aranha", "Harry Potter", "X-Men", entre outros. Em outras palavras, filmes que roubam a cena, dominam as bilheterias.

No ano que passou, isso não ocorreu. Ao contrário, os dois lançamentos mais importantes, pelo menos em termos de público, têm uma peculiaridade curiosa: são animações computadorizadas. "O sucesso da Pixar reanimou tudo", afirma o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, que acha importante relativizar. Ele explica que não se trata de um fenômeno novo. "'A Bela e a Fera' foi indicado ao Oscar de melhor filme no seu ano (1991)", diz.

Mauro Trindade, editor-sênior da revista BRAVO!, aponta um divisor de águas para a entrada definitiva das animações no cinema: a era digital. "A animação sempre houve. Mas quando ela entrou na era digital, foi uma revolução enorme", explica. Isso porque a entrada do digital permitiu, em sua opinião, "uma convergência de mídias e de formatos".

Já que falamos em fenômeno, comecemos pelo "Shrek", da DreamWorks, que confirmou a expectativa para este ano. Se o primeiro filme da série (que promete ter, no mínimo, quatro episódios), lançado em 2001, já havia sido um grande sucesso, faturando US$ 267 milhões, a continuação arrebentou a boca do balão. Ao faturar a significativa quantia de US$ 436 milhões, o ogro apaixonado tornou-se protagonista da segunda maior produção da história, atrás apenas de "Titanic" (1997), que abocanhou nada menos que US$ 600 milhões. Os dados foram retirados do site IMDb.com e referem-se exclusivamente à bilheteria nos EUA.

Sucesso é uma coisa, qualidade é outra. Para Ewald Filho, os números de "Shrek" refletem, na verdade, uma gigante lacuna na indústria cinematográfica. "O 'Shrek' não é uma grande obra do cinema. É um filme divertido. O que acontece é que faz tempo que a gente não tem filmes divertidos", diz.

Por sua vez, o recém-lançado "Os Incríveis", penúltima produção da frutífera parceria Disney/Pixar, também chegou com tudo. Em apenas duas semanas, o filme levou aos cofres de titio Walt US$ 225 milhões. Só no fim de semana de estréia, faturou cerca de US$ 70 milhões, superando a entrada triunfal de "Procurando Nemo", de 2002, último grande sucesso lançado pelo estúdio.

Continuando nesta toada, a animação dirigida por Brad Bird tem tudo para superar o também bastante rentável "Homem Aranha 2", lançado em julho, que também faturou uma boa grana: US$ 373 milhões. Sem dúvida, a continuação da saga do Homem Aranha é o principal lançamento tradicional do ano em Hollywood, embora não tenha conseguido superar o sucesso da primeira parte, de 2002, que ultrapassou a marca dos US$ 400 milhões.

Para o coordenador do Núcleo de Cinema e Animação de Campinas, Wilson Lazaretti, o fenômeno das animações pode ser perigoso. "Isso limita porque as pessoas, eu digo o grande público, acaba achando que animação é só isso", lamenta. "O filme tem uma força, não é só diversão", afirma.

Na opinião de Trindade, a era digital é irreversível. "Hoje em dia, já é um recurso de que o grande cinema americano não abre mão", afirma. E complementa: "A tecnologia não anda para trás".

Para ele, a técnica chegou a um ponto em que "a gente não sabe mais o que chamar de animação, afinal 'Tróia' também é uma animação". Em outras palavras, ele quer dizer que os filmes considerados tradicionais já utilizam os recursos da animação para substituir (ou recriar, diriam os românticos) a realidade. Basta observar filmes como "Guerra das estrelas", "Matrix" e o próprio "Tróia". "São filmes que não têm a chancela de serem animações, mas de alguma forma são", diz.

Um detalhe. No começo do ano, o polêmico filme de Mel Gibson, "A Paixão de Cristo", também causou grande furor. E abocanhou outra grande fortuna: US$ 370 milhões. Mas tem uma diferença fundamental com relação aos filmes antes citados. Trata-se de uma produção independente.

Prêmios

Sejamos pragmáticos. Com todas essas cifras acima, parece que 2004 foi um ano excelente para Hollywood. O que é inegável. No entanto, há uma questão, no mínimo, intrigante. Dos filmes mencionados, nenhum é forte concorrente ao Oscar, premiação mais importante do cinema norte-americano.

A não ser que a Academia se renda a conceder a estatueta a um computador, não há grandes concorrentes. Imaginem a cena. Melhor ator: Shrek. Melhor atriz: Mulher Elástica (esposa do Sr. Incrível). Melhor diretor: Sir Macintosh? E assim por diante. Em outras palavras, 2004 foi ano em que os estúdios de Hollywood não produziram nenhum grande sucesso para o Oscar. De duas uma: ou porque não quiseram, ou porque não conseguiram.

As grandes produções com foco na Academia não vieram. Em seu lugar, emergiram desenhos animados, que há muito vinham sendo uma ótima fonte de renda, mas nunca a principal. Prenúncio de mudanças. Os números não mentem.

