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A “Amelização” de Paris

Por Elaine Sciolino, para o "The New York Times"


Esse é o período de peregrinação em Paris para locais sagrados como a Torre Eiffel (agora decorada com 20 mil luzes que piscam) e o Louvre (com um parque de diversões anual no Jardim das Tulherias, na vizinhança). E também existem novas atrações, como um café e um verdureiro nas sombras de Montmartre, tudo por causa de uma heroína travessa, mas bem intencionada, de 23 anos, cujo nome é Amélie Poulain.

“O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, um filme inusitado de baixo orçamento dirigido por Jean-Pierre Jeunet, foi indicado para cinco Oscars e já foi visto por mais de 25 milhões de pessoas desde seu lançamento em 2001. No filme, lançado na França como “Le Fabuleux Destin d'Amelie Poulain'', a personagem título, interpretada pela atriz francesa Audrey Tautou, é uma boa fada que comove amigos, parentes e mesmo estanhos com seus atos anônimos de generosidade.

Agora o espírito do filme tem se espalhado para um canto de Montmartre onde o filme se passa, e os locais da vida real freqüentados por ela têm lucrado com sua magia, criando um culto de Amélie, particularmente entre turistas estrangeiros que buscam seguir seu rastro. Os franceses chamam o fenômeno de “Amélie Poulainização” do bairro.

A mágica parece ter se espalhado até mesmo além de Montmartre. Em maio, o designer Lancel introduziu uma linha Amélie de roupas, bolsas e sapatos estranhos estampados com mapas dos marcos de Paris. Um porta-voz da companhia, no entanto, afirmou que não há ligação com o filme, e que o modelo do tecido foi tirado de um cartão de saudações dos anos 50. Uma bolsa pintada a óleo fabricada em couro vermelho é vendida por US$354, um carrinho de feira pintado a óleo sai por US$295 (os preços são convertidos a uma taxa de US$1,18 em relação ao euro), muito mais caro do que qualquer coisa que Amélie Poulain tenha possuído.

“O filme foi como uma nuvem de felicidade, na qual todos no mundo gostariam de flutuar”, disse Laure Morandian, o chefe da associação do bairro de Montmartre. “Há momentos do filme que alcançam algo universal e também capturam o espírito de Montmartre como uma vila onde mesmo que todo o mundo nos visite, ainda conhecemos todos os lojistas”.

O mundo de Amélie não é a Montmartre da basílica de cúpula branca do Sacre-Coeur ou dos pintores de retratos instantâneos da Place du Tertre, próxima às lojas de sexo e de strip-tease do Boulevard de Clichy.

Essa é a rapidamente renovada, porém fechada área de Abbesse, logo acima da original casa de shows Moulin Rouge. Há um jornal que sai duas vezes por mês chamado “La Gazette de Montmartre: A Voz do Vilarejo”, que ainda relata os eventos do bairro como nascimentos e casamentos, encontros de negócios e exposições de aquarelas.

O Café des Deux Moulins, na Rue Lepic, onde Amélie trabalhou como garçonete, tornou-se um dos locais mais freqüentados no bairro desde a estréia do filme. Quando seu antigo dono, Claude Labbe, anunciou que estaria vendendo o café no ano passado, houve rumores de que ele se tornaria um bar com tema Amélie, ou, pior, um restaurante de fast-food.

Marc Fougedoire, o novo proprietário, eliminou a clássica banca de cigarros, um importante ponto focal no filme, para dar mais espaço às mesas. Toalhas de mesa foram trocadas por toalhas de papel.

Mas o balcão de cobertura de cobre, o teto de cor mostarda, as cortinas de laços e a decoração dos anos 50 foram preservados, incluindo as lâmpadas de néon na parede. Também continua o banheiro unissex, o cenário da união empolgada entre Georgette, uma vendedora hipocondríaca de cigarros, e Joseph, um cliente rude cuja vida acaba transformada pelo amor. Não há fotos brilhantes autografadas pelas estrelas do filme, nenhum artigo cortado de jornais, mas apenas pôsteres de Amélie no filme pendurados na porta da frente e na parede de trás. O fumo é permitido; há uma área para não fumantes.

