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“Web-mendigos”: uma nova classe social nas ondas da internet

Por Felipe Neves, repórter iG em São Paulo


SÃO PAULO - “Tio, dá um trocado. Só uma moedinha!”. Essa abordagem, como as tecnologias em geral, já está ficando ultrapassada. Não dá mais para pedir uma moedinha. Nem uma nota de um real. O negócio agora é sugerir uma transferência. Serve um DOC? Quem sabe um TED? Pedir dinheiro não é mais uma exclusividade dos ‘bons e velhos’ mendigos.

Agora, o movimento é moderno e pela internet. Nas ondas da rede, uma nova camada social vem surgindo: os ‘web-mendigos’. Quem nunca recebeu um e-mail, em geral de um ‘spam’, pedindo dinheiro? Pois eles se proliferam. Cada dia mais. As finalidades são diversas. Desde motivos supostamente nobres, como necessidades, até mimos e ‘realizações de sonhos’. Entre os ‘web-mendigos’, não há distinção. A rede está aí para todos.

As mensagens mais comuns são aquelas que apelam para a compaixão do interlocutor. O sujeito conta uma história absolutamente trágica. Meu pai morreu, minha casa foi incendiada, tenho sete irmãos para criar, meu único cliente cortou o contrato de última hora, minha tia tem uma doença raríssima que só pode ser tratada no exterior. E assim por diante. No fim, diz que precisa de ajuda, que está desesperado. Qualquer quantia serve. E sugere uma conta de banco ou um endereço para quem quiser colaborar enviar o dinheiro.

Confira a seguir um exemplo perfeito de uma mensagem deste tipo (sic):

“(O Senhor é nosso Pastor e nada nos faltará) · Meu Nome é Luciana T. M., resolvi escrever para você para pedir sua ajuda. Não quero tomar muito seu tempo. Só estou sendo sincera. Alguém peca por falar a verdade? · Sou uma pessoa honesta e sempre trabalhei muito para sustentar a mim e meus filhos...Agradecemos a sua ajuda desde já, até por estar lendo este e-mail.... Por favor deposite: · Banco Itaú (agência0802- conta corrente poupança 27256-7). Obrigado. (O Senhor é nosso Pastor e nada nos faltará)”.

A autora desta mensagem, identificada como Luciana T. M. (preferimos não divulgar o sobrenome), foi procurada pela reportagem do Último Segundo durante a semana, mas não respondeu.

A reportagem teve acesso ao histórico de e-mails trocados entre um homem e Luciana. Na ocasião, o homem escreveu questionando a veracidade da história contada e reclamando da criação do spam. Diz ele: “Se houvesse um pingo de verdade nessa sua historinha você estaria pedindo um emprego e não dinheiro. Deus tá vendo você usar o nome Dele. Aprenda a pescar, pare de pedir peixe. E além de tudo é spammer!”.

A suposta Luciana ainda tentou estabelecer uma conversa com o homem que a criticava: “Você fala de onde?”. A conta sugerida na mensagem está mesmo no nome dela, segundo confirmou a reportagem em uma simulação de depósito.

Há como saber se alguma destas mensagens é verdade? É muito difícil. A única coisa que se pode fazer é tentar estabelecer um contato por e-mail. O que é muito pouco, uma vez que este, em geral, é muito frio. Uma pessoa pode criar um personagem virtual sem muitos problemas. Não é assim nos chats, que pessoas entram como o sexo oposto? Ou mandam fotos de outros para conseguir as ‘conquistas’. Enfim, é muito simples criar um e-mail gratuito, inventar uma história e espalhar pela internet. A preocupação dos internautas agora é outra: descobrir um meio de filtrar tudo isso.

O retrato de um verdadeiro "web-mendigo"

Há cerca de dois meses, Nahur Lopes dos Santos, 37 anos, enviou um e-mail para pedir ajuda na internet. Diz o e-mail (sic):

“Boa tarde, moro na cidade de Montes Claros, e o meu nome e Nahur Lopes Santos, tenho um filho de 4 anos e esse com alergia a leite animal e seus derivados, so podendo tomar o leite de soja ades, e o custo desse
leite esta muito caro, e a minha esposa esta desempregada, e venho de coração aberto pedir se possivel uma ajuda financeira, espero por resposta e que ela seja positiva. Desde ja peço desculpas, pelo transtorno. Encontrei seu email atraves do site mab- movimento de
adolescentes.

Atenciosamente,

NAHUR LOPES SANTOS
RUA ESTADOS UNIDOS, 58 - MORADA SOL II - PARQUE SAPUCAIA
39404-305 - MONTES CLAROS - MG
EMAIL : SOMADO@BOL.COM.BR

CPF : 60841567620
IDENTIDADE : M3-520434

CONTA DO BANCO : 1279-3
AGENCIA : 3144-0
BANCO : 756
BANCO CREDINOR - CONVENIO COM O BANCOOB
MONTES CLAROS - MG”


O fornecimento de RG e CPF torna-se um diferencial nesta mensagem. O que, na cabeça do pedinte, se configura como uma forma de provar que está falando a verdade. Mas isso ainda não é suficiente. É possível inventar os números. E mais: usar números alheios. Há também um endereço, o que permite ao internauta mais desconfiado procurar o telefone do suposto “web-mendigo”.