Investimento pesado

Além de "Shrek 2" e "Os Incríveis", ainda este ano saíram, com menos repercussão, "O Espanta Tubarões", também da DreamWorks, e "O Expresso Polar", da Warner. Este último, aliás, também recém-lançado, é uma decepção de público nos EUA, tendo faturado apenas US$ 96 milhões até agora.

Calma. Decepcionante em comparação ao investimento. A produção ultramoderna do conto natalino (ou seja, o filme é pontual, tem vida curta), que tem a participação do astro Tom Hanks e utiliza muitos recursos eletrônicos, teve um orçamento de US$ 150 milhões. E, pelo andar da carruagem, se conseguir cobrir isso, já está ótimo.

Com um alvo bem mais preciso, a DreamWorks também investiu US$ 150 milhões, mas para produzir seus dois filmes (US$ 75 milhões para cada). Só a renda de "Shrek 2" já valeria todo o investimento do estúdio. Mas "O Espanta Tubarões", se não foi um fenômeno, também não decepcionou. Pelo menos, se pagou e com sobra, faturando US$ 158 milhões.

Se juntarmos os US$ 92 milhões investidos pela Disney em "Os Incríveis", temos uma cifra de quase US$ 400 milhões gastos apenas na produção de animações. Um número bastante representativo. Tanto quanto o resultado parcial do que eles já renderam: algo em torno de US$ 900 milhões, número que muito provavelmente superará a casa dos nove dígitos. Hollywood descobriu uma nova mina de ouro.

"É uma nova possibilidade que está crescendo cada vez mais e que não pára por ai. É todo um universo que está se abrindo. E o que as pessoas estão vendo? Que esse é um filão muito rentável. E estão dizendo: 'vamos investir sim'", explica Trindade.

Mais moderado, Ewald Filho ressalta que "isso tudo é uma questão de safra. A meu ver, a produção de animações ainda é muito cara. Qualquer efeito digital ainda tem um custo enorme". Por sua vez, Lazaretti critica a produção industrial, marcada pelos altos investimentos. "O cinema é uma obra de arte. E o cinema industrial não tem nada a ver com arte, não constrói nada".

Futuro

O mercado, apesar da festa, já começou a dar sinais de saturação. No começo do mês, duas notícias que pipocaram podem refletir uma preocupação dos grandes estúdios. A dupla Disney/Pixar anunciou o adiamento de sua próxima produção conjunta, "Cars".

A nova animação, protagonizada por carros fofos que sonham em ser bravos carros de corridas, estava prevista para sair em novembro de 2005, mas foi adiada para junho de 2006. Com isso, a Pixar faz uma aposta perigosa. Passar um ano exclusivamente da receita da venda de DVDs de "Os Incríveis".

Sua maior concorrente, a DreamWorks, também estão mais cautelosos. A terceira etapa de seu grande sucesso, "Shrek", já estava marcada para ser lançada em novembro de 2006, mas também foi adiada. Assim, os fãs do ogro verde terão que esperar até o longínquo maio de 2007 para o próximo filme.

O diretor-executivo da empresa, Jeffrey Katzenberg, diz que se trata de uma estratégia de negócios. Segundo seus cálculos, com o lançamento no fim de 2006, a empresa obteria um lucro cerca de 15% menor que com a nova data. Se estamos falando de cifras em torno de US$ 400 milhões, o prejuízo seria de cerca de US$ 60 milhões, uma quantia considerável.

Para o lugar de Shrek, no fim de 2006, a companhia promete lançar uma nova animação, "Flushed Away", que conta a saga de um ratinho que literalmente entra pelo cano e troca o conforto de um apartamento na cobertura pelos sujos esgotos de Londres.

Sem "Cars", o principal lançamento para o ano que vem será "Robots", da Blue Sky, braço de animações da Fox responsável pelo bem-sucedido "A Era do Gelo", de 2002. Feito com animação computadorizada, a história sobre uma cidade de robôs deve chegar às telonas em março, mesma época do ano do lançamento de "A Era do Gelo".

Crianças?

Outra tendência que o ano de 2004 confirmou foi a mudança do alvo das animações. Está claro que, para o mercado, o público infantil não é (ou não foi) suficiente. Talvez tenha sido essa percepção que permitiu o ápice das animações no cinema esse ano. "A animação já é um gênero independente que não fica a dever a nenhum outro", afirma Trindade.

Isso não significa que os adultos tenham sido negligenciados este tempo todo. Todos os filmes produzidos em animação, por mais que tivessem temáticas infantis, já demonstram a preocupação em agradar também aos adultos. Em um primeiro momento, a idéia foi atrair os pais. Se eles tinham que levar os filhos, que pelo menos fosse um programa agradável.

No entanto, hoje isso mudou radicalmente. "São filmes cada vez mais inteligentes. Há muito tempo, animação não é mais sinônimo de filme infantil", afirma Trindade. Novamente, "Shrek 2" e "Os Incríveis" são provas disso.

