Indicado ao Oscar 2011, Denis Villeneuve fala de 'Incêndios'

'Tudo é política', afirma ao iG o diretor do longa-metragem que concorre a melhor filme estrangeiro pelo Canadá

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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A atriz Lubna Azabal em cena de "Incêndios": ônibus queimado por extremistas religiosos
Por ser uma das únicas categorias do Oscar em que é preciso comprovar ter visto todos os concorrentes, a disputa para melhor filme estrangeiro é imprevisível, justamente porque os votantes ficam menos vulneráveis ao hype e à publicidade dos estúdios. Apesar disso, a briga pela estatueta tem esquentado nas últimas semanas e o nome do franco-canadense "Incêndios", que estreia nesta sexta-feira (25) no Brasil, surgiu como candidato forte ao prêmio. Dirigido por Denis Villeneuve, o filme é uma adaptação da peça do libanês Wajdi Mouawad e engloba vários temas, nenhum deles fácil – guerra, intolerância religiosa, estupro e genocídio são apenas algumas pinceladas de uma história tensa e envolvente.

Fã do trabalho de Mouawad, dramaturgo consagrado no Canadá e na França, Villeneuve foi assistir ao último dia da temporada de "Incêndios" em Montreal e acabou nas primeiras fileiras do teatro. Aos poucos, imergiu na trama e ali, sentado na poltrona, teve a certeza de que aquele seria seu próximo trabalho. "Eu não estava lá para encontrar material para um filme, mas fiquei estupefato com a beleza e o poder daquelas ideias", afirmou Villeneuve, 48 anos, ao iG desde Los Angeles. "Me impressionou muito o modo como tratava da raiva dentro da família, da sociedade e do país."

"Incêndios" começa com um casal de irmãos gêmeos ouvindo o testamento da mãe, Nawal, que tinha um passado misterioso como imigrante no Canadá. Eles descobrem ter um pai e um irmão que não sabiam e precisam entregar nas mãos de cada um cartas deixadas pela mãe como último desejo. A história se alterna, então, com flashbacks de Nawal no Oriente Médio, antes numa família repressora e depois como revolucionária na Guerra Civil, e da filha, Jeanne, tentando rastrear o pai e o irmão no país fictício no qual a trama se situa.

Villeneuve levou cinco anos para concluir "Incêndios", realizado ao mesmo tempo que "Politécnica", dramatização sobre o massacre de alunas de engenharia em 1987 numa faculdade de Montreal. Antes disso, no entanto, seu último longa-metragem havia sido "Redemoinho", de 2000. Tanto tempo afastado das câmeras foi, segundo ele, uma escolha consciente para não banalizar seu trabalho. "Decidi não fazer outro filme só por fazer. Da próxima vez, seria algo que significasse algo para mim, de que eu pudesse me orgulhar. Estava pronto para esperar 20 anos (risos)."

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Denis Villeneuve, diretor de "Incêndios", no Festival de Sundance, em janeiro
A espera, garante, valeu a pena. O diretor reconheceu que não tinha tanta experiência em roteiro e voltou para a escola. Era uma forma de remover a pressão, de evoluir. "Com isso, fiz, de longe, meus dois melhores filmes. As ideias estão mais desenvolvidas, a direção, 10 mil vezes melhor. Estes dois projetos foram uma alegria do ponto de vista criativo. Todos os dias acordava pensando que estava fazendo a coisa certa, no momento certo, nolugar certo. Nem sentia cansaço: era uma constante injeção de adrenalina, o que é perigoso, porque é quase como uma droga. Agora sei que para fazer outro filme vou precisar experimentar a mesma motivação. Estou ansioso para levar tudo o que aprendi a futuros projetos." A humildade surpreende para alguém que chama a atenção da crítica e dos festivais desde o início da carreira e é um dos principais premiados do Genie Awards, o "Oscar" canadense.

Ficção para mostrar a realidade

Humildade foi também a solução para falar sobre o Oriente Médio. Villeneuve lembra que sabia o que todo mundo sabe através dos jornais e da televisão. "É uma péssima ideia para um cineasta filmar algo que ele não conhece. Mouawad já havia me advertido que seria impossível entender porque era muito complicado. Mesmo sendo libanês, já é difícil, para estrangeiros, então, pior ainda. Ele estava certo, tanto que decidi situar o filme em uma terra ficcional para ser mais fiel à realidade."

Filmada no Canadá e Jordânia, a história, teoricamente, se passa numa região entre Líbano, Israel e Síria. As cidades citadas no filme não existem, mas tudo é muito próximo da cultura árabe e os fatos, similares à história recente libanesa, como os conflitos entre muçulmanos e católicos durante a guerra civil no país. "Para tornar a história verossímil, tive que pesquisar e ouvir muito. Coloquei meu ego de lado, fui lá, conversei com dezenas de pessoas do Líbano, da Jordânia, ouvi seus comentários, fiz workshops com atores locais e mudei o roteiro mil vezes. Foi um desafio, mas tinha que ser real."

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Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette, os gêmeos de "Incêndios"
Villeneuve já exibiu "Incêndios" em um festival de Adu Dhabi, nos Emirados Árabes, e em breve viaja com o filme para o Líbano, onde as sessões provocaram reações bastante opostas. "Ele foi bem recebido, mas ao mesmo tempo alguns libaneses acham muito estranho ter mudado o nome dos lugares, a história. Então uns amaram, outros detestaram – só comentários extremos vindos do Líbano (risos)." Já os integrantes do Radiohead não tiveram dúvidas: depois de assistir ao filme – foram eles os primeiros espectadores –, a banda britânica autorizou o uso de duas músicas, "You and Whose Army?" e "Like Spinning Plates".

Assim como seu conterrâneo Denys Arcand, também quebequense e ganhador do Oscar de filme estrangeiro por "As Invasões Bárbaras" (2003), Villeneuve faz um cinema nada fácil de ser assistido – matanças chocam em "Incêndios" e "Politécnica" –, mas, sobretudo, com forte teor político. "Tudo é política", explicou o cineasta. "Mesmo que o filme não seja político, ele acaba tocando no assunto, nem que seja indiretamente. Política também vai estar nos meus próximos trabalhos. Talvez não seja para sempre, mas por enquanto é o que me instiga."

Na Califórnia para atender a imprensa, encontrar produtores e esperar pela entrega do Oscar, no próximo domingo, Villeneuve diz que a indicação impulsionou a carreira de "Incêndios", vendido até agora para 45 países. O clima no Canadá é de pura torcida e o assédio cercou o diretor. "As coisas têm sido bem intensas em casa. Em Los Angeles está sendo mais quieto, é mais profissional, posso caminhar tranquilo na rua e... tentar dormir." Com um barulho desses, não deve ser fácil.

Assista ao trailer de "Incêndios":

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