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Escolas democráticas: o desafio de transformar ilhas de liberdade em modelo educacional

Por Carina Martins, repórter iG em São Paulo


SÃO PAULO - Em um casarão dos anos 30, duas dúzias de crianças se espalham pelos cômodos e pelo quintal. Elas tomam conta de todo o espaço. Algumas pintam, outras dançam. Uma sorridente dupla de meninas de cerca de seis anos brinca de se molhar em uma torneira e convida os visitantes a fazer o mesmo – está calor. À primeira vista, parece um dia de férias. Mas é uma escola.

Olhando mais de perto, percebe-se que as crianças não estão sozinhas. Alguns pequenos grupos se reúnem em torno de adultos para as mais variadas atividades – que vão desde mexer com frutas e legumes até ouvir histórias sobre a cultura judaica, passando por tai-chi-chuan e conversas em inglês. Mas esses grupos são compostos apenas dos pequenos que estão interessados: enquanto alguns fazem esculturas e outros aprendem os sentidos da matemática, quem não tiver vontade de participar dessas atividades pode ir brincar no pé de jabuticaba ou colorir.

A escola Lumiar, em São Paulo, é a primeira representante brasileira do movimento que se convencionou chamar “escola democrática”. “Isso quer dizer, por exemplo, que as aulas não são compulsórias e que crianças e professores administram tudo juntos”, diz Helena Singer, diretora da Lumiar. As escolas democráticas surgiram nos anos 20, na Inglaterra, e reúnem hoje cerca de 200 instituições ao redor do mundo. A idéia fundamental é a da liberdade de escolha das crianças, inclusive no que diz respeito a como, o que e quando aprender. A voz dos alunos é tal que na instituição mais famosa do gênero, a inglesa Summerhill, os alunos decretaram a expulsão do próprio fundador – que depois teve permissão para voltar.

Mesmo entre as escolas que se encaixam na definição “democrática”, existem diferenças cruciais. A Summerhill, por exemplo, é um internato, e segue um currículo quase tradicional, apesar da liberdade de assistir ou não às aulas e da participação ativa dos alunos. O projeto brasileiro foi desenvolvido de forma individual. “Na verdade, não existe aula, nem horário”, explica Singer. O currículo como o conhecemos também não está lá. A função dos professores também é diferente. Quem ensina na Lumiar e nas demais escolas do gênero são profissionais dos mais diversos tipos: atores, psicólogos, cozinheiros. No lugar de currículo, um mosaico que abrange as áreas do conhecimento exigidas pelo Ministério da Educação.

O projeto funciona da seguinte forma: as crianças – que por enquanto têm entre 2 e 6 anos e ficam até 10 horas por dia na escola – chegam e são recebidas pelo adultos educadores. Esses educadores não darão aula. São espécies de guias, responsáveis por grupos pequenos o suficiente para conhecer individualmente cada aluno, apoiá-lo e acompanhar seu desenvolvimento. Durante o dia, diversas atividades são desenvolvidas pelos "mestres" – profissionais responsáveis pelas aulas. Muitas dessas aulas são simultâneas, e a criança escolhe de qual vai participar. Um aluno pode nunca se interessar pela aula de escultura, por exemplo, mas passar a maior parte do dia pintando por conta própria. Assim, ele estaria desenvolvendo suas habilidades em artes visuais sem precisar de regras, horários e obrigações.

Mas se ele em nenhum momento se interessa por essa área do conhecimento, seu educador deve descobrir um jeito, dentro dos interesses da criança, de desenvolver atividades relacionadas às artes visuais. “Ele deve buscar o maior número de estímulos necessários”, afirma Singer. “Não temos nenhuma ansiedade de que uma criança esteja alfabetizada aos seis anos, por exemplo”. Ela cita o exemplo de um aluno dessa idade que não se interessava pelas letras, mas era fanático por aeromodelismo. Seu educador, então, decidiu estimulá-lo a escrever as regras e características dos aviõezinhos. O que era obrigação virou prazer.

