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Por Paulo Terron, repórter iG em São Paulo
SÃO PAULO – Com o frio, nada melhor do que um cineminha e boa companhia. Se o dinheiro for o suficiente, claro. Em um fim de semana ou feriado, com pipoca e refrigerante, essa aventura pode sair por até R$ 59* na capital paulista.
O preço da entrada varia entre R$ 5 e R$ 14, com uma média geral de R$ 11,25. Os itens gastronômicos também têm preços diversos: a pipoca pequena fica entre R$ 2 e R$ 3, e os refrigerantes médios, entre R$ 2 e R$ 3,50**.
Para Valmir Fernandes, presidente da rede multiplex Cinemark no Brasil, o valor do ingresso corresponde aos gastos que a empresa tem para sustentar o negócio – e também aos investimentos em tecnologia. “Se a pessoa paga mais, é porque acha que tem mais benefícios.” Mesmo o preço da comida, segundo ele, acaba afetado. “A tendência é de comparar com as redes de fastfood, mas [o cinema] é um outro negócio, uma outra realidade. O volume e a estrutura de custos são diferentes.”
Do lucro total da rede Cinemark brasileira, entre 20 e 25% vêm do setor de alimentação, uma área de atenção especial para a empresa, como lembra Fernandes. “Os cinemas que não explorarem corretamente esse setor vão quebrar. Se não tiver [esse lucro], não vão conseguir manter uma sala. A decisão de consumir - ou não – parte da pessoa. Ela pode escolher.”
São Paulo tem por volta de 60 cinemas. Dezoito deles são “de rua”, ou seja, não são multiplexes ou estão em shopping centers. Desses, nove são salas de arte, com a programação voltada para filmes alternativos à programação regular.
E é exatamente a diferenciação de estilo que ajuda as salas de rua a sobreviverem. “Insistimos em manter o estilo cultural, de arte, para não entrar na tentativa de competir com os shoppings. Por isso os multiplexes não nos ameaçam”, explica Vilma Peramezza, síndica do Conjunto Nacional, que promoveu uma campanha para salvar o Cinearte. O primeiro passo foi uma maratona de filmes, que foi vista por 1.600 pessoas no fim de abril. “Arrecadamos sete mil assinaturas no abaixo-assinado”, conta, referindo-se ao documento de apoio ao movimento.
Os resultados concretos foram a redução do preço da taxa de condomínio e do aluguel e a reforma do sistema de ar condicionado. “O pessoal da garagem também concordou em diminuir o preço”, lembra Vilma. “Os cinemas multiplex são âncoras de shopping, então são subsidiados por eles, e têm suas contas rateadas com restaurantes e lojas”, diz.
Como praticamente todos os estabelecimentos comerciais do Conjunto Nacional são ligados à arte, o condomínio pensa até em criar um “Hall da Fama”, no qual os artistas deixariam marcas de suas mãos. Agora a meta é conseguir diminuir o IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), além trocar o equipamento de projeção e som.
Para o presidente da Cinemark, são exatamente esses problemas técnicos – que estavam em um estado ainda mais lastimável quando a empresa começou a atuar no Brasil, em 1997 - que levam os cinemas pequenos a não suportarem a concorrência. “Não se trata de um matar o outro. [Antes da chegada dos multiplexes] os cinemas de rua chegaram a um ponto [de qualidade] em que não deveriam mais estar operando – por falta de concorrência no mercado. Era um estado de deterioração brutal. Eles baixam o preço das entradas porque é muito ruim. Nós temos de repor os investimentos.”
A administração do Espaço Unibanco se encontrou em uma situação peculiar em 2001: o espaço de arte teria de disputar público com um multiplex de arte, o Unibanco Arteplex, de propriedade do mesmo grupo, localizado em um shopping do mesmo bairro. “No primeiro ano houve uma pequena baixa [de espectadores] no Espaço, mas que já foi recuperada”, explica o diretor de programação dos dois cinemas, Ademar Oliveira.
Em 2002, cerca de 750 mil pessoas passaram pelas nove salas do Arteplex – número que deve chegar a um milhão em 2003. Já o Espaço Unibanco tem entre 400 e 600 mil pagantes por ano. “Nele, trabalhamos o consumidor que não gosta de shopping. O perfil é bastante específico: filmes de arte, brasileiros, alternativos”, explica.