Com exceção de um almoço de domingo, o cardápio é basicamente o mesmo, e inclui uma salada verde com queijo de cabra quente, três pastéis “Deux Moulins”, bife au poivre e miolos de porco com lentilha. O hambúrguer vem com um ovo no topo. “Foi realmente amor à primeira vista”, disse Fougedoire sobre sua decisão de comprar o café. “Fomos cuidadosos para não mudarmos nada, com exceção da banca de cigarros, que não agradava aos fumantes e não parecia muito autêntica. Poderíamos ter deixado o café mais com estilo Amélie, mas queríamos que continuasse um autêntico café parisiense”.

Turistas e veteranos competem por espaço, mas nem todos estão contentes. “Não há tabaco”, lamentou Shinobu Otsubo, um estudante intercambista japonês em Paris que já viu o filme quatro vezes. “Que pena. Foi o símbolo do filme”. Outros são hipnotizados. “Isso é charme, isso é magia”, disse Sebastian Metzger, um estudante de 19 anos de Stuttgart que havia visto o filme várias vezes e estava seguindo a rota de Amélie Poulain. “E é tão simples e puro”.

O café é agora tão chique que um especial de 14 páginas de moda na edição de agosto da Vogue francesa foi fotografado lá. Ali Mdoughy, o verdureiro marroquino que possui a loja Au Marche de la Butte na Rue de Trois Freres, uma peça importante na trama, manteve a placa que rebatizou a loja nas cenas do filme como “Maison Collignon, fundada em 1956”. Era lá que Amélie comprava regularmente três avelãs e um figo.

Mdoughy, dono da loja por 30 anos, é bem diferente do verdureiro no filme, um francês tirano que humilhava publicamente seu empregado argelino, o único não francês no filme. Mdoughy passou a gerência da loja para Rachid Assab, seu irmão, e agora cuida de uma padaria no final da rua. Ele até mesmo pensou – por pouco tempo – em nomeá-la Padaria de Amélie e criar um chocolate em seu nome.

A loja é mais elegante do que as típicas mercearias de esquinas que costumam ser administradas por imigrantes árabes e ficam abertas até tarde nos domingos. Frutas são expostas em cestas de vime enfeitadas com arbustos de plástico. Uma fotografia de Amélie no filme está emoldurada e pendurada na parede. Cartões postais da mercearia são vendidos por US$1,15.

Mdoughy criou um website (www.epicerie-collignon.com) que apresenta um mapa do “caminho de Amélie”, e lançou um CD chamado “Ali: L'Epicier de Montmartre'', com músicas antigas de Montmartre, melodias Berber com batidas eletro e suas reflexões pessoais sobre a vida e legumes. O CD foi gravado principalmente na mercearia, por um vizinho músico cliente da loja há 20 anos. ``Amélie,'' comentou Mdoughy, “mudou minha vida”.

O filme foi particularmente popular no Japão, e há tours liderados por guias japoneses; em janeiro, o site-guia da Michelin, www.viamichelin.com, publicou um itinerário de duas horas do mundo de Amélie (ele pode ser encontrado nos arquivos).

Entre os locais obrigatórios de visitas estão o antigo carrossel na Place St. Pierre, onde Amélie teve um encontro com seu futuro amor. O jardim no terraço que leva ao Sacre-Coeur; a estação de metrô Lamarck-Caulaincourt, onde Amélie ajuda um homem cego; e o Canal St. Martin, no 10º Arrondissement, com suas trancas, pontes de ferro e novas lojas e cafés.