Mistura de classes

A escola é um projeto do Instituto Lumiar e da Fundação Semco, do empresário Ricardo Semler. O nome de Semler é freqüentemente ligado a projetos inovadores desde os anos 80, quando ele implantou um sistema descentralizado em sua empresa e contou a experiência – considerada “revolucionária” por muitos – no best-seller “Virando a Própria Mesa”. Para ele, a escola “pretende ser uma referência no aprendizado sustentável de conteúdo, habilidades e competências”.

Ele explica que uma das principais diretrizes do projeto é a mistura de classes. De acordo com Helena Singer, 75% das crianças têm bolsa total ou parcial. As outras pagam mensalidades que chegam a R$ 1 mil. Do mesmo grupo em que estão os filhos do próprio Semler e do presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, fazem parte filhos de representantes do Movimento dos Sem-Teto, por exemplo. Eles não são os primeiros a ter parte de seu corpo docente reservado a crianças carentes. Mas em geral, as escolas separam essas crianças em turmas especiais. “Ou então é um aluno apenas na turma, como um ovni”, diz Singer. Na Lumiar, estão todas juntas.

A idéia parece ótima. Mas na prática, como são as relações entre os pais, por exemplo? “Os percalços serão nada mais do que o processo pelo qual uma criança adquire cidadania”, diz Semler. “Acreditamos que estas crianças, ao começarem a se relacionar desde os dois anos, terão uma simpatia e uma solidariedade muito diferente das crianças que são criadas de forma alienada e excluída. Algumas terão dinheiro, outras terão habilidades que gerarão admiração, e assim por diante”, completa.

Semler descarta a idéia de que o fato de que as crianças carentes têm uma urgência maior de inserção no mercado de trabalho em médio prazo possa ser um problema. “As crianças carentes serão bilíngües, conhecerão computadores, grandes mestres e intercâmbio com outros países desde pequeninos. Formar crianças carentes para o mercado de trabalho é reduzi-las demais”.

O professor e ex-secretário municipal de Educação de São Paulo, Fernando José de Almeida, concorda: “Eles vão se dar bem na questão do mercado, serão diferenciados. O garoto vai ser criativo”, diz. Para ele, o problema não é a eficiência do método, e sim sua aplicabilidade. Fernando participou dos debates para elaboração do projeto que levaram três anos. Quando era secretário, chegou a discutir com Semler a possibilidade de implantação do método na rede pública, que considera impossível.

Controle e liberdade

Pode parecer contradição, mas para Almeida a maior dificuldade é o alto grau de controle necessário para manter toda essa liberdade. “O problema de uma escola dessa natureza é que ela tem de ser tão, tão controlada...”, diz. Essa demanda impediria sua implantação em larga escala. Ele teme que, sem a administração necessária, o resultado possa ser equivocado e acabar criando “um bando de desadaptados”. “Um exemplo concreto são outras escolas libertárias que se esquecem das disciplinas tradicionais”, afirma.

Ricardo Semler acredita que a possibilidade da Lumiar tornar-se apenas “mais uma escola alternativa” é muito pequena. “Ela tem uma rede de parcerias com algumas das mais importantes universidades do mundo, começa depois de três anos de estudos profundos, visita a cerca de 200 escolas mundo afora e uma quantidade grande de gente com mestrados e doutorados no dia-a-dia da escola. A idéia de que seja uma escola alternativa ou uma Summerhill é bastante equivocada”, diz. Existe um grande diferencial entre a escola democrática e as escolas ditas "alternativas": na primeira, não existe uma doutrina. Trata-se de um modelo educacional.

Almeida classificou a experiência como “admirável”, e acredita no projeto de Semler. Mas não aposta em uma expansão. “O grande mérito é que ele (Semler) é sempre inovador. A experiência provoca uma crítica no velho sistema, oxigena”, diz. “Mas não faz verão”.