Catador de lixo do Rio tem visto negado para ir ao Oscar 2011

Um dos personagens do documentário "Lixo Extraordinário", que concorre na categoria, Tião sonha em viajar a Hollywood

iG São Paulo com Reuters |

Divulgação
Tião posa para foto que dará origem a uma das obras do artista brasileiro Vik Muniz
Um catador de lixo brasileiro pode dividir o palco do Oscar 2011 com gente como Brad Pitt e Johnny Depp no final de fevereiro, depois de estrelar um documentário sobre o poder transformador da arte. Em "Lixo Extraordinário", indicado ao Oscar de melhor documentário, Sebastião Carlos dos Santos, conhecido como Tião, e um grupo de outros trabalhadores num aterro sanitário do Rio de Janeiro tornam-se fontes de inspiração do artista plástico brasileiro Vik Muniz, que lança luz sobre uma atividade que a sociedade preferiria ignorar.

Usando fotos ampliadas deles mesmos e do próprio lixo que vasculham todos os dias em busca de objetos recicláveis, Tião e seus colegas ajudam Muniz a criar obras de arte que são compradas por colecionadores internacionais por milhares de dólares.

Tião, no entanto, enfrenta uma barreira grande para seu sonho de chegar a Hollywood: a burocracia da imigração norte-americana. Radicado em Nova York, Vik Muniz, que também vem de família pobre, disse à Reuters que o pedido de visto de visitante aos EUA feito por Tião foi recusado, mas que ele ainda tem esperanças de que seja aprovado em tempo para a cerimônia de premiação que acontecerá no final de fevereiro. "Estamos pensando em ir com Tião", disse Muniz à Reuters. "Ele é uma pessoa que é fundamental neste filme. Deveria realmente ser ele a receber o Oscar." No fim do dia, Tião não confirmou a recusa do consulado norte-americano .

No filme, Tião acaba viajando com Muniz para uma importante casa de leilões em Londres e chora quando uma foto, baseada em sua pose numa banheira encontrada no aterro, é arrematada por 28 mil libras (45 mil dólares).

"Quando as pessoas me dizem que vou a Hollywood, não parece real", disse Tião, 32 anos, à Reuters. "Às vezes brinco com Vik – digo que, quando o relógio bater a meia-noite, vou perder meus sapatos e o mundo vai voltar para onde estava. Mas acho que agora não vai mais, acho que o mundo nunca mais será como antes."

Tião começou a ajudar sua família a catar lixo no aterro de Gramacho, em Duque de Caxias (RJ), quando tinha apenas 11 anos. Ele conseguiu comprar uma casa com o lucro obtido do leilão de arte. "Muita gente ainda tem preconceito em relação ao trabalho dos catadores", disse Tião, acrescentando que são "recicladores".

"As pessoas veem o lixo como algo insignificante e invisível, e era assim que os catadores de lixo eram vistos também", afirmou ele, que tornou-se presidente da associação local de catadores de lixo. "Este filme mostra que somos batalhadores, que sustentamos nossas famílias e fazemos um trabalho honesto."

Coprodução entre Brasil e Reino – o que provocou polêmica na momento das indicações –, com direção da britânica Lucy Walker e dos brasileiros Karen Harley e João Jardim, "Lixo Extraordinário" ("Waste Land" em inglês) vem sendo descrito como o "Quem Quer Ser um Milionário" dos documentários, mas enfrentará concorrência difícil na categoria de melhor documentário. Seus quatro rivais incluem outro filme que foca a arte de rua: "Exit Through the Gift Shop", do artista britânico anti-establishment Banksy.

Assista ao trailer de "Lixo Extraordinário":

    Leia tudo sobre: lixo extraordináriotiãodocumentáriooscar 2011

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG