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O casamento dos novos tempos

Por Angélica Pinheiro, repórter iG em São Paulo


Sob os acordes da marcha nupcial, ela de véu e grinalda e ele de fraque dizem “sim” e trocam alianças. Mas à parte de alguns rituais clássicos permanentes, muitas mudanças começam a ocorrer nos enlaces do século XXI. No confuso cenário entre viver junto casualmente e "até que a morte nos separe", a “pureza” do branco ainda é o preferido de sete entre dez mulheres, mas convive lado a lado com noivos que recorrem à modernidade da internet para organizar a tradicional cerimônia e até casais que dispensam a formalidade do papel assinado.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que, em uma época de maior liberdade sexual, muitas pessoas têm preferido morar com seus companheiros antes de comprometer-se de forma mais definitiva através de um contrato de casamento.

O Censo 2000 revelou que o número de uniões consensuais - em que as pessoas vivem juntas sem registrar o casamento - praticamente dobrou em apenas uma década. Em 1991, foram registradas 5,1 mi saltando para 9,7 mi em 2000. Isto quer dizer que em 1991, de dez casais, 1,8 diziam estar unidos sem registro de casamento, o número saltou para 2,8 na pesquisa feita em 2000.

O estudo mostra que a tendência de casamentos informais é crescente principalmente entre os jovens. A psicoterapeuta e professora da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo), Marilene Kron, autora do livro “Família e Mitos - Prevenção e Terapia”, explica que hoje, ao contrário de algumas décadas atrás, o jovem pode desfrutar da possibilidade de ter um relacionamento de muita proximidade sexual e de convivência próxima muitas vezes morando juntos por um determinado tempo.

“Atualmente o casamento é efetivado para coroar e possibilitar o desenrolar de um relacionamento bem sucedido, pois o jovem no namoro tem um relacionamento de muita proximidade”, afirma.

Para a estudante Gabriela Ramos de Lima, que aos 16 anos mudou-se de Natal para São Paulo para viver com o namorado de um ano, o casamento formal é apenas uma convencionalidade. “Morando junto, percebi que a assinatura de um papel é dispensável. Nós morávamos em cidades distantes, então o mais prático para nós foi viver junto”, afirmou.

Gabriela conta que a oficilização do casamento só ocorreu após um ano por pressão da família. “Eles concordaram que a gente fosse viver junto, mesmo sem casar. Mas depois de um tempo eles perceberam que se tratava mesmo de um relacionamento sério e começaram a pressionar pelo casamento”, disse.

Segundo o IBGE, a taxa de nupcialidade (relação entre número de casamentos e população com mais de 15 anos, multiplicada por mil) também vem caindo desde 1991. A taxa, que era 7,5 em 1991, caiu para 5,7 em 2002 - a mesma de 2001.

Rafaela Souza, de 27 anos, é mestre em fisioterapia e sempre morou com os pais. Teve alguns namoros duradouros, mas está sozinha há três anos. Ela diz que pretende ficar ainda mais dois anos morando com os pais. "Moro com eles porque não tenho dinheiro para morar sozinha", afirma. Rafaela diz que prorrogar a idade do casamento é normal hoje em dia, pois a necessidade de uma vida financeira estável é maior.

Casamento após 9 anos de união estável

De acordo com o IBGE, o número de casamentos legais, que atingiu seu mínimo em 1998, só se elevou nos anos seguintes graças ao grande número de cerimônias comunitárias realizadas em parcerias entre a Igreja Católica e as prefeituras. Em classes sociais menos favorecidas, a legalização do matrimônio muitas vezes não ocorre por dificuldade econômica.

Apesar do novo Código Civil, que entrou em vigor em janeiro de 2003, assegurar gratuidade no casamento civil para pessoas consideradas carentes, muitos noivos, mesmo apresentando documentos que comprovem sua carência, não conseguem obter o benefício da isenção da taxa - atualmente R$ 222,00 - nos cartórios.

