edições anteriores
Amizade colorida na geração do "ficar"

Por Benoit Denizet-Lewis, para o New York Times


Jesse quer se encontrar no Hooters. “É a 40 minutos de onde eu moro”, disse ele, “mas confie em mim, vale a pena a corrida”. Jesse tem 15 anos. Surpreendentemente, não há idade mínima para jantar no Hooters. Assim, entre garçonetes bronzeadas e pouco vestidas e uma festa de solteirões animados, eu encontrei Jesse com quatro de seus amigos mais próximos, com quem ele combinou para que nos encontrássemos.

Entre eles estava Caity, uma caloura magra de 14 anos com longos cabelos loiros que se diz virgem, mas que ocasionalmente “fica” com caras. Caity não deixa claro o que ela quer dizer com “ficar”. O termo em si mesmo é vago – cobrindo de tudo, de beijos à relação sexual – apesar de ser, às vezes, um eufemismo para sexo oral, feito por uma menina em um garoto.

Sentada próxima a Caity está sua melhor amiga, Kate, também com 14 anos, a quem todos se referem de forma afetiva como a “sensível” do grupo. Extrovertida e atraente, ela teve um namorado por alguns meses, mas eles nem se beijavam.

Em seu mundo de New England, onde, como me disseram, o sexo oral é comum entre a oitava e a nona série, o comportamento de Kate impressiona suas amigas, e até ela mesma. “É retardado”, diz ela, apoiando sua cabeça no ombro de Caity. “Até minha mãe acha estranho”.

Há algumas semanas, Caity e Kate conheceram um menino bonitinho em um shopping center e eles “ficaram”.

Eu perguntei a Caity se terminou aí, ou se sua saída levou a algo mais. “Nós poderíamos namorar”, ela me conta. “Não sei. É que os caras ficam tão chatos quando você começa a namorar”. Adam, um estudante de 16 anos sentado na ponta da mesa, interrompe acrescentando que as meninas também podem ser bem irritantes quando começam a namorar.

Eu conheci Jesse pela primeira vez no facethejury.com., um dos muitos sites de internet comuns entre colegiais e universitários, onde os adolescentes podem postar perfis, trocar e-mails e marcar de “ficar”. (Como facethejury.com e muitos outros sites exigem que os participantes sejam maiores de 18 anos, os adolescentes mais novos costumam mentir sobre a idade).

Ao longo de muitos meses, conhecendo e conversando on-line com cerca de 100 colegiais (principalmente brancos, classe média e alta, do Nordeste e Meio-Oeste), eu ouvi a mesma coisa: “ficar” é mais comum do que namorar.

A maioria dos adolescentes com quem falei era capaz de lembrar de poucos casais sérios que conhecia na escola. Um de Chicago, que saiu com a mesma menina durante um ano inteiro, me disse que nenhum de seus amigos queria ter namorada e que isso o fazia se sentir um “perdedor”, já que está em um relacionamento. Como se buscasse segurança, ele se virou para mim e perguntou, “Você acha que eu sou um perdedor?”.

O declínio dos relacionamentos românticos nos campi estudantis tem sido lastimado com freqüência. Em 2001, isso se tornou tão pronunciado que um grupo conservador, o Fórum das Mulheres Independentes, foi compelido a colocar anúncios dos jornais de faculdades na Costa Leste e no Meio-Oeste pedindo que os alunos “Retornassem ao Namoro”. Mas seus esforços não parecem ter surtido efeito.

A tendência em direção à “ficada” e aos “amigos coloridos” (basicamente, amigos com que você “fica” regularmente) se alastrou dos campi para os colegiais e ginásios – e não só em grandes centros urbanos. Os telefones celulares e a internet, que oferecem aos adolescentes um nível de privacidade sem paralelos, tornaram as “ficadas” muito mais fáceis, tanto se o casal vive em Nova York ou em Boise.

Não é que os adolescentes desistiram do amor. A maioria dos alunos do colegial com quem passei algum tempo afirmou que espera encontrar a pessoa certa, se apaixonar e casar – eventualmente. É que o colegial, muitos insistem, não é o lugar para se preocupar com isso. Trata-se de manter abertas as opções. Os relacionamentos fecham as perspectivas.

Como esses adolescentes vêem, o casamento e a monogamia substituirão suas carreiras de “ficantes” quando tiverem 25 anos ou mais – ou, como um estudante do colegial em Rhode Island me disse on-line, quando “estivermos com 30 e ninguém mais interessante nos quiser”.

Brian, 16, um amigo de Jesse, coloca dessa forma: “Estar em um relacionamento real só complica tudo. Você se sente obrigado a ser sempre um casal. E isso fica muito chato depois de um tempo. Quando você é amigo colorido, você sai, fica, depois joga vídeo game ou algo assim. É bem melhor”.

