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Pedro Martinelli revela uma Amazônia diferente

Por Paulo Terron, repórter iG em São Paulo


SÃO PAULO - Antes do amor pelo fotojornalismo, Pedro Martinelli tinha outra paixão: o mato. “Meus parentes, principalmente os por parte de pai, eram italianos. O interesse deles era isso: caça, cachorros, mato”, explica o fotógrafo de 53 anos, que costumava participar das tais caçadas, na região de Santo André, durante a infância.

Agora - mais de 50 anos depois - a dedicação, em especial à Amazônia, chega ao segundo livro temático: “Mulheres da Amazônia” (editora Jaraqui) segue a linha de “Panará, a Volta dos Índios Gigantes” (1998) e “Amazônia: O Povo das Águas” (2000). “Não quero dar continuidade à idéia que todos têm desse lugar: fotografar arara, vitória-régia e de onça”, conta. “Um dos meus objetivos é contar uma história diferente. Até agora só fomos no clichê, só conhecemos a Amazônia por fotos aéreas.”

“Mulheres” busca uma experiência mais específica, o cotidiano dentro do “inferno verde”. “Abordo esses aspectos: arquitetura, design, moda, beleza, os ambientes, a casa. Através disso criamos um entendimento melhor sobre essas pessoas, e passamos a dar uma mão para preservar aquilo. O objetivo final é não dedicar mais o mato, valorizar o povo da floresta.” Ele defende a derrubada das idéias pré-concebidas, e espera que seu trabalho ajude a estabelecer uma imagem mais realista sobre o assunto. “[No livro], a mulher conta como pode fazer moda com um pano, um tipo de linha, uma agulha. Na minha concepção, os verdadeiros artistas plásticos estão lá, não aqui.”

Segundo pesquisas informais, Martinelli estima que o desmatamento pode acabar com a Amazônia em 20 anos. Em uma viagem de avião de São Paulo a Manaus, ele costuma observar o tempo de mata fechada sobrevoada. “Há 30 anos, dava uma hora e quarenta de ‘matão’ - até eu ver de novo a primeira estrada, o primeiro telhado. Hoje dá quarenta minutos”, diz. “O avião não mudou a rota, continua na mesma. Perdemos uma hora de Boeing, a 900 km/hora! Não preciso de foto de satélite [para notar a devastação]. Eu ando a pé nos mesmos lugares onde andava 30 anos atrás. Minha conta é prática e real.”

Na entrevista abaixo, Pedro Martinelli explica como funciona o “sistema escaninho de hotel” que usa para elaborar seus livros, além de contar detalhes sobre a vida na floresta amazônica.

Último Segundo - As fotos do livro novo foram tiradas na mesma época do “Amazônia - O Povo das Águas”?

Pedro Martinelli - Na verdade fazer livro na Amazônia é igual colecionar figurinha: você vai comprando os envelopes, colando no álbum... Aí ficam faltam três ou quatro que são chaves.

US - Quais foram essas “figurinhas difíceis” no “Mulheres da Amazônia”

Martinelli - As “carimbadas” foram as que arredondaram o tema. Essas fotografias só têm peso, valor, em conjunto. Não trabalho pela fotografia em si, trabalho pelo conjunto. Quando fiz as mulheres trabalhadoras da construção civil, trabalhando em barragens, em armações a mais de 90 metros do chão, essa era uma chapa “carimbada”. E ela também me deu um direcionamento no livro. Fui até Tucuruí [sul do Pará] só para tirar essa foto. Eu não acreditava quando vi uma mulher com cinto de segurança passando no meio das pernas - achei que era um peão qualquer. Quando ela tirou o capacete, vi que era uma mulher.

US - O livro novo tem imagens de floresta, índios mas também tem de cidade. Essa oposição faz parte do conceito dele?

Martinelli - Eu acho que ele pode ser uma terapia para a mulher urbana. Essa mulher da Amazônia pode ter respostas para a mulher urbana, que estão em um beco sem saída. Não enxergo nada além do shopping center, do consumismo, de Paris, de Nova York - que são os objetos de consumo. A revolução da mulher amazônica é muito maior, proporcionalmente. Ela está saindo da cozinha da obra de Tucuruí para ser operadora do maior guindaste do Brasil. Eu não vi ainda, na cidade, uma mulher jogando futebol de sutiã. Na Amazônia elas jogam.

US - Quando você tira as fotos já pensa em que projeto vai encaixá-las?

Martinelli - Claro, agora já estou no próximo, com muita foto. No meu site já tem um título chamado “Amazônia Real”. Vai ser o próximo livro, é sobre toda a desgraça que eu vi lá nos últimos anos. [É sobre] todos os tipos de coisas que as pessoas não dão a menor bola, mas que são predatórias - desde o artesanato indígena até a construção de uma estrada.

US - Como você escolhe os temas?

Martinelli - De acordo com as pesquisas em campo. Levanto as pautas durante as andanças e vou distribuindo [as fotos] como se fosse em um escaninho de hotel. Vou colocando cada coisa no seu escaninho. As idéias vão vindo assim, e com a vida aqui em São Paulo. A constatação de que é preciso fotografar, fazer essas coisas, é feita aqui em São Paulo.

US - Como foi o início da sua paixão pela Amazônia?

Martinelli - Não foi que eu caí lá e me apaixonei de repente pela Amazônia. Foi a história de um mateiro. Meu pai era mateiro, só pensava em mato. Eu morava em Santo André, que naquela época era mata atlântica virgem. Naquela época se caçava, a caça era aberta, e íamos com a arma em um trem - e depois voltávamos com a caça no trem. Isso mudou, mas eu vivi. Aprendi a sentir o cheiro do mato na roupa do meu pai desde quando eu era recém-nascido.

Ele voltava do mato, me pegava no colo, e aquele cheiro era uma coisa inesquecível. Até hoje me lembro. Nasci assim, cresci assim. Até o dia em que virei jornalista. Em “O Globo”, como fotógrafo, minha primeira pauta foi acompanhar a expedição de contato dos irmãos Villas-Boas com os índios gigantes, os kranhacãrores [hoje panará]. A Amazônia foi a minha pós-graduação em mato - e também de vida. Minha universidade se chama Cláudio Villas-Boas. Fui crescendo e fui observando. No próprio trabalho fui trazendo a Amazônia para mim, sempre quis ir para lá.

US - Quando foi a última vez que foi para lá?

Martinelli - Faz uma semana... Fui fazer um sobrevôo em torno do Xingu, para registrar o avanço da soja. É um trabalho que estou fazendo com o Instituto Sócio-Ambiental (ISA). Já fizemos isso algumas vezes, eu e o André Villas-Boas. Se tiver alguma imagem que me interesse, posso usar em um dos meus próximos trabalhos. Mas, nesse último caso, fui fazer uma coisa bem específica: gravar em vídeo, então tirei poucas fotos. Faço qualquer coisa para ir para lá. Estou sempre lá.

US - Você sabe quantas vezes já viajou para lá?

Martinelli - Isso não dá para dizer, mas passo seis, sete meses, viajando. Não tenho idéia de quanto [desse tempo] é [passado] na Amazônia. Acho que é uma média de duas vezes por mês. Fui umas 20 vezes neste ano.