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Faaaala, Lula

Por Rodrigo Miotto, repórter iG em São Paulo


O melhor político é aquele que pensa e não fala. Afinal, não é uma boa política falar durante muito tempo. Esses conselhos foram dados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em alguns de seus 108 discursos, declarações ou mensagens nos seis primeiros meses de governo petista.

Lula não falou pouco. Somadas todas as vezes que abriu a boca em público, foram cerca de 200 mil palavras. A título de comparação, o presidente superou os 160 mil verbetes da última versão do dicionário Aurélio. Ele perde, entretanto, para o Houaiss, com 228 mil verbetes que, óbvio, nunca se repetem. Os discursos de Lula, sim.

Reunidas num calhamaço, as falas do presidente quase chegariam ao tamanho do quinto episódio do bruxinho mais famoso da atualidade. O livro “Harry Potter a Ordem de Fênix”, da autora J.K. Rowling, tem 255 mil palavras e 896 páginas.

Lula pode não ter toda a popularidade de Potter, mas não encontra muitas resistências a seus discursos, várias vezes improvisados. Até agora, foi vaiado por uma minoria em apenas duas ocasiões. Geralmente, o presidente se vale do repertório popular para tentar fixar, repetidas vezes, sua mensagem. Metáforas, auto-ajuda, autoconfiança exacerbada, carga emotiva, lugares-comuns, otimismo e paciência são elementos constantes nas declarações do presidente.

Corriqueira, a fala de Lula despertou polêmica e reações negativas na última semana de junho. O estilo “paz e amor” deu lugar a um recado duro aos Poderes. “Não tem chuva, não tem terremoto, não tem cara feia, não tem um Congresso Nacional, não tem um Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça esse País ocupar o lugar de destaque que ele nunca deveria ter deixado de ocupar”, afirmou o presidente, sem explicitar quando o Brasil teria assumido esse espaço relevante.

O confronto direto, entretanto, não é hábito nos discursos de Lula. Afinal, “cada um gosta de uma coisa”, pondera o presidente. Ou, ainda, “todo o mundo tem o direito de ser contra, a favor ou muito pelo contrário”.

Quando quer, Lula sabe agradar aos presentes. Recentemente, em Parintins (AM), ao receber um abaixo-assinado, ele inverteu a verve de Graciliano Ramos e reconheceu: “Não li e gostei”. Contam que, quando lhe perguntavam a opinião sobre um livro, o autor de “Vidas Secas” costumava soltar um “não li e não gostei”.

“Beijo no coração”

De origem humilde, Lula reforça a identificação com a população brasileira. Ele quer “provar que um torneiro mecânico pode governar este País com muito mais sabedoria do que ele já foi governado em qualquer outro momento”.

Não raro, o presidente exalta sua condição de pouco estudo e minimiza a escolaridade dos antecessores: “Eu acho que nós já conseguimos, em seis meses, do ponto de vista de política internacional, aquilo que muitos que estudaram a vida inteira não conseguiram fazer”. Lula também ressalta o fato de não falar inglês, mas lembra ao mesmo tempo a boa recepção que tem no exterior. “Eu estou provando que não preciso falar inglês para ser respeitado no mundo.”

Para o presidente, “a palavra universal não é o inglês, o francês, o russo ou o português; a palavra universal é o sentimento”. Esse lado menos racionalista de Lula também é expresso em mensagens como “eu quero dar um beijo no coração de cada homem, de cada mulher, de cada jovem que está aqui” e fórmulas de auto-ajuda do tipo “o homem tem de ser do tamanho do seu sonho”.

Ele lembra, por exemplo, que “a nossa passagem pela Terra tem uma dimensão infinita”. E que “não há ninguém 100% feio e nem ninguém 100% bonito. Ou seja, todo mundo pode ser melhorado”.

A partir desta última frase, pode-se classificar um outro subgrupo de declarações do presidente, o das incontestáveis. “Não existe ninguém 100% inteligente, nem existe ninguém 100% não-inteligente” e “não há nenhum ser humano 100% bom. Também não há nenhum ser humano 100% ruim” são algumas delas.

Existem outras: “No Brasil inteiro, todo mundo fala o português, do Oiapoque ao Chuí” ou “uns acordam mais tarde, outros acordam mais cedo. Uns dormem mais tarde, outros dormem mais cedo. Nem todo o mundo dorme e acorda ao mesmo tempo”.

O futebol, o feijão e o parto

Dentro das metáforas, constantemente há um conselho embutido. “Se o ser humano tivesse consciência de que o seu corpo é mais leve que a água, e se ele tivesse equilíbrio psicológico, ele nunca morreria afogado. Ele só morre afogado porque fica nervoso, não controla a respiração, começa a se bater demais, vai ficando cansado, abrindo a boca e gritando socorro para quem não está ouvindo”, disse Lula em evento na CUT (Central Única dos Trabalhadores).