“Acho que o número de salas de rua provavelmente diminuirá ainda mais, mas não sei se a ponto de se extinguirem”, opina o tradutor Paulo Migliacci, que está longe de ser um entusiasta dos multiplexes. “Talvez reste a meia dúzia de salas de rua a que vou regularmente, ou coisa que o valha.”
Ele acredita que as tais vantagens anunciadas pelos grandes grupos de cinema não são perfeitas, e que os preços altos também não ajudam muito. “Quase todos ficam em shopping centers, são mais caros e têm programações idiotas, para não mencionar o pesadelo do estacionamento lotado”, explica. “Além do mais, boa parte dessas salas de exibição multiplex fica em shopping centers localizados na casa da mãe Joana. Já me aconteceu de não ir assistir a um filme que me interessava porque as opções eram Aricanduva 4, Guarulhos 7 e Botswana 23.”
Isso, no entanto, não quer dizer que Migliacci freqüente qualquer sala de rua. “Quando são muito ruins, desencano.” Ele cita o caso do Belas Artes, na Consolação. “Depois de assistir ‘Almost Famous’ com som de pamonha de Piracicaba, eliminei da minha lista.”
Para o engenheiro Cesar Alves Correia, a situação é bem diferente. Ele acredita na praticidade dos multiplexes. “As grandes redes tem várias salas concentradas num mesmo local. Se você chega em cima da hora e não há mais lugares para o filme que você havia planejado, ainda dá pra ter uma segunda escolha e você não perde a viagem.”
A tecnologia de som e imagem também pesa na opção, assim como os recursos das poltronas. “O som é fator decisivo. As tecnologias como o DTS [Digital Theatre System, um sistema de áudio de vários canais de som] fazem a diferença. Já com relação às poltronas, muitas delas ainda tem a barra de apoio de braço fixa, o que dificulta ficar mais juntinho da namorada. Esse fator poderia ser mais explorado.”
A localização das salas em shopping centers, para ele, é vantajosa na hora de achar uma vaga para estacionar o carro. “Além da falta de segurança e da dificuldade de estacionar [nas salas de rua], muitas delas estão defasadas tecnologicamente. Perderam também o ‘glamour’ do passado, e algumas se transformaram em verdadeiros pulgueiros.”
A solução pode estar em casa. Pelos R$ 59 gastos pelo casal, pode-se comprar um lançamento em DVD – e ainda sobra dinheiro para a pipoca, já que o saco de milho custa entre R$ 1,50 e R$ 2,50 nos supermercados. “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres”, DVD duplo atualmente em pré-venda, sai por R$ 44,90. Uma edição restaurada e repleta de extras de “A Doce Vida” sai por cerca de R$ 30.
Caso escolha a locação, o consumidor pode alugar uma média de oito filmes (descontados R$ 3,80 para comida e bebida). A opção é bem aceita até pelos exigentes freqüentadores dos multiplexes, como Correia. “O cinema só vale a pena com ingresso antecipado (comprado na internet, por exemplo). Com ele na mão, tudo bem. Do contrário, o DVD certamente já ganhou minha preferência, especialmente pelo curto espaço de tempo que os filmes demoram hoje pra chegar às locadoras.”
Apesar dos altos preços dos multiplexes e da aparente crise dos cinemas de rua, o público parece não se desanimar. Pelo menos essa é a conclusão tirada pelas empresas. “Quem fala que São Paulo tem muitas salas não conhece o mercado. A Cidade do México tem três vezes mais”, conta o presidente da Cinemark, que deve abrir uma nova filial no Shopping Aricanduva ainda no segundo semestre de 2003. Serão cinco salas, sendo que uma delas será a maior do Brasil, com 550 lugares.
Recentemente a capital paulista ganhou o Kinoplex, no Itaim, com seis salas, e o Playarte Bristol, na avenida Paulista, com sete. Estima-se que ao fim de 2004 o Brasil teve ter aproximadamente duas mil salas de cinema.
*Considerando os preços mais altos de entradas, pipoca em refrigerantes.
**A definição de “médio” para refrigerantes varia de cinema para cinema, ficando entre 500 ml e 700 ml. Algumas salas vendem apenas refrigerantes em lata (350 ml).
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