Alessandra Brandão, de 28 anos, e Ercílio Brandão, de 34 anos, casaram-se após nove anos de união e dois filhos. Eles foram um dos 1.434 casais que se casaram no último dia 15 no Ginásio do Ibirapuera, na maior cerimônia coletiva já realizada no País e que pode entrar no livro dos recordes como a maior do mundo.

“Não tínhamos condições de pagar para nos casarmos e não conhecíamos essa lei. Quando soubemos dessa oportunidade, achamos que era a oportunidade para legalizarmos nossa situação”, afirmou Alessandra.

Embora o novo Código tenha reconhecido o conceito de “união estável”, com as mesmas regras da comunhão parcial de bens do casamento, para o secretário de Justiça e Cidadania de São Paulo, Alexandre de Moraes, a oficialização garante “segurança” aos casais sobre seus direitos. "A oficialização da união facilita questões burocráticas. E, ainda, possibilita a realização de um sonho que muitos não podem realizar por questões financeiras”.

Casamento no mundo

Na Europa, como no Brasil, diversas leis estão dando força à chamada união estável. Na França, por exemplo, os casais que não desejam se casar tradicionalmente podem assinar o PACS (Pacto de Solidariedade Civil), que dá a eles os mesmos direitos legais das pessoas casadas, mas não com a obrigatoriedade de viver junto para sempre.

Enquanto nos EUA, o presidente Bush pretende gastar US$ 1,5 bilhão para promover as uniões legais e apóia emendas que definem o casamento como a união conjugal entre um homem e uma mulher, a fim de impedir a equiparação judicial com as relações homossexuais, os países europeus agem na direção oposta. Eles dão novo status a casais que buscam alguns direitos legais nos novos tempos que permitem desde viver junto casualmente até um casamento registrado no civil e religioso.

Na opinião da professora da Unesp Marilene Kron, o incentivo norte-americano ao casamento legal vai na contramão da tendência de diversos países da cultura ocidental de se casar cada vez menos e mais tarde, e as leis só estão embasando a mudança. “À medida que as leis respondem à expectativa e interesse das pessoas, contribuem favoravelmente para que elas oficializem as suas uniões”, afirma.

Maio não é mais o mês das noivas

No universo dos matrimônios formais realizados no Brasil, muitos mitos caem ao serem analisadas as estatísticas. Elas revelam um novo padrão de comportamento. Maio, por exemplo, não é mais o mês predileto dos noivos. Figura atualmente em um modesto quarto lugar, precedido de dezembro, setembro e julho. E a explicação é bem simples: a dificuldade econômica. Os casais preferem este mês por causa do 13º e por ser um mês de férias.

A questão pesa financeiramente porque quem decide oficializar um relacionamento deve se preparar para assumir, além da união, uma série de despesas. Ao contrário, de gerações passadas, quando a família dos noivos assumia grande parte das despesas dos casamentos dos filhos, hoje na maioria das vezes o casal tem de arcar sozinho com os custos.

A dica para não levar sustos no meio do caminho, segundo a jornalista Claudia Matarazzo, autora dos livros "Casamento sem Frescura" e "Case e Arrase", é planejar com antecedência. De acordo com a jornalista, as despesas com o casamento dependem basicamente do requinte da cerimônia e do número de pessoas convidadas. “O ideal é que a cerimônia seja planejada com no mínimo seis meses de antecedência. Os noivos têm de ter em mente que tipo de cerimônia querem e quanto dinheiro têm para gastar”, afirmou.

O jornalista Ricardo Mituti Junior, 25 anos, que se casou em dezembro do ano passado e optou por um casamento tradicional no civil e no religioso, afirma que os dez meses que teve para preparar a cerimônia foram fundamentais para que tudo desse certo. “Saiu tudo da maneira que sonhávamos. Felizmente não tivemos nenhum imprevisto desagradável”, comemora.

