Paulistanos reservados e cariocas expansivos. A velha dicotomia entre as duas cidades, verdadeira ou não, expressa-se agora no início da campanha eleitoral. No Rio de Janeiro, os ataques dos candidatos lembram balas perdidas: apesar do alvo específico, às vezes sobra para todo o mundo. Em São Paulo, a violência parece menor, mas o estopim deve estar logo adiante.
A disputa em São Paulo ensaiou, há alguns dias, rememorar a campanha em 2000, quando ofensas pessoais se tornaram comuns. Um deputado do PSDB disse, durante comício de José Serra, que a prefeita Marta Suplicy (PT) era uma "menininha que só quer saber de viajar e namorar". Marta revidou referindo-se ao "baixo nível" da campanha tucana. Depois a poeira baixou e a campanha voltou a conviver com as críticas diárias, mas deixando de lado - por enquanto - a vida privada dos representantes.
No Rio, porém, a campanha eleitoral beirou a baixaria nas últimas semanas, com candidatos chamado oponentes de "mentiroso", "punguista" e até propondo "paredão" de fuzilamento.
Não, isso não significa que os candidatos em São Paulo são sofisticados e os do Rio chafurdam na lama. É tudo uma questão de estratégia de campanha.
"No Rio, há uma agressividade mais explícita pelo fato de que há um candidato com nítida vantagem, muito à frente nas pesquisas intenções de voto, com chances de ganhar a eleição já no primeiro turno", afirma o sociólogo Geraldo Tadeu Moreira Monteiro, do Programa de Estudos Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
De acordo com a última pesquisa do Vox Populi, o prefeito Cesar Maia (PFL) obteve 44% das intenções de voto, mais do que a soma de todos os adversários. "Isso leva os adversários a elevarem o tom dos ataques, na tentativa de diminuir a qualquer custo essa vantagem", afirma Monteiro.
Em São Paulo, o cenário é diferente. Marta é o alvo privilegiado dos ataques, embora esteja no máximo em empate técnico com Paulo Maluf (PP) na perspectiva mais otimista para o PT. Serra vem sendo atacado basicamente por Maluf. E Maluf não sofre bombardeio, embora ocupe o segundo lugar nas pesquisas. A mais recente pesquisa Datafolha mostra que Serra tem 30%, Maluf, 24%, Marta, 20% e Erundina, 8% nas respostas estimuladas.
"Quem está em um cargo do Executivo acaba mais exposto. E ninguém acredita seriamente que Maluf vai para o segundo turno. É carta fora do baralho, aparentemente. Está se candidatando para se defender", diz o cientista político da PUC e da FGV Francisco Fonseca. Maluf vem sendo alvo de investigações sobre supostas contas no exterior. O ex-prefeito nega possuir qualquer conta bancária desse tipo e diz que está na disputa para ganhar.
Mal começou
A previsão de que a campanha em São Paulo caminharia para a federalização ainda não ocorreu. Nada ainda indica que a corrida municipal seja uma espécie de plebiscito do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ao contrário, desde o primeiro dia de campanha oficial, em 6 de julho, a administração municipal petista é que tem sido severamente criticada pelos adversários. Mesmo assim, com cautela.
Se, por exemplo, Serra ataca a gestão do bilhete único - recurso com o qual o passageiro pode utilizar quantos ônibus quiser em um prazo de duas horas pagando apenas uma passagem -, apressa-se em dizer que vai mantê-lo e melhorá-lo. Recente pesquisa Datafolha indica grande aprovação do modelo.
Maluf critica as obras da atual gestão, mas diz que faria muito mais em seu eventual governo. Luiza Erundina (PSB) fala mal da prioridade que o CEU (Centro Educacional Unificado) ganhou na administração Marta, mas afirma que os manteria e, no futuro, os ampliaria.
Apesar do ensaio de debate sobre as questões municipais, o cientista político Francisco Fonseca acredita ser inevitável a federalização da campanha, cedo ou tarde, misturada a questões locais. Com a aparente retomada da economia, o próprio PT pode iniciar o processo.
Isso porque, na prática, a eleição ainda não existe para a população em geral. "O interesse do eleitor ainda está distante. Começa com o horário eleitoral gratuito, que, historicamente é um divisor de águas. Sempre muda o cenário", diz Fonseca. A propaganda na TV e no rádio começa no dia 17 de agosto. Período no qual vai ter de dividir as atenções com os jogos olímpicos.
