"Trabalho Interno" disseca bastidores da crise financeira

Documentário indicado ao Oscar revela verdades do caos econômico em 2008

Ilton Caldeira, iG São Paulo |

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A partir da esq., Henry Paulson, ex-secretário de Tesouro americano, Ben Bernank, presidente do Fed, e Timothy Geithner, atual secretário de Tesouro dos EUA
Pouco mais de dois anos após o estouro da crise econômica mundial, em setembro de 2008, o maior colapso financeiro desde a crise de 1929, estreia nas salas de cinema do País o documentário "Trabalho Interno". O filme é um dos indicados ao Oscar 2011 ( veja a lista completa de indicados no infográfico ).

Com distribuição da Sony Pictures, o longa é dirigido por Charles Ferguson e retrata os lados obscuros de Wall Street. Narrado pelo ator Matt Damon, revela verdades incômodas da crise que teve início com a quebra do banco americano Lehman Brothers.

Com base em uma extensa pesquisa e séries de entrevistas com políticos, economistas, jornalistas e personalidades do setor financeiro – como o mega investidor George Soros –, o filme revela as corrosivas relações e o jogo de interesses entre governantes, agentes reguladores do sistema financeiro e o mundo acadêmico.

Os depoimentos – em certos momentos concedidos de forma exaltada – e as entrevistas com alguns dos envolvidos no episódio – nitidamente contrariados diante das questões colocadas pelo diretor Charles Ferguson –, revelam ainda o esquema de mentiras e condutas criminosas, inflado pelos altos salários e pelos bônus bilionários oferecidos aos executivos do mercado financeiro.

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Wall Street, o caldeirão da economia nos EUA
Essa ciranda prejudicou seriamente a vida de milhões de pessoas em diversas partes do mundo, como, por exemplo, a Islândia, que no início do filme é usada por Ferguson para ilustrar os efeitos desastrosos da crise sobre a economia do país e de seus cidadãos.

Após apresentar de forma dura os resultados do caos na maior economia do mundo, o documentário divide sua narrativa em cinco partes, até certo ponto didáticas, para que o espectador entenda como tudo aquilo aconteceu. O diretor vasculha as entranhas de Wall Street na fase que antecedeu a crise de 2008 de forma implacável, esclarecendo as origens do tsunami financeiro com perdas globais estimadas em cerca de US$ 20 trilhões (R$ 33,2 trilhões).

Ferguson não poupa republicanos nem democratas: culpa ex-presidentes dos dois partidos, começando por Ronald Reagan, que assumiu o comando dos Estados Unidos em 1981 – ou seja 27 anos antes da eclosão da crise –, passando pelos governos Bush (pai) e Bush (Jr.), Bill Clinton até Barack Obama.

Segundo o documentário, no governo Reagan teve início o processo de desregulação do setor financeiro, com a suspensão de diversas barreiras de segurança que poderiam ter evitado as operações de risco e as fraudes financeiras nas demonstrações contábeis dos bancos.

Esse descaso em nome de uma suposta melhoria nas condições de competição do sistema financeiro americano criou situações assombrosas, como a existência de um único funcionário responsável na Securities and Exchange Commission (SEC) – o órgão similar à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no Brasil - por toda a gestão e fiscalização de exposição ao risco do mercado financeiro. Ferguson revela também as medidas desastrosas do Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, potencializadas por uma condução governamental perigosa para a sustentabilidade econômica, num caldeirão com boas doses de corrupção, vista grossa e irresponsabilidade.

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Noticiário anuncia crise no mercado asiático
Mas uma das partes mais interessantes é justamente aquela em que o cineasta aborda o componente comportamental dos executivos e operadores financeiros do setor. Tomados por uma sensação de impunidade, de propriedade absoluta de poder e inviolabilidade, construíram uma cultura de excessos e insensibilidade crônica, onde havia, e ainda há, a participação explosiva de elementos como drogas e prostituição em larga escala. Uma mistura que, em vez de ampliar as riquezas do sistema financeiro, produziu tragédias econômicas, desespero e, como resultado final, congelou o maior motor da economia mundial.

O filme termina mostrando que o mundo não está livre de novos abalos financeiros, já que muitos dos causadores da crise, como o ex-secretário de Tesouro dos Estados Unidos Henry Paulson, o presidente do Fed Ben Bernanke e até mesmo o atual secretário de Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, ocupam postos estratégicos. Ou seja, os mesmos personagens permanecem dando as cartas na mesa. Algumas das mais novas vítimas são gregos, irlandeses, espanhóis, portugueses e outros povos europeus que estão sendo “convidados” a aceitar uma ajuda financeira do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O fato curioso é que o documentário entra em cartaz no Brasil na mesma data em que tem início o encontro dos ministros das Finanças do chamado “Grupo dos 20” (G20), que reúne as autoridades econômicas dos países desenvolvidos e das principais economias emergentes. Um dos temas da pauta do encontro é justamente a melhoria das regras de fiscalização e gestão do sistema financeiro, e muitos dos “atores” principais do filme de Charles Ferguson estarão nas mesas de debates em Paris neste fim de semana.

Assista ao trailer de "Trabalho Interno":

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