Personal trainer de noivos

Na tentativa de ajudar a difícil tarefa de organizar a cerimônia, proliferam as assessorias especializadas, e nos últimos anos, sites especializados em orientar os noivos. Na prática, é possível encontrar na web uma gama de informações relativas a casamentos desde o planejamento até a lua-de-mel.

A responsável pelo Noivas Online (www.noivasonline.com ), Carolina Marcondes, diz que o sucesso do site, que nasceu de um projeto de faculdade e tem quatro anos, foi vertiginoso. A lista de discussão, que hoje conta com 80 participantes, virou um ponto de encontro em que as noivas discutem desde o melhor local para comprar o vestido até detalhes do buffet a ser servido.

“Conquistamos notoriedade no assunto e chegamos a uma média de 14 mil page views por mês. As pessoas que utilizam nossos serviços tendem a continuar nos visitando para conversar com novos casais e trocar idéias. Eles realmente se envolvem”, revela.

Entre os serviços disponíveis há uma inovação: uma lista de presentes online, na qual o futuro casal pode incluir os itens que gostaria de ganhar e disponibilizar, através de um endereço próprio, para todos os convidados com acesso à internet.

Para Claudia Matarazzo, as inovações são bem vindas. “A lista de casamento é uma ferramenta imprescindível para não ganhar presentes indesejados ou repetidos. Se for possível comprar pela internet, mais fácil ainda”. Na opinião dela, não há mais sentido manter certas regras como, por exemplo, entregar os convites em mãos. “Todos sabem que hoje não há tempo para este tipo de formalidade. O correio funciona muito bem nesse caso”, afirma.

O sonho da Cinderela moderna

E se o perfil do casamento mudou, o que dizer do símbolo da cerimônia: a noiva. “Ela não tem tempo, a maioria paga o próprio vestido, mas não perde a aura de romantismo”, define Mary Galdino, que há 22 anos trabalha na rua São Caetano, a famosa “Rua das Noivas”, em São Paulo.

O vestido branco continua imbatível na preferência, cerca de 70% optam pela cor. Segundo Mary, o que mudou foram os modelos, saíram de cena os famosos “bolo de noiva” e hoje os mais procurados são os “evasê”. “A noiva ainda continua bem tradicional. Não temos pedidos de modelos extravagantes. O que mudou foram os modelos, as mulheres de hoje preferem vestidos mais simples, sem adereços exagerados”, afirma.

Para atender a noiva dos novos tempos foi lançado há cinco anos o “Salão da Noiva”, um evento itinerante, que percorre as principais capitais do País, e oferece mais de mil modelos pronta-entrega, além um serviço para fazer o vestido sob medida. “A maioria das noivas ainda vai comprar o vestido acompanhada da mãe, mas não é como antigamente quando ela tinha anos para fazer o modelo. Hoje ela prefere olhar, se identificar e já sair com o vestido dos sonhos dentro da sacola”, diz Wilson Almeida Júnior, gerente de negócios do Salão da Noiva.

A gerente de comércio exterior Andréa Horomi Tomizaki, 26 anos, se define como a própria “noiva sem tempo”. Apesar de namorar há nove anos e estar noiva há dois, só agora às vésperas do casamento começou a procurar o vestido e organizar a cerimônia.

Ela confessa que sempre sonhou com um casamento à moda antiga - no civil e no religioso - mas só agora viu que para organizar um casamento, tempo é indispensável. “Hoje a mulher não tem mais tempo como antigamente para pensar no casamento”. “Mesmo assim a maioria ainda sonha com uma cerimônia tradicional. Eu não sou diferente, faço questão de fazer meu casamento no religioso”.

Em uma escapada do trabalho, ela foi à rua São Caetano na tentativa de encontrar o vestido ideal. O primeiro que ela experimentou foi, claro, um branco. “Me identifiquei logo de cara”. “Noiva é noiva”, disse sorrindo.