A pesquisa Datafolha reforça os argumentos do cientista político. As respostas estimuladas - quando são dados os nomes de todos os candidatos ao pesquisado - são bem diferentes das chamadas espontâneas - quando só é perguntado ao eleitor em quem ele votaria. Neste último cenário, Maluf tem 19%, Marta, 15%, Serra, 13% e Erundina, 3%. Ou seja, o eleitor ainda mal sabe quem são todos os candidatos.
A campanha de 2000 em São Paulo também mostra que a TV e o rádio mudaram consideravelmente o cenário. Antes do horário eleitoral, Erundina e Maluf ocupavam um segundo lugar distante de Geraldo Alckmin (PSDB). Duas semanas depois, Alckmin já estava empatado com os dois adversários. Por uma margem mínima, Maluf foi ao segundo turno com Marta.
Logo, tudo pode mudar. Inclusive no que se refere às ofensas pessoais. Com o horário eleitoral, entram em cena os partidos "nanicos", que, muitas vezes, servem a candidatos maiores. Eles acabam fazendo o "serviço sujo", deixando aos aliados informais as pretensas críticas construtivas, de acordo com Fonseca.
Em São Paulo, portanto, a campanha mal começou.
No gogó
Desde o primeiro dia oficial de campanha no Rio, Cesar Maia, como era esperado, tem sido o alvo preferido dos ataques dos candidatos. Já foi chamado de "velho" e "César romano" por Marcelo Crivella (PL), de "punguista" e "gigolô" por Luiz Paulo Conde (PMDB), e vem sendo classificado por Jorge Bittar (PT) de "mentiroso" e "mestre dos factóides".
O prefeito não tem ouvido os ataques calado. Tem respondido de imediato, às vezes até no mesmo tom, no seu melhor estilo pirotécnico. Após ser chamado de "punguista" (batedor de carteiras), por exemplo, sugeriu nada menos que Conde criasse por lei o "paredão" e o fuzilasse.
Fundamentado, porém, nas pesquisas eleitorais e no bom marketing político, Maia tem evitado o contra-ataque, pelo menos no que diz respeito ao plano pessoal. No debate da TV Bandeirantes, chegou até mesmo a repreender Bittar, após o adversário acusá-lo de não cumprir as metas do Bolsa Família por "não gostar de pobre". "Você é um homem de bem, digno. Usar esse tipo de recurso baixo, de agressão, pelo amor de Deus...", disse.
Segundo o sociólogo Geraldo Tadeu, se Maia mantiver tal comportamento, estará em sintonia com as pesquisas eleitorais qualitativas. "É muito difícil manter a compostura e controlar a língua 100% do tempo, mas temo que alguns candidatos estejam atirando na direção contrária, pois hoje o eleitor está mais interessado na solução dos problemas do que no debate ideológico", afirma.
"O eleitorado assiste com ceticismo essa luta verbal de satanização de uma pessoa", acrescenta. "Hoje, há uma percepção de que todos os candidatos, bem ou mal, já tiveram algum cargo público ou estão ligados a alguma esfera de poder e, no fundo, são uma espécie de farinha do mesmo saco."
O analista político concorda, entretanto, que a guerra verbal é um instrumento de retórica importante para estabelecer contrapontos e apontar fragilidades dos adversários. "Mas precisa estar calibrada num plano de marketing e baseada em pesquisas eleitorais, se não o tiro pode sair pela culatra", ressalta.
As estratégias da guerra verbal são visíveis. A estratégia de Maia, por exemplo, tem sido bater no governo estadual e, por conseqüência, no vice-governador e candidato Conde.
Com a preocupação dos cariocas voltada para a violência, como mostrou a última pesquisa Vox Populi, o prefeito critica a segurança pública e cobra da governadora Rosinha Garotinho (PMDB) e dos outros candidatos um posicionamento sobre o envio de dois mil homens das Forças Armadas no auxílio ao policiamento. A aposta da campanha do prefeito é que colar a imagem de Conde a do casal Garotinho pode ajudar na migração de votos do peemedebista para Maia. "Ganhar o Conde é ganhar o Garotinho", repete.
