Para brasileiros que votam no Oscar, premiação reflete rumos da indústria

Fernando Meirelles e Daniel Rezende comentam aumento do número de indicados a melhor filme e rumos da festa hollywoodiana

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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O diretor Fernando Meirelles: há três anos sem pagar a anuidade da Academia
O Brasil pode nunca ter ganhado um Oscar, mas as indicações ao prêmio garantiram que ele esteja lá, todos os anos, participando da escolha dos vencedores. São os poucos brasileiros que integram a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e, com isso, têm o direito de voto para decidir quem leva a estatueta dourada. Quer dizer, se eles pagarem a taxa de anuidade.

Não é o caso do diretor Fernando Meirelles. Indicado em 2004 por "Cidade de Deus", o cineasta passou a fazer parte da Academia no ano seguinte, mas desde 2007 não paga a taxa anual de 250 dólares. "Para falar a verdade, não acompanho muito esse prêmio. Percebi que fazem um 'auê', mas depois de dois meses não sabemos quem levou o que", disse o diretor em entrevista ao iG , desafiando os leitores a lembrar quem ganhou como melhor filme em 2009. "Numa corrida de cavalos eu sei dizer precisamente quem foi o melhor. Com filmes ou em qualquer forma de arte, é no mínimo insanidade achar que se pode fazer esta classificação, mas a turma gosta de uma competiçãozinha."

Também resolveram ficar de fora do páreo em 2010 a atriz Fernanda Montenegro ("Central do Brasil") e o roteirista Bráulio Mantovani ("Cidade de Deus"), ocupados demais para votar. O diretor Hector Babenco ("O Beijo da Mulher Aranha") já abriu ao Estado de S.Paulo seu voto em "Up - Altas Aventuras", enquanto os cineastas Bruno Barreto e Walter Salles não se manifestaram. O editor Daniel Rezende ("Cidade de Deus"), por sua vez, mesmo mergulhado nas filmagens e edição de "Tropa de Elite 2", conseguiu arranjar tempo para assistir aos concorrentes. E paga a anuidade.

Rezende disse que acompanha os filmes da temporada através de "screeners", DVDs que os estúdios enviam aos membros da Academia para que eles decidam seus preferidos. "É impossível fazer com que os quase 6 mil membros vejam todos os filmes lançados no ano. Aqueles que os estúdios apostam como possíveis candidatos chegam à mão de quase todos os associados, e consequentemente têm mais chances", afirmou, lamentando que produções como "A Estrada", ainda inédito no Brasil, e o sueco "Deixa Ela Entrar" tenham sido esquecidos da festa. "Procuro tentar escolher os que me trazem uma sensação de frescor, dentre a mesmice que algumas vezes impera."

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O editor Daniel Rezende confirma: "Nem sempre o melhor é o vencedor"
A praticidade, vamos chamar assim, desse esquema de envio de filmes é só uma pequena amostra dos bastidores, daquilo que o Oscar representa de fato, mas que muitas pessoas, por ingenuidade ou na ânsia da torcida, parecem ignorar. "O prêmio da Academia não se propõe a dizer quais são os melhores filmes, mas sim em promover a própria indústria", esclareceu Fernando Meirelles. "O critério de escolha passa pelo gosto dos membros da indústria, mas depende enormemente das campanhas caríssimas que são feitas para que os filmes cheguem lá. E incluo 'Cidade de Deus' e "Jardineiro Fiel' nisto, os distribuidores gastaram muito. É um negócio."

Isso acaba tendo impacto no próprio formato da eleição. Para definir os indicados, cada membro da Academia vota nos candidatos de sua área: diretores na categoria de direção, roteiristas na de roteiro e assim por diante. Na hora de escolher o ganhador do Oscar, porém, todos votam em tudo, e aí o marketing pode fazer a diferença. "Nem sempre o melhor é o vencedor. Alguns filmes que deveriam ser premiados por quem supostamente entende do assunto são deixados de lado por um esquema que movimenta muito dinheiro e que tende a fazer a cabeça das pessoas", comentou Rezende. "Mas isso não é uma regra. Não existe como controlar o voto de quase 6 mil pessoas."

Na opinião dos dois, o aumento do número de indicados a melhor filme de cinco para dez está relacionado, mais uma vez, a essa lógica comercial. Rezende especula que a mudança pode ser fruto da pressão dos estúdios para aumentar as chances de um longa-metragem poder estampar no cartaz a grife "indicado ao Oscar de melhor filme". "Serve para colocar mais gente no páreo, gerando mais publicidade e ajudando a movimentar ainda mais todo o negócio", completou Meirelles. "E quando falo em negócio não há nenhuma crítica nisso. Cinema é arte, mas é também indústria, não tenho nenhum problema com o lado comercial da atividade. Digo sempre: quer criar livremente? Escreva um poema."

Divulgação
"Avatar": representante da indústria hollywoodiana no Oscar 2010
Se essa tendência mercadológica desse as cartas de forma clara na premiação, "Avatar", o filme com a maior bilheteria da história, teria grandes chances de dominar a noite, como foi no Globo de Ouro. Rezende é um pouco resistente a essa possibilidade: "Se 'Avatar' ganhar o prêmio de melhor filme, terei certeza que não entendo mais nada sobre cinema".

Já Meirelles, como não vai votar no Oscar mesmo, aproveitou a pergunta para falar de... política. "Confesso que não levo muito a sério o meu voto. Nesse caso, claro, pois para votar para deputado ou senador a ficha corrida e atestado de antecedentes fazem toda a diferença. Para presidente, então, conhecer o trabalho realizado também é fundamental, e é por isso que não votarei na Dilma, pois não sei o que ela fez entre seu passado glorioso e ter virado a mãe do PAC com 40% do trabalho entregue."

E o Oscar, Fernando? "Não voto há três anos, mas para não deixar a pergunta em branco: vou votar na Marina Silva este ano. Pela educação, por um desenvolvimento sustentável de fato e por um novo paradigma para as nossas vidas."

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