Com um falar manso e simples, o típico mineiro, Santos explicou os motivos de sua atitude. E afirmou, sem hesitar: “Foi a necessidade que me levou a tomar esta atitude”. E acrescentou: “Talvez desse certo”. Durante a entrevista, ele confirmou a história da mensagem. Casado e com dois filhos, Nahur mora em uma casa de dois dormitórios financiada. “Ta muito bom para nós”, diz. A quitação da moradia ainda demora. “Ao todo são 20 anos; já paguei cinco”, diz.

Santos nunca deixou de trabalhar. Como diz o e-mail, voltou a afirmar que sua mulher está desempregada. E que seu filho mais velho, Vitor Collen Santos, de quatro anos, tem uma alergia e só pode consumir leite de soja Ades. Empregado no setor administrativo de uma cooperativa de leite em Montes Claros (MG), ele garante que não teve redução salarial, foi apenas o custo de vida que aumentou. “Está tudo mais caro agora”. Com a esposa, Elaine Collen Santos, sem emprego, ficou impossível arcar com todas as contas. E as dívidas vieram: “A gente vai pegando emprestado de pouquinho em pouquinho - não dá para deixar o menino sem leite né? - e quando vê, está enrolado”.

Daí surgiu a idéia de pedir ajuda pela internet. A primeira dúvida que vem à cabeça é: como não tem dinheiro para comprar leite e tem acesso à internet? “Tenho acesso à internet aqui no serviço”, explica. Para conseguir espalhar o e-mail, utilizou a mala-direta de uma site de buscas e enviou mensagens a pessoas aleatoriamente. “Basta você digitar mala-direta em um site de buscas e aparece”, explica.

Ele se considera de classe média. “É, nem alta nem baixa, média mesmo”, diz. Formado em contabilidade, estudou em colégio particular a vida inteira. E afirma que passa pela maior dificuldade de sua vida. “É a primeira vez que passo por um aperto como este”, conta.

Ele tem carro, mas garante que não pode vendê-lo. “Se eu vender o carro, eu fico sem condução. Onde moro o transporte público é muito ruim. Só tem uma linha, que demora muito”, explica. Mas, será que nem em último caso? “Não pensei nisso ainda. Mas se precisar, vou ter que vender”. Não pensou em vender o carro, mas já passou pela sua cabeça apelar para algum programa de TV, “um Gugu ou Ratinho”. “Quem sabe, uai? Quem sabe eles não ajudam, né?”, pergunta.

Mais ajuda pela frente

Até agora, em pouco mais de dois meses, a iniciativa ainda não surtiu muito resultado efetivo. Ou seja, não rendeu muito dinheiro. No entanto, em termos de proporção, até que o resultado foi melhor do que o esperado. Santos afirma que já enviou cerca de 60 e-mails. E recebeu entre 15 e 20 manifestações.

Nem todas muito amigáveis. “Umas apoiaram, pediram para tentar ajuda nas repartições aqui na minha cidade, outras me chamaram de quase tudo, que estava roubando as pessoas, mas isso para mim não é roubar e nem matar”.

Apenas uma pessoa o ajudou. Foi a dona Auricélia, que reside em Itambira, interior de Goiás. Ela contribuiu com R$ 21. “Já é uma grande ajuda”, afirma Nahur. Ele se lembra de pelo menos duas mensagens bastante ofensivas “xingando e dizendo que estava errado”.

Santos ainda estabeleceu contato com outras quatro ou cinco pessoas que disseram que iriam ajudá-lo num primeiro momento, mas “sumiram”, como ele próprio definiu. Uma delas é Luisa Melo, que é portuguesa e mora em Lisboa. Ela se solidarizou com o e-mail recebido, apesar de ter se confundido um pouco. “Eu não sabia que Nahur é homem, pensava que era uma mãe”. Ela explicou que está envolvida em um site na internet que ajuda bebês. “Ele encontrou meu e-mail lá”, diz.

Luisa, no entanto, está com dificuldades para conseguir efetivar sua ajuda. Por vários motivos: “Primeiro, não há reais em Portugal. Depois fiquei doente. Daí, tentei enviar por transferência bancária. Contatei outra vez Santos...Eu, amanhã (sexta – dia 12 de março), na hora de almoço, vou tentar fazer isso. Vamos ver se é desta vez que consigo ajudar”, relata.

Depois da entrevista concedida ao Último Segundo, ela decidiu abrir o bolso um pouco mais. A princípio, ela tinha pensado em doar uma quantia equivalente a US$ 20. No entanto, enquanto falava à reportagem, perguntou quanto essa quantia representava em reais e se ajudava de fato. Com a resposta, declarou: “O que me ajuda é a sua informação. Vou tentar enviar US$ 50”.

Ela relata que nunca desconfiou da veracidade do relato de Santos. Mas também, apesar de manter a vontade de ajudar, tem consciência de que não pode ter muita convicção. Ao ser perguntada se, em algum momento, duvidou da história contada, respondeu: “Não, mas eu só falei com ele por mensagens...”.

