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Frank Gehry, no novo Disney Hall em Los Angeles
Frank Gehry, o aclamado arquiteto do Museu Guggenheim em Bilbao, na Espanha, preparou-se extensamente para a inauguração do Walt Disney Concert Hall em Los Angeles, ocorrida no dia 23 de outubro. Desde 1996, o editor vencedor do Nobel Nathan Gardels e Gehry conversam sobre a arquitetura e o “planeta pós-urbano”. Gardels e Gehry revisitaram alguns de seus temas favoritos em Santa Mônica, no dia 1º de outubro.
Leia abaixo:
Nathan Gardels: Você comentou uma vez sobre sua fascinação pela escultura dançante de Shiva no Museu Norton Simon (em Pasadena, na Califórnia). E você parece ter tentado capturar esta “emoção congelada”, como você a define, em parte do seu trabalho. O Museu Guggenheim em Bilbao, na Espanha, e o seu novo Walt Disney Concert Hall em Los Angeles também representam essa conjunção de quietude e ação, ordem e desordem.
Apesar de você ser amplamente considerado um “desconstrucionista”, lançando fragmentos desconectados em seus prédios, não há uma síntese, uma unidade escondida, o encontro de eras passadas e do passar do tempo, em seus projetos?
Frank Gehry: Você está certo. Tudo se resume ao senso de movimento. Quando eu olho para fora da porta, o que eu vejo? Um avião passando, um carro. Tudo se move. Esse é nosso ambiente. A arquitetura deve mexer com isso.
Por exemplo, a melhor forma de ver o prédio que eu construí em Bad Oyenhausen, na Alemanha, é cruzar a estrada, sentar-se do outro lado e olhar. Grandes caminhões passam. Quando eles vêm pela estrada, eles se encaixam na forma do prédio. O movimento dos caminhões não conflita com a inércia do prédio, mas se integra a ele.
Eu não fiz isso de propósito, mas intuitivamente. Esse prédio me impressiona tanto quando o Shiva dançante. Eu costumava me sentar e só observar a estátua do Norton Simon. Era uma escultura impressionante. Eu juro que ela se movia. Como eles faziam aquilo?
Eu tive uma impressão similar quando vi o Elgin Marbles. O escudo dos guerreiros parecia empurrar o ar. Você podia sentir o movimento. Quando eu ia para os subúrbios, e via aqueles grandes complexos habitacionais em desenvolvimento, eu ficava fascinado. Você via fila após fila de estruturas de madeira subirem com pilhas de madeira. Era realmente vibrante. A construção parecia bem melhor que a finalização das casas.
Costumava fantasiar: como seria se você lançasse todas essas pilhas de madeira no ar e congelasse o momento? Seria magnificente. Na verdade, o grande órgão no novo Disney Hall tem um pouco disso.
Gardels: Por trás da aparente desconexão das vigas de madeira nós descobrimos uma unidade, essa conjunção de tempo passado e tempo futuro. O chamado pós-modernismo, aparentemente, nos conduziu à porta de entrada dos anciãos que conceberam o Shiva.
Gehry: Tudo já foi pensado. Eu me conforto nisso.
Gardels: Octavio Paz, o poeta mexicano, rejeitou o termo “pós-moderno”. Ele acreditava que havia rachado totalmente com a modernidade, e agora viveria em um “tempo sem medida, ou tempo puro”.
O que ele queria dizer é que a modernidade abandonou a tradição na busca da prometida terra do amanhã, após o fracasso do comunismo e do “progresso”, e agora não acreditamos mais no futuro, na utopia. Isso nos deixa abandonados na tabula rasa do presente temporário permanente. O tempo puro não é otimista ou pessimista, ele é livre.
Em Los Angeles, não há a utopia nem as ruínas – o centro da cidade foi completamente destruído quatro vezes nos últimos cem anos. Criar arquitetura lá deve ser como construir em um “espaço puro”, como a idéia de Paz. Na verdade, seu ensaio, “The Creative Individual and Cultural Conservatism”, é essencialmente um manifesto do espaço puro, da criatividade sem a restrição do contexto.
É até possível dizer que o Disney Hall é mais um símbolo perfeito de Los Angeles que seus patrocinadores imaginaram. O tempo puro se encontra com o espaço puro na ação congelada dessas ondas metálicas. Essa é a nossa realidade hoje.
Gehry: Eu suspeito que há alguma verdade aqui, isso eu juntei com algo que acontece; meus prédios representam uma certa forma de visão. A um nível pessoal, entretanto, é difícil reivindicar essas coisas.
Eu não sou um teorista, mas um aspirador de pó. Eu ouço. Eu olho. E então eu re-apresento com minhas ferramentas. Quanto ao espaço puro do presente, há uma série de restrições. Por que nossos líderes, e o público em geral, querem viver no passado? Parece que quanto menos fé eles têm no futuro, mais eles querem ancorar sua identidade no passado. Mas o passado acabou. É uma ficção da nossa insegurança. Ancorar a arquitetura no passado é construir parques nostálgicos. É substituir o patrimônio. E é uma negação.
Gardels: O outro lado da visão que arremete as âncoras é que nossa condição contemporânea temporária (você projetou um museu em Los Angeles com esse nome) é um tipo de vazio. Compreensivelmente, todos nós buscamos um laço ao eterno, a algo permanente, a um centro. Em uma conversa com o escritor americano Joan Didion, nós dois concordamos que seria uma indignidade enterrar L.A. A superfície cultural da cidade não é profunda o suficiente para uma boa tumba.