O vice-governador não nega sua ligação com o casal Garotinho, mas tem preferido se vincular à imagem de ex-prefeito e autor das "únicas" idéias boas da administração Maia, durante sua passagem pela Secretaria de Urbanismo.
Já Bittar não quer esconder de ninguém sua relação com o governo Lula. Pelo contrário, procura explorar a proximidade com o presidente em inaugurações na cidade e deixar claro que é ele, e não Jandira Feghali (PCdoB), o preferido do presidente. O PCdoB e o PT são aliados no plano federal.
A campanha de Jandira tem sido pautada por críticas na área de saúde e transportes, no plano municipal, e na política macroeconômica, no plano federal. O bate-boca corriqueiro dos dois tem explicação simples: aliados históricos no Rio, PT e PCdoB estão separados neste ano, o que divide os votos dos eleitores de esquerda.
Embora não se conheça uma campanha sem troca de ofensas entre adversários, os ataques pessoais tendem a ser cada vez mais raros. Essa é pelo menos a opinião de Geraldo Tadeu. "Os ataques surtiam mais efeito no tempo em que a democracia ainda estava em fase de consolidação".
Quando não há embates mais intensos e troca de farpas entre os candidatos a própria imprensa costuma se referir à disputa como morna ou sem empolgação. Mas, segundo o sociólogo não é a troca de ofensas o que anima o eleitor. "O que motiva o eleitor é o grau de imprevisibilidade do resultado. O eleitor gosta de disputa, os ataques só servem para motivar a militância e render manchetes", conclui.
Culto ao voto
Neste ano, a disputa pelo voto dos evangélicos tem transformado a campanha eleitoral em uma quase "guerra santa". Ao contrário das últimas eleições para governador, quando todos os evangélicos se uniram em torno da candidatura de Rosinha, que apoiou Crivella para o Senado, agora há pelo menos duas chapas disputando diretamente esse mesmo grupo de eleitores: a de Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e sobrinho de Edir Macedo, e a de Manoel Ferreira, presidente da Assembléia de Deus - Ministério Madureira - e vice de Conde.
A "guerra santa" ficou ainda mais acirrada, depois de o cardeal do Rio Dom Eusébio Scheid criticar durante encontro com Maia a mistura da religião com política e, sim citar nomes, comparar os candidatos ligados a igrejas a mercadores que fazem da religião um "supermercado de venda do sacro".
Até o líder máximo da Universal, Edir Macedo, entrou na guerra para criticar o secretário de Segurança Pública, Anthony Garotinho (PMDB), que neste ano apóia Conde. Em entrevista à "Folha Universal", jornal da igreja, o bispo diz estar decepcionado e arrependido de ter apoiado Garotinho. "Acreditei que esse homem tinha os olhos voltados para os rejeitados e me decepcionei", disse.
Os evangélicos têm se tornado cada vez mais um importante fator eleitoral. No Rio, os evangélicos ainda são minoria, mas já representam 21% da população. Há na cidade aproximadamente 700 mil eleitores evangélicos.
Embora ainda correndo por fora, o pastor Manoel Ferreira é considerado pelo PMDB o maior trunfo eleitoral da chapa para tirar votos de Crivella, ainda mais agora que o senador enfrenta um processo de impugnação da candidatura, por suspeita de omissão de bens em sua declaração entregue ao TRE (Tribunal Regional Eleitoral). Crivella é acusado de ainda ser sócio gerente da TV Cabrália, afiliada da Rede Record no sul da Bahia. Ele afirma já ter passado suas cotas para outros sócios e culpa a burocracia do Ministério das Comunicações pelo fato de ainda constar como sócio-gerente da empresa.
Apesar da força evangélica, Geraldo Tadeu diz que "o potencial da Universal é suficiente para eleger um senador, mas ainda é insuficiente para fazer um prefeito". Para o analista político, a saída de Crivella da disputa aumentaria as chances de Maia ganhar já no primeiro turno, porque o prefeito está em segundo lugar entre os evangélicos.
Segundo a pesquisa Band/Vox Populi, na batalha por votos evangélicos, Maia e Crivella estão tecnicamente empatados. Maia aparece com 23% dos votos dos evangélicos e Crivella, 21%.