Mas a vontade de colaborar foi maior. Luísa trabalha como secretária em um escritório de advocacia. E, segundo relata, não tem muito dinheiro de sobra. “Olha, eu não sou rica e vivo do meu trabalho. Os ordenados aqui não são altos e eu tenho que gerir o que ganho”, afirma”.

A ajuda de Luísa provavelmente servirá como impulso para Nahur continuar sua empreitada virtual. Quando ele concedeu a entrevista, ainda não sabia da decisão da portuguesa. Segundo ele, apesar do pouco arrecadado até o momento, ele pretende recomeçar o envio de e-mails em breve. Com relação à motivação, ele admite que está um pouco pessimista. “Eu estou meio descareditado. Mas, quem sabe? A esperança é a última que morre”. Mas, será que ele acreditaria em uma mensagem como a dele? “Talvez eu pudesse não acreditar”, admite. “Nunca parei para pensar nisso”.

"Web-mendigos" de alta classe

Mas a nova modalidade não pára por aí. Nas mensagens, o internauta encontra de tudo. Até mensagens com propostas milionárias. É o caso de uma, em inglês, que circula com o assunto “URGENT ANSWEAR PLEASE”. O narrador do e-mail relata que um de seus clientes - não diz qual o ramo de atividade - morreu em um acidente de carro, junto com a família. Ele teria procurado contatar a família por meio da embaixada do “seu país” (não diz qual o país), para informar do dinheiro que a família deixou, US$ 10 milhões. Como ele não conseguiu de jeito nenhum, resolveu procurar uma parceria para retirar esse dinheiro do banco que, segundo ele, está bloqueado. Este alguém é o interlocutor, que investiria US$ 10 milhões para desbloquear a conta e, depois, eles dividiriam o dinheiro da conta do defunto (60% para o autor do e-mail e 35% para o investidor). Uma pechincha. Vai encarar?

Caso de polícia?

Segundo informações da Polícia Civil, não há nada na lei brasileira que condene a atividade dos “web-mendigos”. Não é crime pedir dinheiro pela internet. Mesmo que a história não seja verdadeira. A Polícia não tem mecanismos legais para iniciar alguma investigação ou coisa do gênero. A única alternativa seria a de enquadrar o falso pedinte por estelionato, mas para isso precisaria haver alguma denúncia. Ou seja, alguém que doou dinheiro e descobriu que foi enganado teria que denunciar. Ainda não houve nenhum caso.

Um outro caso que ficou famoso, há cerca de um ano, foi o de uma suposta menina que espalhou um e-mail dizendo que precisava de ajuda financeira para pôr silicone nos seios. (Que vaidade, hem?!). Um pedido muito singelo. Tanto quanto um outro e-mail atual que circula com o assunto “ajude-me a realizar o meu sonho”. Diz o texto, curto e grosso e em caixa alta:

“EU TENHO UM SONHO...ELE É MUITO ESPECIAL AJUDE-ME A REALIZA-LO COLOBORE COMIGO COM APENAS 1 REAL.
SE DEZEJAR ME AJUDAR
BRADESCO
AG 2024
C/C 7286298-8
PASSE ESTE E-MAIL PARA OS SEUS AMIGOS”


Este, pelo menos, não é tão presunçoso quanto o a seguir:

“Você deve estar pensando que este é mais um daqueles e-mails chatos e eu não tiro sua razão, por que esse além de chato é abusado. Meu nome é Wyllian, tenho 18 anos, e quero lhe fazer um pedido...ou melhor solicitar sua ajuda (pedir é coisa de pobre) para que eu consiga adquirir meu automóvel. Não vou te iludir (ou mentir se preferir) contando aquele contos de fadas de mandar 1 real para cinco pessoas e estas mandaram
para mais cinco e blablablabla. A verdade é que eu quero mesmo é seu dinheiro para me dar uma forcinha. AH, não seja muquirana, murrinha, mão-de-vaca. Ajude-me com qualquer quantia que não te deixe mais pobre. Você com certeza algum dia deve ter ajudado um mendigo na rua ou um pivete que acabaram por gastar seu dinheiro com bebidas e cola... Eu não tenho vícios, sou um rapaz de classe média, minha mãe recebe "bem" mas se eu for esperar e juntar ate conseguir todo o dinheiro vai demorar uma eternidade. E eu, como jovem que sou, quero ter o previlegio de sair de carro com a namorada. Se você não me acha um idiota ainda e decidiu contribuir para essa causa nobre, mande uma cartinha para o endereço abaixo com sua doação:
obs1: Mande sua ajuda enrolada em um papel.
obs2: Acho que tem jeito de receber esse dinheiro de volta pelo imposto de renda.. Se não me engano é possível receber ressarcimento de caridades.. :)

Nome: Wyllian Divino Bastos
Endereço: Rua 68 nº 553 centro , Ed.Sevilha apto.702
Goiânia - GO Cep: 74055-100


Muito obrigado por ter perdido parte de seu tempo lendo esse e-mail e por favor não retorne me chamando de vagabundo.”


Alguém pode colaborar?