"Bravura Indômita" devolve imponência ao faroeste

Sem fantasia, irmãos Coen encaram história de vingança indicada a dez Oscars

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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Jeff Bridges no auge: xerife caolho, bêbado, sujo e de chapéu furado, mas rápido no gatilho
O faroeste sempre pareceu um gênero perfeito para os irmãos Joel e Ethan Coen. A batalha entre o bem e o mal, mocinhos e bandidos, com uma tendência irresistível para sangue e situações limite, se encaixa perfeitamente com o que dupla de cineastas fez ao longo dos anos. O oscarizado "Onde os Fracos Não Têm Vez" (2008) já era um faroeste velado, mas agora a abordagem é explícita. "Bravura Indômita", que entra em cartaz nesta sexta-feira (11), com dez indicações ao Oscar 2011 , é um exemplar imponente do gênero, com desenvoltura igual ou maior aos clássicos do velho oeste.

Não é a primeira adaptação do romance homônino de Charles Portis, a princípio um folhetim numa revista semanal, depois um bestseller nos Estados Unidos. John Wayne ganhou seu único Oscar de melhor ator em 1970 pelo papel de Rooster Cogburn, mas não é justo comparar os dois longas, separados por 40 anos e uma revolução cultural. O filme original, dirigido por Henry Hathaway (pau-mandado dos estúdios), serviu como despedida para a Hollywood de antigamente.

Nos cinemas, "Sem Destino", de Dennis Hopper (que teve uma ponta ao lado de Wayne), eletrizava plateias como ícone da contracultura. Anacrônico, "Bravura Indômita" (1969) ia a toda velocidade na contramão: usava trilha sonora antiquada, um xerife de lenço rosa, um astro da música country como coadjuvante (o sofrível Glen Campbell no papel de LaBoeuf) e uma mulher de 21 anos, casada e mãe, como uma pré-adolescente de 14 (Kim Darby, que substitiu Mia Farrow perto do início das filmagens, precisou usar faixas para esconder os seios). Isso sem falar nas liberdades para transformar o roteiro numa história condizente com a moral e bons constumes da antiga indústria norte-americana. Era o início de uma nova fase em Hollywood e o ocaso de John Wayne.

Os irmãos Coen enxergaram no livro material muito mais promissor e foram bem além do remake "Matadores de Velhinha" (2004). Mas a comparação mais uma vez é injusta, porque não se trata de uma refilmagem, e sim de uma releitura completa, ou, no caso, de uma adaptação fiel ao romance.

No século 21, "Bravura Indômita" já começa com a jovem Mattie Ross (a estreante Hailee Steinfeld, indicada ao Oscar) indo buscar o corpo do pai em Fort Smith, no Arkansas, morto e roubado por um funcionário bêbado, Tom Chaney (Josh Brolin). O ano é 1878 e Chaney fugiu para o território indígena – terra sem lei que três décadas depois daria origem ao estado de Oklahoma –, onde se juntou ao bando de criminosos liderado por Ned Pepper (Barry Pepper, cujo "parentesco" deve ter pesado no casting). A polícia nada pode fazer e Mattie, sedenta por vê-lo pendurado na forca, resolve contratar o melhor xerife da área, e também o mais cruel: ele é Rooster Cogburn.

Depois de mostrar sua voz ininteligível de dentro de uma latrina, os Coen apresentam Cogburn aos poucos, numa ótima sequência no tribunal. As características do personagem continuam as mesmas, mas acentuadas pelo figurino, direção e por um trabalho primoroso de Jeff Bridges, talvez o melhor de sua carreira. De tapa-olho, acima do peso e fã de uísque, Cogburn mora nos fundos de um mercadinho chinês, em meio a patos defumados e ervas desconhecidas. Ele é imundo, cambaleante e tem o dedo nervoso no gatilho – sua lista de prisões é menor do que a de mortes.

Os diálogos entre o xerife e a verborrágica Mattie asseguram alguns dos melhores momentos do filme, mas LaBoeuf (Matt Damon) não fica muito atrás. O Texas Ranger – outro representante do emanharado de polícias especiais dos EUA – está atrás de uma recompensa pela cabeça de Chaney, que matou um senador texano e seu cachorro, e se une ao grupo. Convencido e fantasiado de vaqueiro, com franjas na roupa e esporas a tiracolo, LaBoeuf – que disputa com Mattie as atenções de Cogburn – serviria como alívio cômico. Serviria, porque desta vez o humor não é muito doce.

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Matt Damon disputa interesse da heroína
Há espaço para risadas, em especial nos absurdos espalhados pela história (atenção para o curandeiro vestido de urso), mas a visão dos Coen é tão crua e autêntica, sem o ar fantasioso e heroico dos faroestes clássicos, que às vezes a graça beira o politicamente incorreto, outra marca registrada da dupla. A verve sanguinoleta dos diretores, aliás, está sob controle, mas não totalmente.

O que chama atenção, porém, é a honestidade. "Bravura Indômita" não faz concessões aos personagens: seguidos de perto, eles são o que são, falhos, sem idealismo ou espaço para agradar o espectador. A decisão de manter a trama no inverno (palmas para a fotografia de Roger Deakins) acentua essa rigidez e combina com a narração de Mattie, já adulta, amarga e saudosa, assim como os Coen – que usaram chapéus de caubói durante toda a filmagem – também parecem ser. Um triunfo técnico e um grande western, perto da perfeição.

Assista ao trailer de "Bravura Indômita":

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