Meu pesadelo póstumo seria ser enterrado em um desses túmulos ao longo da estrada que conduz ao aeroporto. Eu posso ter uma imaginação melhor vendo minhas cinzas serem espalhadas pelo vento nas ruínas do Monte Alban em Oaxaca em meio àqueles blocos de pedra.
Gehry: Eu prefiro que as minhas cinzas sejam jogadas no mar. O mar é permanente, ainda que móvel.
Gardels: Arata Isozaki, o arquiteto japonês que construiu o Museu de Arte Contemporânea de L.A., me disse que gosta de construir nos EUA porque não há ironia. Relativo às sociedades mais antigas, como a do Japão, não há um território ancestral, e, portanto pouca, se alguma, distância entre o contexto e qualquer novidade que você quer criar.
Não há conflito com a história nos EUA, que, como o filósofo francês Jean Baudrillard afirmou, é essencialmente “espaço mais um espírito de ficção” – em outras palavras, espaço puro.
Isozaki contrastou seu prédio da administração da Disneyworld, em Orlando, com seu concert hall em Kyoto. Lá, os tradicionalistas lutaram contra seu projeto como inadequado ao centro espiritual do Japão. Isozaki argumentou que Kyoto era pouco mais que um parque temático, onde os ônibus de turistas descarregavam grupos de japoneses em busca de um passado que não tem nenhuma realidade para eles hoje.
“Eles poderiam também usar orelhas do Mickey Mouse”, disse Isozaki aos irritados tradicionalistas. Com a chegada do espaço puro, o autêntico se torna não-autêntico, e vice-versa.
Gehry: Pensando assim, eu concordo. Ao mesmo tempo, entretanto, há, é claro, algo de diferente. Kyoto cresceu de uma cultura refinada de séculos. A cidade desenvolveu um método de construção e uma estética que significa algo. Ela foi modelada em uma prova de tempo, sentimento e cultura relacionada à ligação espiritual com a natureza. Quando eu levei meus filhos para lá, isso se tornou uma parte importante de sua experiência.
A DisneyWorld não é isso. É um passeio. Uma fantasia. É um filme. Kyoto não é isso. A cidade pode ser abusada como um parque de diversão agora, como Isozaki diz. Mas suas origens são reais. E é tão valioso ver Kyoto quanto ver Picasso.
Gardels: Rem Koolhaas, o arquiteto holandês, declarou que a cidade como a conhecemos desapareceu. Nós chegamos na era da “cidade genérica”, liberada do “cativeiro do centro” – e a personalidade, identidade e restrições associadas a isso. Ligados ao ciberespaço, nós vamos viver na periferia flutuante. Devemos deixar nossos vagos arrependimentos para trás e abraçar o futuro?
Gehry: Isso é liberdade. Eu suponho que seja o espaço puro sobre o qual você vem falando. E Rem provavelmente está certo de que essa forma vai cobrir a maior parte do planeta.
Gardels: Qual a sua cidade favorita?
Gehry: Tóquio é a minha cidade favorita visualmente. Ela tem parcialmente a densidade que eu gosto, mas também a qualidade transitória. Eles têm a história, mas não param no tempo por causa dela. Em uma rua você encontra um templo ao lado de um prédio de oito andares da década de 50 logo ao lado de um prédio de 30 andares construído em 1970.
Então eles abusam dos cartazes de neon, e colocam uma estrada no meio de tudo. É dinâmica. Ao longo das estradas e pelo centro da Baía de Tóquio, eles constroem esses centros de convenção gigantes. Mas eles são elegantes, mais inseridos na arquitetura do que você encontraria nos EUA. Eles estão plugados em um senso de estilo.
Então eles constroem aqueles estranhos resorts de esqui que parecem a Torre Eiffel. É estranho, mas bonito. Eu vejo em Tóquio hoje o que vejo em meu escritor favorito, Salman Rushdie. Ele é como James Joyce, seus romances são casuais e ilimitados; eles se espalham, em sete direções diferentes ao mesmo tempo. As personagens têm camadas de identidade, identidades plurais.
Agora, quando eles partem para o próximo passo, como já fizeram na área Shinjuku de Tóquio, só há prédios de 50 andares e parece a 6º Avenue em Nova York. Então eles se perdem. Quando eles crescem dessa forma, eles precisam de mais espaço. E é aí que eles se superam.
Gardels: Qual é a sua imagem da cidade do futuro? Para Koolhaas, as velhas cidades da Ásia darão espaço para a Cidade Genérica conforme elas são destruídas com mega-estruturas para acomodar um dilúvio demográfico. Isso vai acontecer de uma forma ordenada, como em Cingapura, ou não, como em “Blade Runner”. Simplesmente, como Koolhaas define, “o passado é muito pequeno para ser habitado”.
Gehry: Eu não sei se seríamos capazes de especular sobre o futuro. Nós sabemos as partes, mas não sabemos como o agregado disso será. Eu não tenho esperança de que será muito animador. Hoje, há bolsões de sanidade que são de uma escala ainda visível no caos. No futuro, os bolsões de sanidade vão diminuir. Talvez então os prédios que eu faço, que parecem se mover, se desmaterializem. A mega-escala vai dominar todo o resto.
Na Ásia, com todo seu rápido crescimento, eles estão interessados na construção, não na arquitetura. Eu fui convidado a visitar a China, mas recusei o convite porque sei que as pessoas construindo na Ásia são os Donald Trumps. Donald Trumps chineses. Como um amigo meu diz, isso já acabou na China.
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