Parte da atração do filme, e parte do que leva as pessoas a esse bairro, é que ele oferece uma visão nostálgica de uma Paris que não mais existe, e que talvez nunca existiu. O filme tem sido aclamado como charmoso e agradável e criticado por ser doce demais e até mesmo fascista. Não há grafites ou lixo no metrô. Ao fazer este filme, Jeunet limpou as ruas de tráfego pesado, removeu os grafites das paredes e usou lentes rosa e douradas.

O diário comunista “L´Humanite” culpou o filme por mostrar uma Paris “livre de imigrantes, uma Paris bem limpa”, acrescentando: “Não está declarado, mas todos sabem que o ‘Amélie Poulain’ é um filme fascista”.

De qualquer modo, Jeunet foi homenageado com a Ordem Nacional de Mérito pelo presidente Jacques Chirac, que afirmou que ter assistido ao filme no Elysee Palace lhe proporcionou “uma das melhores tardes de minha vida”. Em um discurso pouco depois da estréia do filme, François Fillon, atualmente o ministro do trabalho e de relações sociais da França, pediu à França que se tornasse mais “gentil”, com mais “tolerância e fraternidade, algo como a França de Amélie Poulain”.

A descoberta do mundo de Amélie também gerou alguma tensão entre os clientes freqüentes do bairro e os invasores de fora. Artistas de tatuagens, bares de fast-food e lojas baratas de roupas substituíram comerciantes antigos. Os preços das propriedades subiram ainda mais depois da produção do filme, e no ano passado o Villa Royale, um luxuoso hotel onde os mais baixos preços de quartos ficam em US$285, foi aberto na Rue Duperre nas cercanias da Place Pigalle.

Isso foi visto como uma vitória para moradores e comerciantes quando o comerciante de queijos Michael Catherine se aposentou e conseguiu vender sua loja para outro comerciante de queijo há alguns meses. Mas o peixeiro que costumava gritar: “Coma bons peixes e você terá belas crianças” se foi.

O bairro que uma vez foi o reduto dos operários tornou-se ainda mais elegante do que antes. Frangos rodando em espetos em restaurantes são vendidos por um açougueiro do bairro do mesmo modo apresentado no filme, por mais de US$16 cada. Lichias de Madagascar e trufas pretas estão disponíveis nos mercados.

“Amélie Poulain fez com que os preços, especialmente preços de propriedades, decolassem”, disse Annic Journet, enquanto jantava bife com chicórias cozidas no Café des Deux Moulin, falando como se Amélie fosse uma pessoa de verdade. “Os preços realmente estão subindo, mas o filme criou ainda mais movimento no bairro”, acrescentou Journet, que vive com sua irmã no bairro por 25 anos. “As pessoas se aproveitaram desse movimento para fazer grandes negócios”.

Quanto às mudanças no café desde o filme, “Costumava ser mais como uma vila”, disse. “Havia mais rostos do bairro. Rue Lepic. Rue Montmartre. Agora são turistas. Agora achamos que o serviço é encantador e eles sorriem mais. Mas nós temos que ir a outros lugares”.

Amélie em foco

Cafe des Deux Moulins, 15, rue Lepic; (33-1) 4254-9050; Metrô: Blanche.
Clássicos como salade frisee aux lardoons (US$8,85, com US$1,18 para o euro) e um demi-Camembert com uma taça de Cotes du Rhone (US$7).

Au Marche de la Butte, 56, rue des Trois Freres; (33-1) 4264-8630; Metrô: Abbesses. Fechado às segundas. Uma loja de conveniências tradicional em bairros franceses que ainda se parece muito com a epicerie do filme. O CD do proprietário custa US$24.

Um passeio no carrossel na Place St. Pierre custa US$2,50. Metrô: Anvers. Aberto diariamente.

A cena em que Amélie joga pedras no Canal St. Martin acontece no 10º Arrondissement, no dique do rio, que fica na esquina da Rue des Vinaigriers e da Rue de la Grange-aux-Belles.

Elaine Sciolino é chefe do escritório de Paris do “The New York Times”.