Não se sabe quantos adolescentes preferem “ficantes” ou amigos coloridos a namoros. Muitos, de fato, oscilam, e se a distinção entre “ficar” e namorar pode parecer escorregadia, é porque um pode, às vezes, levar a outro. Mas freqüentemente, “ficar” não é nada mais do que sua propaganda diz: um encontro que pode ser sexual. Estudos recentes mostram que não é incomum entre os alunos de colegial ter relações sexuais com quem não estão namorando.

Uma pesquisa de 2001 conduzida pela Universidade Estadual Bowling Green, em Ohio, descobriu que dos 55% dos alunos da última série do colegial que se engajaram em um relacionamento, 60% disse ter feito sexo com um parceiro que não era nada mais do que um amigo.

Esse número provavelmente seria maior se o estudo perguntasse sobre sexo oral. Enquanto o índice de relacionamento adolescente caiu – de 54%, em 1991, para 47%, em 2003 – isso pode ser em parte porque os adolescentes simplesmente substituíram o relacionamento por sexo oral. Para a geração que cresceu com a MTV, AIDS, Britney Spears, pornografia pela internet, Mônica Lewinsky e “Sex and the City”, o sexo oral definitivamente não é sexo (é só “oral”), e “ficar” não é grande coisa.

Os adolescentes com quem conversei falaram sobre “ficadas” de forma tão trivial como discutem o cardápio do almoço do refeitório – e eles olham para você de forma engraçada se você se estende nos componentes “emocionais” do sexo. Mas junto com essa aparente desconexão está a franqueza notável com que conversam sobre sexo, mesmo entre amigos do sexo oposto.

“Ficar” não é algo tão descompromissado como os adolescentes gostariam que fosse, e há muitas formas disso dar errado. Em uma reunião de ‘Dia dos Namorados’ em Chicago, uma adolescente extrovertida chamada Irene e suas amigas me disponibilizaram o manual de comportamento não-escrito das “ficadas” adolescentes: se você quer ficar com alguém, então você não pode ligar para essa pessoa para qualquer coisa que não seja para “ficar”. Você não o convida para sair com você. Você não liga só para dizer oi. Você não confunde as coisas. Você simplesmente mantém como algo puramente sexual, e dessa forma as pessoas não terão expectativas, e ninguém se machuca.

Mas, invariavelmente, isso não acontece. Muitos adolescentes me contaram que se machucaram com seus “ficantes” – geralmente porque eles esperavam mais. Mas eles freqüentemente se culpam por deixar que suas emoções levassem a melhor sobre eles. Os “ficantes” não eram o problema. Eles eram.

Há uma crença sólida entre muitos especialistas em sexo adolescente que as meninas, apesar de muitas alegarem o contrário, não estão tendo tanto prazer com as “ficadas” como dizem. Eu fui convidado a ir a uma escola em Boston, onde me encontrei com um grupo de adolescentes que estava debatendo exatamente esse assunto.

Uma garota de cabelos castanhos que diz que às vezes “fica” com caras que conheceu através de seus amigos disse: “Se eu pedisse para um cara vir até a minha casa para ‘ficar’ comigo”, disse ela, “eu seria a única a ser beneficiada com isso, porque eu seria a única a querer...Não é somente satisfazer o cara”.

Outra garota ouvia silenciosamente enquanto as amigas defendiam o direito da mulher de “ficar”. Finalmente, e com alguma hesitação, ela deu voz a uma opinião não popular entre suas amigas.

“Eu acho que as mulheres têm menos poder hoje”, disse ela. “Não é só que o cara não respeita mais a garota ou a sexualidade da garota, mas às vezes a garota mesmo não se respeita ou não se dá valor. Eu tenho um amigo de 20 anos, e ele vai na internet e conhece meninas de 16 anos do subúrbio. Ele dirige até a casa dela, ela faz sexo oral nele e ele volta para casa. Quem tem o poder aí? Eu acho que às vezes as meninas são muito auto-destrutivas”.

“Bem”, disse a primeira garota, um pouco irritada, “Eu não vejo porque um cara pode ‘ficar’ ocasionalmente com uma garota e ninguém questionar seus motivos, mas quando uma garota faz isso há sempre a concepção de que ela é uma garota, então automaticamente ela quer mais do que uma ‘ficada’. Quando eu ‘fico’ com alguém, eu não quero mais do que isso, e isso não é auto-destrutivo. Eu aproveito”.

Apesar de todos os esforços para tornar os adolescentes cientes do perigo das “ficadas”, muitos alunos do colegial com que falei não dão importância à idéia de que “ficar” é uma coisa ruim. Para eles, já que não vão casar dentro de 10 anos, por que não se concentrar em outras coisas (amizades, dever de casa, esportes) no colegial? E se eles não estão machucando outras pessoas e não engravidando ninguém, qual é o problema de um divertimento casual?

A verdade é: adolescentes podem passar menos tempo “ficando” do que os adultos pensam – para muitos deles, a amizade se tornou a parte mais importante de suas vidas sociais.