Parece que os valores se inverteram. Atualmente, as animações são feitas pensando no público adulto em primeiro lugar. O fato de serem animações por natureza atrai as crianças. Uniu-se, assim, o útil ao agradável. Produz-se desenho (que, em tese, é para crianças) com temática adulta.

Trindade lembra, por exemplo, a personagem Dóris, de "Procurando Nemo", que tem uma síndrome de amnésia recente. "Isso lá é assunto para crianças?", pergunta aos risos. Para ele, "a qualidade de diálogos e de roteiro de um ‘Shrek’ ou de um ‘Nemo’ supera cerca de 70% de tudo o que tem sido produzido pelo cinema americano".

"Se eles passam (o "Shrek 2") em Cannes, obviamente têm outras intenções. O festival não é para crianças", afirma Ewald Filho. No entanto, para o crítico, o sucesso das animações entre o público adulto ainda é muito discutível. Em sua opinião, fora dos EUA, não é comum o adulto procurar a animação, independentemente do filho. "Além do público americano, que é muito infantilizado, não vejo essa unanimidade", afirma.

De qualquer forma, desde o primeiro Shrek, as piadas já não estavam restritas às crianças. Em "Shrek 2", no entanto, a tendência vai além. As piadas, as passagens, as sacadas são em sua grande maioria para os adultos. Como as insinuações de intimidação, a brincadeira com a "erva" encontrada no bolso do gato de botas, as chantagens, piadas com tons sexuais, enfim, os exemplos são inúmeros. "Shrek 2", sem dúvida, diverte muito mais um adulto do que uma criança.

"O 'Shrek 2' é um filme que funciona muito bem nos dois níveis. Mas muitos não conseguem", opina Ewald Filho. "O dos tubarões ("O Espanta Tubarões") já não teve o mesmo êxito, embora tivesse essa proposta também", completa.

"Os Incríveis", por sua vez, já tem uma outra particularidade. É um filme tradicional, do ponto de vista da temática, da abordagem, mas que explora - e muito bem - todos os recursos da animação. "Como explicar que este filme tenha ficado tanto tempo com pré-estréia à meia-noite?", questiona Ewald Filho. "É claro que eles estão procurando outro público. Esse é o trabalho que tem sido feito. Agora vamos ver se vai dar certo", conclui.

Os personagens são humanos. Ou pior, super-heróis que são obrigados a esconder sua identidade (e seus superpoderes), vivendo a vida medíocre dos humanos normais. Assim, o filme faz alusões à vida em escritório, ao adultério, à decepção com a vida. Ou seja, mais uma vez, cheio de referências para os adultos. Crianças não captam, por exemplo, as críticas aos valores burgueses que permeiam o filme.

O próprio "O Espanta Tubarões", embora seja mais claramente infantil, também dialoga diretamente com os adultos, embora sem o mesmo sucesso. Há níveis de compreensão. O literal e o figurativo. No fundo, o que o desenho está abordando é a aceitação das diferenças. A forma como foi trabalhada dá diversos indícios, por exemplo, de um debate sobre a homossexualidade, que passa absolutamente despercebido pelo público infantil.

Brasil

Apesar do sucesso das animações norte-americanas, a produção brasileira ainda é muito embrionária. Com um publico bastante restrito, o principal meio de exibição dos filmes aqui no Brasil é o já tradicional festival "Animamundi". Há ainda outros 64 festivais espalhados pelo País, o que significa um público de cerca de dois milhões de pessoas, no total.

Razoável, mas... "Um filme consegue se inscrever em dez (festivais), no máximo", diz Lazaretti. Com isso, o público é reduzido drasticamente. "No máximo umas 200 mil pessoas, chutando alto", explica. O número é ínfimo perto das produções comerciais do cinema norte-americano. Além dos festivais, as animações brasileiras são exibidas na TV Cutura, na TVE e no Canal Futura.

Com esses números, não é surpresa que não haja, na história, nem dez longas-metragens em animação brasileiros. Este é um dado bastante relevante, sobretudo porque, aqui, o único jeito de entrar no circuito comercial é por meio dos filmes mais longos. O próprio curta-metragem tradicional ainda é muito marginal.

Lazaretti, entretanto, afirma que, do ponto de vista técnico, o País tem condições de produzir animações de qualidade. "O problema são os roteiros. A gente tem dificuldade de concretizar as idéias na linguagem visual", aponta o cineasta que já tem cerca de 20 curtas em animação digital, "todas em 2D", como ele explica, "por preferência pessoal".

Em 2004, cerca de 50 projetos de pré-produção para longas em animação foram inscritos no Ministério da Cultura. "Isso pode representar um embrião", diz Lazaretti. Em sua opinião, pelo menos três desses têm grande chances de se concretizarem. "Depende de muitas coisas, mas as chances são boas", afirma.

Mas não é para já. Se o filme começar a ser rodado no ano que vem, só podemos esperar o projeto concluído em meados de 2007, ou até depois. "É possível produzir um longa tradicional em seis meses. Já em animação, demora uns dois anos, no mínimo", explica Lazaretti.