“Na política, também é assim”, acrescentou o presidente, pedindo, mais uma vez, paciência nas mudanças políticas e econômicas. Nesse ponto, as metáforas são numerosas, mas três elementos são bastante recorrentes: o futebol, o feijão e o parto.

O futebol: “Acontece que, na vida, tem gente que tem pressa. Vocês todos já viram um jogo de futebol. Tem jogador que tem pressa, pega a bola, não olha para o lado, dá uma bicuda e não marca o gol”. A palavra futebol marca presença cerca de 50 vezes nos discursos.

O feijão: “A coisa mais simples, que é um pé de feijão que a gente planta, a gente tem de esperar 90 dias para colher. E, muitas vezes, nós somos afobados. Muitas vezes a gente quer colher antes de plantar. E não dá”.

O parto: “Eu tive de esperar nove meses para ele (filho) nascer. Depois que ele nasceu, eu tive de esperar quase 11 meses para ele andar. Depois, ainda tive de esperar 12 meses para ele aprender a falar papai ou mamãe. Então, por que eu vou fazer as coisas com pressa?”.

O tema da gravidez também já rendeu constrangimento durante a fala de Lula. Ao, novamente, pedir tempo para as mudanças, ele se referiu à sua própria masculinidade, lembrando o “aquilo roxo” do ex-presidente Fernando Collor de Mello: “A coisa que eu mais queria na minha vida, quando casei com a minha galega, era um filho. Ela engravidou logo no primeiro dia de casamento porque pernambucano não deixa por menos. Pois bem, mas tive de esperar nove meses para nascer a criança”. A galega, no caso, era a primeira-dama Marisa Letícia, que estava no palco ao lado de Lula.

Em outra ocasião, Lula deu mais um exemplo inusitado: “Eu aprendi a contar até dez, apesar de só ter nove dedos, que é para não cometer erros”.

O homem infalível

Por diversas vezes, Lula se mostra como o centro da solução para os problemas do País, prometendo até mesmo a infalibilidade. “Eu tenho de fazer e não posso errar” e “somente nós poderemos fazer as reformas” resumem a autoconfiança do presidente. “O Brasil estava quebrado e alguém vai ter de salvar este País”, acrescentou recentemente. Mas uma ajuda é sempre bem-vinda, lembra o orador. “Esta é a hora de cada brasileiro pensar menos em si mesmo e mais no País.”

A referência bíblica está constantemente presente nos discursos. Novamente sobre a salvação: “Se Jesus Cristo precisou ser crucificado para salvar a humanidade, por que cada um de nós não pode colocar um pouco do nosso sacrifício para salvar esse imenso Brasil?”. O nome de deus, a propósito, foi citada aproximadamente 120 vezes pelo presidente.

Tudo isso tem ligação íntima com o otimismo do presidente: “O Brasil está vivendo, possivelmente, um dos momentos mais importantes da história”. Lula se sente “o brasileiro mais otimista que este País já teve”.

Dentro da lógica dos discursos, sonhar para chegar à salvação também é fundamental. Um velho roqueiro foi lembrado pelo presidente: “Não é apenas a música do Raul Seixas que diz que sonhar junto transforma um sonho em realidade. Nós vamos transformar este País juntos”.

A palavra sonho foi citada por Lula quase 70 vezes, na maior parte em tom positivo. Um outro termo recorrente é filho, com quase 120 aparições. O presidente olha para os brasileiros como se estivesse vendo seus próprios filhos, segundo ele mesmo definiu. “Eu sempre trato as decisões que tomo como se eu estivesse fazendo alguma coisa para o meu filho.”

Isso inclui também, periodicamente, um tratamento mais duro. “Às vezes, a gente tem de dizer não para um filho da gente. Faz mais bem para o futuro dele do que a gente não dizer nada para ele”, explica. Esse tipo de declaração encontra eco no ex-presidente Getúlio Vargas, um dos expoentes do populismo na América Latina, conhecido na época como “o pai dos pobres”.

A clareza

Como Lula não recorre à linguagem rebuscada, é difícil encontrar trechos prolixos em sua fala. Mas nem sempre o presidente consegue toda a clareza desejada. Contando não ter encontrado nenhuma mulher na composição original da mesa em um encontro de prefeitos, Lula afirmou: “Eu comecei com isso, para dizer para todos nós aqui, presentes, que os problemas de gênero, além das questões dos direitos que temos de colocar nas nossas Constituições, na nossa legislação, como um todo, tem um problema cultural, tem um problema de prática”.

Com tantas palavras ditas e repetidas, Lula vive um dilema. Ele sabe que “o melhor político é aquele que pensa e não fala”. Mas também está ciente de que “nós temos a boca maior do que os ouvidos".