Catador de lixo diz que visto para ir a Oscar 2011 não foi negado

O2, coprodutora do documentário ¿Lixo Extraordinário¿, afirma que o pedido ainda não foi encaminhado ao consulado americano

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro |

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Tião segura prêmio no Festival de Paulínia
“A ficha ainda não caiu. É muito surreal”, vibra o catador de lixo Sebastião Carlos dos Santos, o Tião, uma das estrelas de “Lixo Extraordinário”, indicado ao Oscar 2011 de melhor documentário.

O filme registra o trabalho do artista plástico brasileiro Vik Muniz no Jardim Gramacho, maior aterro sanitário do mundo, na região metropolitana do Rio, e como a vida dos catadores foi afetada. Muniz é, talvez, o brasileiro mais badalado no universo das galerias e leilões internacionais, famoso principalmente por reproduzir pinturas consagradas com materiais inusitados – lixo, por exemplo.

Reunido em Brasília com outros catadores para debater o futuro da categoria, Tião nega que seu pedido de visto tenha sido recusado . “Não tem nada disso”, garante. A O2, que coproduziu o filme, afirma que ainda não fez a solicitação e que nem mesmo definiu o grupo de pessoas que irá para Hollywood acompanhar a cerimônia de entrega da estatueta.

De acordo com a agência de notícias Reuters, o artista plástico brasileiro Vik Muniz teria afirmado que o visto de Tião havia sido negado. Porém, por meio de sua assessoria de imprensa, a O2 informa que desconhece o contexto em que afirmação teria sido feita por Vik, e que acredita em algum mal entendido.

Alheio ao caso, Tião diz que só pensa em comemorar a indicação. “Caraaaaaca, estamos no Oscar”, ele repete, como se ainda não acreditasse. “É muito difícil interpretar o que está acontecendo. Acho mesmo que a melhor oportunidade do filme é dar visibilidade social à problemática dos catadores”, conta Tião, que começou a catar lixo aos 11 anos para ajudar a mãe a sustentar seus sete irmãos. Hoje ele preside a Associação de Catadores de Jardim Gramacho (ACAMJG), em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, e integra projetos da Coppe/ UFRJ voltados ao trabalho de gestão de resíduos integrados.

Tião mora perto do Aterro de Gramacho – endereço final de 70% do lixo produzido na cidade do Rio de Janeiro (algo como 8 mil toneladas diárias) – e até hoje leva trabalho para casa. É na quitinete alugada por R$ 300 que ele coordena as atividades da cooperativa que preside, e ainda vive com a mulher Idenise Maria de Freitas, de 27 anos, e a filha Carla Elis, 9 anos.

“O Tião se dedica mais aos outros do que a si mesmo”, diz Idenise. “Mas o trabalho vale a pena, a situação do catador merece atenção”, pondera ela, que diz ter total desconhecimento sobre a possibilidade de o marido viajar para Hollywood.

“Meu objetivo maior é compartilhar esse momento”

Por causa do filme, Tião Santos já viajou a Londres – onde acompanhou o leilão do quadro para o qual serviu de modelo de Vik Muniz – e a Berlim, e diz que adoraria viajar para os EUA para participar da cerimônia do Oscar. Contudo, afirma ser mais importante exibir o filme para todos os catadores que atuam em Gramacho.

“Queria montar um telão na praça Alcir Cavaleri e fazer uma sessão especial lá em Caixas, já que nem todos os catadores assistiram ao documentário. Cada trabalhador ali tem uma história de vida muito especial, eles merecem”, conta ele.

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Tião posa para foto que dará origem a uma das obras do artista brasileiro Vik Muniz
Enquanto aguarda os resultados da Academia de Hollywood, Tião tenta manter os pés no chão e seguir a rotina. Quando voltar de Brasília, continuará à frente dos trabalhos da cooperativa e dos projetos para melhorar as condições de vida dos catadores de lixo. “Mas também quero encontrar minha mãe, dona Gerusa. Ela deve estar muito chateada, até agora não falei com ela sobre essa indicação ao Oscar. Tá tudo muito corrido, mas minha mãe é tudo para mim.”

Antes de realizar o sonho de ser o primeiro catador de lixo a empunhar um Oscar, Tião deve realizar um desejo mais antigo: o da casa própria. A mudança para o novo endereço, dessa vez um imóvel de dois quartos, em Caxias mesmo, foi possível graças ao leilão dos quadros de Vik Muniz, em Londres – onde a peça que o retrata foi arrematada por 28 mil libras (R$ 67 mil).

“Essa história toda mudou a minha vida. Mas o importante mesmo é chamar a atenção para a questão social do catador. Imagina garantir a essa temática uma repercussão internacional?”, diz ele, antes de seguir apressado para outro compromisso de trabalho.

Coprodução entre Brasil e Reino Unido , com direção da britânica Lucy Walker e dos brasileiros Karen Harley e João Jardim, "Lixo Extraordinário" vem sendo descrito como o "Quem Quer Ser um Milionário" dos documentários, mas enfrentará, no Oscar, concorrência difícil na categoria. Seus quatro rivais incluem outro filme que foca a arte de rua: "Exit Through the Gift Shop", do artista britânico Banksy.

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